a Médico ortopedista e coordenador do Serviço de Pós-Graduação em Cirurgia do Joelho e Artroscopia do Instituto de Ortopedia e Traumatologia (IOT) e da Trauma Sports, Joinville, SC, Brasil
b Médico ortopedista do Centro de Traumatologia do Esporte do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), São Paulo, SP, Brasil c Médico radiologista do Serviço de Diagnóstico por Imagem do Hospital Dona Helena, Joinville, SC, Brasil
d Médico ortopedista e pós-graduando do Serviço de Cirurgia do Joelho e Artroscopia do IOT e da Trauma Sports, Joinville, SC, Brasil
e Médica ortopedista da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia, São Paulo, SP, Brasil
f Professor livre docente e chefe do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, São Paulo, SP, Brasil


INTRODUÇÃO

O ligamento poplíteo oblíquo (LPO) se apresenta como uma das cinco inserc¸ões do músculo semimembranoso e faz parte da anatomia posterior do joelho.1-3 Esse ligamento atravessa a fossa poplítea de medial para lateral, é considerado um restritor primário do genu recurvatum e evita, assim, a hiperextensão do joelho.4

A anatomia posterior do joelho apresenta uma rede de estruturas e biomecânica única e complexa. O controle da hiperextensão do joelho, por genu recurvatum de partes moles, é uma das func¸ões das estruturas posteriores, em especial o LPO. A hiperextensão pode alterar a marcha e levar à dificuldade de deambulac¸ão em terrenos irregulares.

Apesar de sua grande importância, existem poucos estudos na literatura com ênfase nas estruturas posteriores do joelho e do LPO, pelo fato de não haver técnica descrita de reconstruc¸ão dessas estruturas.

O objetivo deste trabalho é estudar a anatomia do LPO, no que se refere às suas dimensões, expansões e relac¸ões anatômicas.

Materiais e métodos

Este trabalho foi feito no Departamento de Anatomia do Setor de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Paraná, durante abril e maio de 2011. Onze joelhos de cadáveres foram dissecados com o intuito de se estudar a anatomia e fazer medic¸ões das estruturas e das relac¸ões anatômicas do LPO. Como critérios de inclusão, foram usados somente joelhos de cadáveres com as estruturas posteriores íntegras, inclusive a cápsula articular, sem artrotomia prévia. Onze joelhos preencheram os critérios. A dissecc¸ão foi por acesso posterior até a exposic¸ão adequada do músculo semimembranoso, doligamento poplíteo oblíquo e de suas expansões. Todos os joelhos foram conservados em formol a 10%.

Para aferic¸ão das medidas, foram usados agulhas 40x12 na marcac¸ão dos pontos específicos e paquímetro metálico Aero Space - 150mm.5 Foramfeitas medidas da distância da origem do LPO ao platô tibial (O-P), da espessura do LPO na sua origem (Esp-O), do comprimento do LPO (Comp), da espessura do músculo semimembranoso no ponto em que dá origem ao LPO (Esp-S), da espessura do LPO na origem da sua expansão proximal (Esp-LPO-Exp), da espessura da expansão proximal do LPO (Esp-Exp) e do comprimento da expansão proximal do LPO (Comp-Exp).

Os ângulos do LPO com o platô tibial (A-P) e do LPO com sua expansão (A-Exp) foram calculados com o auxílio do software ImagePro Plus® versão 4.5 paraWindows (Media Cybernetics, Inc., USA) (fig. 1).

Resultados

Os resultados de média e desvio padrão das medidas feitas estão apresentados na tabela 1.

A expansão proximal do LPO, com comprimento médio de 39±7mm (comp-exp), foi observada em quatro dos 11 casos. Encontrava-se ausente nas demais sete pec¸as anatômicas (fig. 1).

Discussão

Ao contrário de estudos de estruturas mediais, laterais e do pivot central do joelho, estudos anatômicos e biomecânicos sobre o LPO são raros. Esse desinteresse provavelmente vem do fato de não haver técnica descrita de reconstruc¸ão dessa estrutura.

O ligamento poplíteo oblíquo é a principal estrutura do chamado complexo semimembranoso posterior do joelho e

a importância dessa estrutura tem o seu destaque tanto pelas suas dimensões como pela importância biomecânica. Em um estudo laboratorial descritivo, fez-se a dissecc¸ão de 20 espécimes frescos e secc¸ão de possíveis estruturas que limitariam a hiperextensão. Independentemente da ordem da secc¸ão feita, após a secc¸ão do LPO houve aumento de 2,5 graus da hiperextensão. O autor concluiu que essa estrutura é a principal restritora da hiperextensão e do genu recurvatum de partes moles.4 Figura

Figura 1 - Anatomia do ligamento poplíteo oblíquo.A-Exp, ângulo do LPO com sua expansão; A-P, ângulo doLPO com o platô tibial; Comp, comprimento do LPO;Comp-Exp, comprimento da expansão proximal do LPO;
Esp-Exp, espessura da expansão proximal do LPO;
Esp-LPO-Exp, espessura do LPO na origem da sua expansão
proximal; Esp-O, espessura do LPO na sua origem; Esp-S,
espessura do semimembranoso no ponto em que dá
origem ao LPO; O-P, distância da origem do LPO ao platô
tibial.

