a Ex-residente da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (FCMS-Sorocaba/PUC-SP);
Assistente Voluntário do Servic¸o de Ortopedia e Traumatologia, FCMS-Sorocaba/PUC-SP, Sorocaba, SP, Brasil
b Doutor em Ortopedia e Traumatologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; Assistente Voluntário do Servic¸o de
Ortopedia e Traumatologia, FCMS-Sorocaba/PUC-SP, Sorocaba, SP, Brasil
c Professor livre-docente; Chefe do Servic¸o de Ortopedia e Traumatologia, FCMS-Sorocaba/PUC-SP, Sorocaba, SP, Brasil
O ligamento meniscofemoral posterior (MFP), ou ligamento de Wrisberg (LW), cursa do aspecto lateral do côndilo femoral medial para o corno posterior do menisco lateral (ML). Tem situac¸ão posterior emuito próxima ao ligamento cruzado posterior (LCP), com direc¸ão ligeiramente mais oblíqua (fig. 1). Sua frequência na espécie humana varia de 90% a 93%.1-3
A primeira descric¸ão na literatura médica do ligamento meniscofemoral foi feita por Humphrey em 1858. Em 1899 Poirier e Charpy relataram duas estruturas distintas que deixavamo corno posterior do ML e envolviam o LCP (apud Gupte et al.4).
Estudos mais recentes também mostraram que o LW faz parte de um complexo em conjunto com o LCP e permanece tenso na extensão do joelho. Colabora na estabilidade posterior e no movimento harmônico do ML na flexoextensão do joelho.5,6
Juntamente com o ligamento meniscofemoral anterior, atua como restritor secundário à translac¸ão posterior da tíbia e responde por 35% a 45% dessa ac¸ão com o joelho a 90?de flexão.6,7
O objetivo do nosso estudo foi avaliar a frequência do LW nas pec¸as analisadas, a forma e a área de sua inserc¸ão femoral e a relac¸ão dessacomo LCP. Dessemodoesperamos poder contribuir para ampliar o conhecimento anatômico do complexo estabilizador posterior do joelho.
Métodos
Foram estudadas 24 pec¸as anatômicas desemparelhadas de joelhos de cadáveres adultos, 12 direitas e 12 esquerdas. Em todas as pec¸as os ligamentos cruzados e a cartilagem articular estavam íntegros. Nenhum joelho apresentava sinais de artrose. As pec¸as usadas foram fixadas em formol a 10% e
Figura 1 - Dissecc¸ão profunda que mostra o ligamento
cruzado posterior (LCP), o ligamento meniscofemoral de
Humphrey (LH) e Wrisberg (LW) e o menisco lateral (ML).
conservadas numamistura de fenol 2,5%, formol 2,5% e cloreto de sódio 1%.
Fizemos dissecc¸ão minuciosa do aspecto posterior do joelho com bisturi de lâmina 11, isolamos o LW, os meniscos e o LCP e identificamos também suas bandas anterolateral (AL) e posteromedial (PM).
Após isolar o LW e as bandas do LCP, dividimos o fêmur distal no plano sagital para melhor visualizac¸ão das estruturas e delimitamos suas áreas de inserc¸ão.
Usamos um marcador milimetrado colocado no mesmo nível das inserc¸ões e fotografamos as pec¸ascomumamáquina digital Canon EOS Rebel T1i (fig. 2). Como as inserc¸ões do LWe das bandas do LCP não se localizam exatamente no mesmo
Figura 2 - Visão lateral do côndilo femoral medial que
mostra a crista intercondilar medial, as inserc¸ões femorais
do ligamento de Wrisberg (LW) e as bandas anterolateral
(AL) e posteromedial (PM) do LCP.
plano, as imagem foram feitas o mais perpendicularmente possível às inserc¸ões das estruturas anatômicas, de acordo com a região a ser estudada.
O programa Image J foi usado para calcular as medidas de interesse, em milímetros ou em milímetros quadrados.
Resultados
O LW foi identificado em 22 das 24 pec¸as analisadas (91,6%). Nessas, seu formato foi elíptico em 12 pec¸as (54,54%).
A média de sua área de inserc¸ão foi de 20,26±6,12mm2 e a média da área de inserc¸ão do LCP foi de 87,80±28,21mm2. As médias das áreas de inserc¸ão das bandas AL e PM foram, respectivamente, 47,13±19,14 e 40,67±16,19mm2.
