Introdução
A cabeça do fêmur projeta-se superomedial e ligeiramentepara frente quando se articula com o acetábulo. A cabeça e ocolo formam um ângulo (115?a 140?, média de 126?) com o eixolongo do corpo do fêmur.
1O ângulo é maior no nascimento,diminui gradualmente (em torno de 150?no recém-nascidoe chega a 133?aos 15 anos) e é menor nas mulheres, porcausa da largura da pelve e da obliquidade maior do corpo dofêmur.2,3A cabeça do fêmur e o acetábulo do osso do quadriltêm crescimentos independentes, de modo que o desen-volvimento de cada um deve ocorrer de forma congruente.Esse mecanismo recebe a influência de forças que atuamexternamente nessas áreas. As mais importantes são o pesocorporal e as forças de tensão dos músculos, cuja magni-tude e direção devem interagir adequadamente. Qualqueralteração das forças de compressão ou incongruência articularlevará a deformidades. Os estresses de pressão, arqueamentoe cisalhamento a que o fêmur está sujeito são importantesna produção de fraturas, bem como no desenvolvimento devários processos patológicos.4-6
Estudos radiográficos sugerem que o eixo do quadril e ocomprimento do colo do fêmur estão se tornando mais longose essas mudanças podem aumentar o risco de fratura peloaumento do braço de alavanca. Na literatura são amplamentedebatidos outros fatores, não geométricos, que podem pre-dispor às fraturas do fêmur, tais como: idade avançada, sexofeminino, osteoporose, fatores genéticos - como o polimor-fismo Colia1 Sp1 -, tabagismo, etilismo, fratura prévia e baixonível de estrogênio. Assim, são pertinentes novas análises decomo o padrão geométrico pode interferir em patologias dofêmur.7-10
Segundo estatísticas americanas, mais de 250 mil fraturasde quadril ocorrem a cada ano e esse número deverá estarduplicado em aproximadamente 30 anos.4O tratamento damaioria das fraturas de fêmur é cirúrgico. Portanto, é impor-tante conhecer a geometria do fêmur, uma vez que grandeparte dos implantes tem tamanho padrão selecionado a par-tir de um intervalo fornecido pelos fabricantes. Como, porexemplo, a haste curta PFN®-AO/Asif, que pode ter variaçãoentre 125?, 130?e 135?de inclinação entre os parafusos docolo e o eixo da haste intramedular. A escolha errada dessesimplantes pode gerar alterações na anatomia da articulaçãodo quadril.11,12 Por causa da importância clínica dos aspectos morfométri-cos do fêmur proximal, fez-se um amplo levantamento parafornecer dados da geometria femoral de ossos dos brasileiros.O objetivo deste trabalho foi verificar a geometria do fêmurda população brasileira por meio de estudo radiográfico ecorrelacionar os valores quanto ao sexo e ao lado direito/esquerdo. Materiais e métodosFoi feito um estudo transversal observacional, por meio doqual foram analisados pacientes que já tinham radiografiasanteroposteriores (AP) de bacia, 250 homens e 250 mulheresatendidos no pronto-atendimento, bem como no ambulató-rio e na enfermaria do Serviço de Ortopedia e Traumatologia.Nenhuma imagem radiográfica foi feita por causa do trabalho.Foram incluídas radiografias AP de bacia de pacientes esquele-ticamente maduros, sem a presença de osteoartrose, fraturase lesões tumorais ou infecciosas.Para obtenção das radiografias, o raio incidente é direcio-nado na linha mediana, logo acima da sínfise púbica, e os péssão rodados internamente, cerca de 15?. O paciente é posicio-nado em decúbito dorsal e a ampola a um metro do chassi. Foifeita a correção do grau de magnificação obtido pelo métodoradiográfico.As medidas analisadas no fêmur foram:Offset - distância entre o centro de rotação do quadril euma linha traçada perpendicularmente pelo centro da diáfisefemoral (fig. 1).LCF - largura do colo do fêmur: distância, no ponto médio docolo femoral, perpendicular ao seu eixo (fig. 2).CEF - comprimento do eixo femoral: distância em linha retaque une os pontos extremos do trocânter maior e da cabeçafemoral, no plano frontal (fig. 2).CCF - comprimento do colo do fêmur: distância, em milíme-tros, entre a região inferior da cabeça do fêmur e a base dotrocânter maior (fig. 2).ACD - ângulo colodiafisário: criado entre o colo e a diáfise,medido no plano frontal por meio do goniômetro (fig. 3).A análise das medidas dos parâmetros radiográficos foifeita por dois examinadores e para a comparação de todas asvariáveis quanto ao sexo foi usado o teste Anova. Nessa aná-lise estatística foram usados os softwares SPSS V17, Minitab 16 e Excel Office®2010. Estabeleceu-se um nível de significânciade 0,05 (5%) e todos os intervalos de confiança ao longo dotrabalho foram construídos com 95%. ResultadosComparou-se o lado direito e esquerdo para todas as variáveis(tabela 1). Essas comparações foram feitas separadamente emcada um dos gêneros e em ambos (geral). Aqui foi usado o testet de Student pareado, uma vez que os dados são pareados, ouseja, o mesmo sujeito é pesquisa e controle dele mesmo.\Foi possível evidenciar que existem algumas comparaçõesentre os lados que são consideradas estatisticamente signifi-cantes. Para os resultados de largura do colo do fêmur e offset,encontrou-se diferença média entre os lados para ambos ossexos e no geral.Na comparação de comprimento do colo do fêmurobservou-se diferença média estatisticamente significantesomente na comparação geral, com uma média de 36,65 dolado esquerdo contra 36,44 do lado direito (p = 0,048). Já no resultado de comprimento do eixo femoral ocor-reu significância estatística apenas na comparação entre oshomens, em que o lado esquerdo teve média de 114,06 contra114,39 do lado direito.Por fim, no resultado de ângulo colodiafisário foram encon-tradas diferenças médias estatisticamente significantes entreos lados para as mulheres e no geral. Cabe destacar que o ladoesquerdo teve sempre média maior do que o direito.Para finalizar, foram comparados os sexos para todas asvariáveis. Essas comparações foram feitas no lado esquerdo eno direito. Usou-se aqui o teste Anova (tabela 2).Pode-se observar que tanto para o lado esquerdo quantopara o direito existe diferença média estatisticamente signifi-cante entre homens e mulheres para as cinco variáveis. Porexemplo, com o offset do lado direito as mulheres tiverammédia de 41,97 contra 47,57 dos homens e com o offset do ladoesquerdo as mulheres tiveram média de 41,53 contra 46,54 doshomens (p < 0,001). Foi possível notar que em todas as variá-veis em ambos os lados os homens tiveram média maior doque as mulheres. DiscussãoVários aspectos da geometria do colo do fêmur têm sidoencontrados para influenciar o risco de fratura do quadril.Pesquisas têm relacionado o maior comprimento do colo dofêmur e o menor valor do ângulo colodiafisário à maior inci-dência de fratura de quadril.8,13,14Estudos populacionais evidenciaram ao longo do tempo umaumento do comprimento do colo do fêmur e uma diminuiçãoda largura do colo na população feminina e associaram essasmudanças ao aumento do risco de fraturas, o que pode tercontribuído para o incremento de 1/3 da incidência de fraturade quadril.15,16Existem poucos estudos nacionais quanto à avaliação dageometria do fêmur proximal.17,18Por causa da importânciada avaliação morfométrica, conseguiu-se demonstrar nesteartigo um tamanho amostral superior ao observado em estu-dos anteriores (250 radiografias masculinas e 250 femininas),além de incluir-se aqui a mensuração do offset femoral.Em relação ao comprimento do colo do fêmur (CCF),a diferença média entre os lados foi estatisticamente sig-nificante (p = 0,048), porém a média obtida foi superior àobservada no trabalho de Mourão