No presente estudo observou-se que o LPO é uma estrutura que tem sua origem em conjunto com o tendão do músculo semimembranoso e sua inserc¸ão na cápsula posterior do joelho, junto ao côndilo lateral, o que forma um ângulo de 34,8 graus com o platô medial, com trajeto de distal medial para lateral proximal.

Em um estudo descritivo anatômico das estruturas posteriores do joelho por meio da análise de ressonância magnética foi descritoumsexto ramo do músculo semimembranoso com origem conjunta do LPO que teria como func¸ão a protec¸ão do corno posterior do menisco contra a trac¸ão.6 Essa estrutura não foi observada no presente estudo, o que está em concordância com o estudo de LaPrade et al.,7 que observaram a inserc¸ão na porc¸ão meniscofemoral da cápsula póstero-lateral do joelho.

Dos 11 espécimes dissecados neste estudo, observou-se que quatro apresentaram uma bifurcac¸ão do LPO que formava umadupla inserc¸ão, descrita neste estudo como expansão distal e expansão proximal. Em outro estudo anatômico o autor descreveu duas inserc¸ões laterais do LPO, uma delas na fabella (cartilaginosa ou óssea) e outra na porc¸ão meniscofemoral da cápsula posterior, porém não foi citada qual a prevalência dessas expansões, se isso foi uma regra em todos os espécimes ou apenas em alguns deles.7

Um dos maiores problemas na discussão de um estudo do LPO é que não existe um padrão de como deve ser feita a aferic¸ão dessa estrutura nem de nomenclatura de suas expansões. Logo, os dados acabam ficando heterogêneos na literatura e perde-se a capacidade de comparac¸ão entre estudos. Os dados de algumas medidas obtidas neste trabalho podem ser comparados ao estudo de LaPrade et al.7

Na sua origem medial o LPO teve em média espessura de 7,4mm. Já LaPrade et al.7 encontraram números ligeiramente superiores, 9,5mm. Quando avaliados o comprimento do ligamento e a espessura de sua inserc¸ão lateral, há uma discordância maior. Neste estudo foi observado que o comprimento do LPO foi de aproximadamente 33,6mm e no estudo feito por LaPrade esse número atingiu 48mm. Uma possibilidade é que essa medida foi feita por ele na expansão proximal e no presente estudo essa medida foi feita na expansão distal. A espessura da expansão proximal também foi divergente. Foi encontrado um valor médio de 7,8mm, enquanto LaPrade et al.7 chegaram ao valor de 4,5mm.

A espessura do semimembranoso na sua porc¸ão em que dá origem ao tendão do LPO teve um valor muito próximo. No presente estudo foram encontrados 11,4mm e no de Laprade et al.,7 12mm. Possivelmente, isso se deve ao fato de que essa medida é extremamente simples de ser executada e dá pouca margem para variac¸ão interaferidor.

Conclusão

O LPO é um ligamento espesso, que nasce no semimembranoso a 7,4mm do platô tibial, projeta-se proximalmente, forma um ângulo de 34,4 graus com a interlinha articular e cruza a fossa poplítea. Em alguns casos ele apresenta uma expansão proximal.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

REFERÊNCIAS

1. LaPrade RF, Engebretsen AH, Ly TV, Johansen S, Wentorf FA, Engebretsen L. The anatomy of the medial part of the knee. J Bone Joint Surg Am. 2007;89:2000-10.
2. Beltran J, Matityahu A, Hwang K, Jbara M, Maimon R, Padron M, et al. The distal semimembranosus complex: normal MR anatomy, variants, biomechanics, and pathology. Skeletal Radiol. 2003;32:435-45.
3. Robinson JR, Sanchez-Ballester J, Bull a MJ, Thomas R, Amis AA. The posteromedial corner revisited. J Bone Joint Surg. 2004;86:674-81.
4. Morgan PM, LaPrade RF, Wentorf FA, Cook JW, Bianco A. The role of the oblique popliteal ligament and other structures in preventing knee hyperextension. Am J Sports Med. 2010;38:550-7.
5. Stieven-Filho E, Garschangen ET, Namba M, da Silva JLV, Malafaia O, Cunha LAMda. Estudo anatômico das duas bandas do ligamento cruzado anterior com o joelho em 90 graus de flexão. Rev Col Bras Cir. 2011;38:338-42.
6. Kim YC, Yoo WK, Chung IH, Seo JS, Tanaka S. Tendinous insertion of semimembranosus muscle into the lateral meniscus. Surg Radiol Anat. 1997;19:365-9.
7. LaPrade RF, Morgan PM, Wentorf FA, Johansen S, Engebretsen L. The anatomy of the posterior aspect of the knee. An anatomic study J Bone Joint Surg Am. 2007;89:758-64.