Trabalho realizado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo - USP - Ribeirão Presto (SP), Brasil.
1. Professora Doutora do Curso de Fisioterapia - Departamento de Biomecânica, Medicina e Reabilitação do Aparelho Locomotor, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo - USP - Ribeirão Presto (SP), Brasil.
2. Professor Associado do Departamento de Biomecânica, Medicina e Reabilitação do Aparelho Locomotor, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo - USP - Ribeirão Presto (SP), Brasil.
3. Professor Titular do Departamento de Biomecânica, Medicina e Reabilitação do Aparelho Locomotor, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo - USP - Ribeirão Presto (SP), Brasil.
4. Professora Doutora do Curso de Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo - USP - Ribeirão Presto (SP), Brasil.
Endereço para correspondência: Departamento de Biomecânica, Medicina e Reabilitação do Aparelho Locomotor, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto- USP, Av. Bandeirantes, 3.900 - 14049-900 - Ribeirão Preto (SP) - Brasil.

INTRODUÇÃO

As mãos são importantes fontes de contato com o meio externo e essenciais na expressão da individualidade(1-2). As lesões traumáticas das mãos podem acarretar seqüelas decor-rentes de deficiências motoras e/ou sensitivas, muitas vezes permanentes, afetando tanto as atividades funcionais do dia-a-dia, bem como as profissionais antes exercidas.

Diversos estudos têm levantado dados sobre as lesões das mãos, quanto a: faixa etária, sexo, causas mais comuns, tipos de lesão e afastamento do trabalho(3-13). A mão também é um órgão freqüentemente lesado na criança, como alvo de agressão, primário ou secundário, quando esta tenta defender-se do agressor. Lesões podem ser provocadas por numerosos instrumentos, levando a queimaduras, eritemas, contusões ou até fraturas(14-17). Agressões e brigas entre adultos jovens também são relatadas na literatura como situações relacionadas aos traumas das mãos(18), bem como por socos em portas de vidro relacionados ao consumo de álcool(19-20) ou por lançamento de rojões ou fogos de artifício, acarretando, na maioria das vezes, graves lesões(21-22).

Os altos índices de violência urbana e de acidentes de trânsito têm levado à chamada epidemia dos traumas de mão. A prevenção de acidentes tem sido vista como útil na prevenção de lesões traumáticas da mão(23). Atividades domésticas, de lazer ou esporte, também são alvo quando se enfoca a prevenção, seja por lesão por fogos de artifício, ferimentos cortocontusos ou queimaduras(24-25).

O objetivo deste trabalho é fazer levantamento retrospectivo de dados sobre lesões traumáticas das mãos por meio de amostra populacional de pacientes atendidos em um hospital universitário durante um ano, visando conhecer o perfil dos acidentados de mão. E, através deste trabalho, iniciar um banco de dados local, estimulando novos estudos analíticos que relacionem as possíveis causas e, por conseguinte, indicar diretrizes para a prevenção desses acidentes.

MÉTODOS

O estudo realizado foi do tipo retrospectivo descritivo, visando levantamento de dados sobre os acidentes envolvendo a mão, durante o ano de 2000, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (HCFMRP-USP).

Os materiais utilizados como fonte de coleta dos dados dos indivíduos foram os prontuários, que ficam arquivados sob a responsabilidade do Serviço de Arquivo Médico do hospital. O referido hospital é um centro de referência terciário no tratamento dos traumatizados encaminhados da cidade e região. Para a pesquisa nosológica foram usadas as denominações dos traumatismos das mãos classificados segundo o Código Internacional das Doenças (CID-10). A partir do agrupamento dessas palavras, o sistema informatizado de arquivo do hospital produziu uma lista de 2.556 prontuários, sendo considerada a população do presente estudo.

O tamanho da amostra foi de 355 prontuários, baseada em um intervalo de confiança de 95%. Foi utilizada a técnica de amostragem aleatória simples.

As variáveis analisadas nos traumas de mão foram: idade, sexo, local de procedência, dominância, ocupação principal(26), lado lesado, lesões associadas, agente causal e o diagnóstico.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do HCFMRP-USP.

RESULTADOS

Segundo dados estatísticos da Central de Processamento de Dados da instituição, dos 47.120 casos atendidos no ano de 2000, 19,6% (9.249) foram traumas em geral. Desses traumas, 65% (6.015) dos atendimentos foram realizados pela clínica de Ortopedia e Traumatologia.

Do total de casos de traumatismos, 27,6% foram referentes aos traumas de mão (gráfico 1). Do total de casos ligados à Ortopedia e Traumatologia, a incidência de acidentes na mão correspondeu a 42,5%.

 

Do total geral de casos atendidos em 2000 no referido hospital, 5,4% foram traumas de mão.