e Vasconcellos,17que obti-veram para o lado direito o valor de 24,9 mm e para o esquerdo o de 24,3 mm. Duthie et al.15analisaram a população escocesaem dois períodos distintos, também observaram aumentodo CCF e encontraram valores de 34,9 mm e 38,3 mm parahomens e 32,5 mm e 35 mm para mulheres. Justificaram essadiferença com uma melhor nutrição na infância e mudançasno padrão de vida em geral.Quanto ao comprimento do eixo femoral (CEF), O'Neillet al.16avaliaram o CEF na população feminina em 1950 e1990 e encontraram valores de 124 mm e de 136,2 mm, respec-tivamente. Reid et al.,19em estudo semelhante, encontraramvalores de 124,0 mm e 130,5 mm, respectivamente. Os valo-res encontrados neste estudo para o CEF em comparação comos estudos de O'Neill et al.16e Reid et al.19foram menores.Pode-se justificar essa diferença pela diferente metodologiaempregada, pois neste estudo não foi incluída a estruturapélvica na análise do CEF, assim como no trabalho de Mou-rão e Vasconcellos,17que obtiveram para o lado direito92,1 mm e 92,0 mm para o esquerdo.Obtiveram-se valores mais altos para a largura do colo dofêmur (LCF) da população brasileira em comparação com oestudo de Mourão e Vasconcelos,17cujos valores foram de 26,7 mm (± 3,1) para o lado direito e 26,3 mm (± 3,3) para oesquerdo. Em ambos os estudos nacionais não foram encon-tradas diferenças significativas entre os lados. O'Neill et al.16observaram correlação positiva entre o CCF e LCF e encontra-ram medida de 36,6 mm e 39,1 mm para LCF em 1950 e 1990,respectivamente. Reid et al.,19com metodologia semelhante,encontraram valores médios de 38,1 mm para LCF de radiogra-fias de mulheres de 1950 e 38,6 mm para radiografias de 1990.Conclui-se, portanto, que os valores da LCF aumentaram aolongo do tempo. No estudo radiográfico de Cheng et al.4foramencontrados valores médios da LCF para ambos os sexos, de35,1 mm para o lado esquerdo e de 35,5 mm para o direito.Para o ângulo colodiafisário (ACD) este estudo obteve valo-res maiores para o lado esquerdo, com diferenças médiasestatisticamente significantes entre os lados. Mourão eVasconcellos17analisaram a população brasileira, tambémencontraram significância estatística entre os lados e apresen-taram um ACD de 111,2?(± 5,9) para o lado direito e de 114,2(± 5,5) para o esquerdo. Silva et al.18encontraram valores de122,5?para o lado direito e 125,6?para o esquerdo e explicaramessa diferença entre membros com a tese de que o membro dominante (aquele que sofre mais carga de peso) poderá tero valor do ACD reduzido com relação ao membro contralate-ral. Faulkner et al.,6em um estudo prospectivo e multicêntricocom mulheres acima de 60 anos, por meio da Dexa, obtiveram126?como valor do ângulo colodiafisário (ACD) do grupo con-trole. Cheng et al.9encontraram valor médio de 125?em umestudo radiográfico do fêmur proximal.Os valores encontrados para o offset neste trabalho foram44,03 mm para o lado esquerdo e 44,77 mm para o direito.Na literatura nacional especializada não foram encontradosrelatos a esse respeito.18,20Ferris et al.21analisaram o fêmurcontralateral de pacientes com fraturas subcapitais e trans-trocantéricas e com osteoartrose e obtiveram média de 43 mm(± 0,4), 38 mm (± 0,6) e 41 mm (± 0,6), respectivamente. Pode-seatribuir essa diferença, dentre outros motivos, à metodologiaempregada. ConclusãoOs valores médios das principais medidas do fêmur proximaldos brasileiros diferem de trabalhos prévios e existe diferença média estatisticamente significante entre homens e mulhe-res para todas as variáveis, tanto do lado esquerdo quanto dodireito. Os homens tiveram média maior do que as mulheres. Conflitos de interesseOs autores declaram não haver conflitos de interesse.
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