Neste estudo, a distribuição das freqüências das idades no momento do trauma apresentou grande amplitude, variando de um mês até 88 anos. A média de idade foi de 27 anos. O sexo predominante foi o masculino, com 264 casos (74,4%).

Da amostra analisada, 66,6% (235) dos casos eram procedentes de Ribeirão Preto e 33,4% (118), encaminhados de outros municípios; em apenas dois casos não havia essa especificação no prontuário.

Com relação à ocupação principal, a amostra dos casos aten-didos com traumas das mãos apresentou freqüência maior entre os classificados como menores e estudantes, com 28%; seguidos pelas profissões de nível técnico que lidam com ferramentas, como marceneiros, carpinteiros, mecânicos, pedreiros, com 24%, seguidos por outras ocupações. Os indivíduos auto-identificados como ligados ao comércio e serviços gerais e as mulheres classificadas como do lar tiveram distribuição similar: 14% e 12%, respectivamente. Já ocupações ligadas a atividades como de profissionais liberais, funcionários públicos e profissionais das letras e artes tiveram baixa freqüência de lesões da mão.

Dos casos analisados neste estudo, a mão mais lesada foi a direita, com 49,9%, com pequena diferença com relação à mão esquerda, com 41,3%. Uma pequena percentagem sofreu lesão bilateral, 8,2%, geralmente associada a queimaduras. Apenas dois casos não continham a informação do lado lesado no prontuário (gráfico 2).

 

De todos os casos estudados, 73,2% do total (260), os traumas nas mãos não vieram associados a nenhum tipo de lesão em outras partes do corpo. Os politraumatizados ficaram em segundo lugar, com 52 casos, 14,6% (tabela 1). Esses casos estavam associados a traumas mais graves, como queimaduras e acidentes de trânsito, com lesões extensas e múltiplas.

As causas mais freqüentes dos traumas nas mãos foram os acidentes de trânsito, com 17,5%, seguidos pelos ferimentos por vidro ou latas e por máquinas e ferramentas, com percentagens similares, 14,2% e 14%, respectivamente (tabela 2). Ca-sos como explosões por fogos de artifício e arrancamento de dedos em postes de cabos elétricos residenciais metálicos tipo "torrinha" tiveram baixa incidência neste estudo. As picadas de escorpião apareceram com freqüência duas vezes maior do que as mordeduras de animais, respectivamente, 4,5% e 2,1%.

 

Com relação ao diagnóstico, na amostra como um todo, as fraturas foram as mais freqüentes, com 117 casos (33%), seguidas pelas lesões dos tendões flexores em associação aos nervos, com 72 casos, correspondendo a 20,3% do total (tabela 3).

 

DISCUSSÃO

Comparando os dados obtidos nesta amostra com a litera-tura, foi observada incidência maior em adultos jovens, concordante com outros estudos, com pequenas variações. Clark et al(27) encontraram acometimento na faixa etária entre 12 e 29 anos. Batista e Filgueira(10) encontraram indivíduos com idade entre 20 e 40 anos, acima do verificado no presente estudo, possivelmente devido à amostra escolhida para análise. Smith et al(15) detectaram a média de idade de 25 anos, com variação de 11 a 80 anos. A média de idade mais próxima foi a do trabalho de Hill et al(16), com 27,2 anos, além da moda de 21 a 25 anos, e variação de um a 93 anos de idade.

Na amostra estudada houve acentuado predomínio do sexo masculino, com 74,4%. Os dados deste trabalho apresentaram resultados similares aos dos de Santos et al(28); Lopes(29) e Batista, e Filgueira(10). Pardini et al(5) encontraram, em um estudo de 1.000 casos de acidentes de trabalho, 93,2% de ho-mens com lesão traumática da mão. Os valores encontrados vão ao encontro da experiência clínica, em que é sabido que o homem, mais sujeito a situações de risco no trabalho, no trânsito e também a casos de violência urbana, está mais propenso a sofrer acidentes na mão(28).

Neste estudo os indivíduos com ocupações técnicas que lidavam com ferramentas cortantes como serras foram o segundo grupo em incidência. Sendo jovem, a amostra pesquisada, muitos casos foram de menores ou estudantes.

Smith et al(15) encontraram 54% de lesões na mão direita, 44% na esquerda e 2% bilaterais, em um hospital do Reino Unido, corroborando os achados deste estudo. Thomas et al(17) encontraram, em um estudo entre crianças na Índia, 61,3% dos casos de lesões na mão direita. Isso possivelmente se deve ao fato de a maioria das pessoas na população em geral ser destra e os acidentes geralmente ocorrerem quando o indivíduo usa a mão dominante numa situação de risco. É um item importante a ser levantado, justamente pela relação que pode ser estabelecida entre a dominância e a mão lesada no trauma e suas conseqüências em termos de seqüelas funcionais permanentes, levando muitas vezes o indivíduo a ter que alternar a dominância ou até ficar incapaz para algumas atividades bimanuais no trabalho. Casos de lesões intencionais têm maior probabilidade de ocorrer com a mão dominante(9). Apesar da aparente importância dessa informação, em poucos prontuários estava descrita a dominância do indivíduo que sofreu uma lesão traumática na mão, ficando, portanto, inviável a análise dessa variável. A inclusão desse item nas fichas do atendimento inicial dos acidentados da mão poderia ser útil para estudos da relação entre dominância e mão lesada com o tipo de trauma e atividade realizada.

Os acidentes com as mãos são na sua grande maioria isolados, decorrentes de traumas diretos ou durante o manuseio de ferramentas em tarefas do dia-a-dia, como ocorreu nesta amostra, com 73,2% dos casos.

Os traumas graves, embora menos freqüentes, são os que mais podem deixar seqüelas, com relação à perda funcional e estética, pois em geral levam a amputações mutilantes. Os traumas por socos em portas de vidro, em geral nos adultos, estão associados ao consumo de álcool(20,29) e às agressões(7,18). Já nas crianças estão associados às atividades domésticas(16). Na amostra estudada, analisando os indivíduos de ambos os sexos na faixa etária denominada crianças e jovens com até 17 anos de idade, houve percentagem maior de casos de lesões com fogo e líquidos ferventes no sexo feminino, com 27,3%, comparadas com o masculino, 10,2%. Já nas crianças e jovens do sexo masculino, as maiores percentagens foram igualmente distribuídas com ferimentos por vidros e latas, traumas diretos, quedas e picadas de escorpião, com 13,6% cada. Os traumas com crianças estão na maioria relacionados às situações ligadas aos acidentes domésticos, no esporte ou la-(14,17). Houve apenas um caso de amputação de uma mão por moedor de carne ocorrido em uma criança.

No grupo de pacientes do sexo feminino, considerados neste estudo como sendo os adultos, com idade maior ou igual a 18 anos, foi observado que a maior incidência de lesões foi do tipo ferimento por vidro ou lata, com 31,7%. Isso talvez se deva ao fato de a mulher apresentar maior risco de lesões domésticas, com portas e copos de vidro, ou ao abrir e manusear latas na cozinha.

No grupo de homens considerados adultos, com idade maior ou igual a 18 anos, os acidentes de trânsito e o uso de máquinas e ferramentas foram as causas mais freqüentes, com 20,7% e 16,3%, respectivamente. Denota-se claramente a relação causal com as atividades laborativas. No levantamento realizado em um hospital universitário em 1990, 16,5% sofreram lesão por serra circular no trabalho(5).

É possível constatar também neste estudo, como na prática clínica, que as lesões dos tendões flexores devem ser analisadas separadamente dos tendões extensores, visto sua ocorrência ter sido bem maior.

Este estudo descritivo serviu de base para a aquisição de dados relativos aos traumas das mãos durante um ano. Apesar de ser apenas uma amostra, foi representativa no sentido de levantar de maneira inicial o perfil do acidentado da mão que foi encaminhado à Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP, no ano de 2000.

O modelo de banco de dados informatizado baseado no programa Epi-Info 6,04D mostrou ser eficaz na armazenagem e análise dos dados. Outros estudos a partir deste podem coletar os dados referentes a outros anos na mesma instituição para comparação ou até em arquivos de outros hospitais secundários e unidades primárias de atendimento de traumatizados, visando novas análises e comparações. Estudos ana-

líticos posteriores poderão ser úteis no sentido de tentar correlacionar informações mais específicas, como os acidentes de trânsito relacionados às fraturas, o uso de ferramentas às lesões de partes moles ou até sobre as diferentes faixas etárias; ou ainda a relação da mão lesada com a dominância e o local do trauma, entre outros.

Com base nos dados levantados neste e em estudos complementares e com o objetivo de orientar futuramente a população sobre a importância de prevenir acidentes que podem gerar lesões nas mãos, poderá ser elaborado por um grupo multiprofissional um programa de prevenção através da elaboração de folder e cartazes com textos explicativos, junta-mente com imagens fotográficas. A adoção de medidas simples de prevenção no cotidiano, nos espaços de trabalho, de lazer, de habitação ou de circulação de pessoas poderá provavelmente evitar alguns acidentes, com conseqüentes lesões e seqüelas funcionais nas mãos dos indivíduos.

CONCLUSÕES

1) Os traumas da mão e dedos foram responsáveis por 27,6% de todos os traumas atendidos no HCFMRP-USP, durante o ano de 2000.

2) As principais causas dos traumas da mão e dedos foram os acidentes de trânsito, ferimentos por vidro e latas.

3) Houve predomínio das fraturas e lesões dos tendões flexores e nervos.

4) Novos estudos são necessários para a estruturação de um programa de prevenção de acidentes com as mãos.

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