Em 68% dos joelhos a inserc¸ão do LW esteve proximal à crista intercondilar medial. Na maioria das pec¸as (90,9%) o LW esteve mais próximo da banda PM do que da banda AL (distância média entre os centros de inserc¸ão igual a 9,15mm e 14,18mm, respectivamente), porém em duas pec¸as essa situac¸ão foi inversa, provavelmente por causa deumavariac¸ão anatômica da disposic¸ão das bandas do LCP, que predispôs a essa situac¸ão (fig. 3).
A distância média do centro da área de inserc¸ão do LW à cartilagem articular posterior e distal do côndilo femoral medial foi de 7,05mme 10,16mm, respectivamente. A tabela 1 mostra as medidas encontradas em nossa pesquisa.
Discussão
Os estudos relacionados ao LCP têm aumentado substancialmente na literatura médica. As estruturas do complexo posterior, como o LW, igualmente podem ganhar importância dentro das cirurgias reconstrutivas.
A func¸ão detalhada e específica do LW ainda não está totalmente compreendida. Estudos anatômicos sugerem sua importância na harmonia da mobilidade normal do menisco
Figura 3 - Visão lateral do côndilo femoral medial que
mostra o centro de inserc¸ão femoral do ligamento
de Wrisberg (LW) e das bandas anterolateral (AL)
e posteromedial (PM) do LCP.
lateral e o côndilo femoral lateral.8-11 Dessa forma, também contribuiria de maneira indireta para a saúde articular do compartimento lateral do joelho.12
Em nosso estudo o LW foi encontrado em 91,6% dos joelhos avaliados. Sua incidência, em estudos anatômicos na literatura, pode variar entre 35% a 76%.9,13-16 Talvez tenhamos encontrado o LWnuma porcentagemmaior do que outros estudos porque nossa dissecc¸ão foi feita de modomuito minucioso, combisturi de lâmina 11,comisolamento das estruturas sempre a partir do corno posterior do ML.
Cho et al.3 eWatanabe et al.17 identificaram o LWem66% e 93% das ressonâncias magnéticas avaliadas, respectivamente. Provavelmente essas porcentagens possam ser ainda maiores com o uso de equipamentos de maior resoluc¸ão. Em 68% dos joelhos de nossa casuística a inserc¸ão do LW esteve proximal à crista intercondilar medial. No entanto, para Gupte et al.,4 e também para Yamamoto e Hirohata,13 o LW esteve sempre em situac¸ão proximal à crista intercondilar medial.
Em nossa avaliac¸ão, a média da área de inserc¸ão do LW foi de 20,46±6,12mm2 e a média da área de inserc¸ão do LCP foi de 87,80±28,21mm2. As médias das áreas de inserc¸ão das bandas AL e PM foram, respectivamente, 47,13±19,14 e 40,67±16,19mm2. Portanto, a área média do LW correspondeu a 23,3% da área do LCP, a 43,41% da área da banda AL e a 50,3% da área da banda PM.
Para Takahashi et al.,16 a média da área de inserc¸ão do LW foi de 39,4±13,7mm2 e a do LCP, de 122,6±50,1mm2.Aárea de inserc¸ão média da banda AL foi de 58,0±25,4mm2 e da banda PM, de 64,6±24,7mm2. Para esses autores, as proporc¸ões das áreas LW/LCP, LW/AL e LW/PM foram, respectivamente 32,13%, 67,93% e 60,99%.
As áreas obtidas em nossa pesquisa possivelmente são menores porque, além das prováveis variac¸ões de sexo e etnia das amostras estudadas, delimitamos exclusivamente os sítios ósseos de inserc¸ão femoral dos ligamentos, com
dissecc¸ão cuidadosa, sem incluir as expansões fibrosas que se inserem na periferia do sítio ósseo de inserc¸ão. Emnosso estudo, assim como no de Takahashi et al.,16 verificamosumdesvio- padrão alto na média das áreas de inserc¸ão
do LW no fêmur (29,91% e 34,77% da área total, respectivamente), fato que provavelmente demonstra uma diferenc¸a importante entre as medidas individuais na amostragem.
Nossa pesquisa tem algumas limitac¸ões: o número de joelhos estudados pode ser considerado pequeno, dada a grande variac¸ão anatômica encontrada e, ainda, a impossibilidade de se conseguir uma visão tridimensional da inserc¸ão do LWcom uso de uma câmera digital.
Conclusão
Em conclusão, nossos achados sugerem que o LW é estrutura frequente nos joelhos e que, por representar em média 23,3% da área de inserc¸ão LCP, deve contribuir para a estabilidade posterior do joelho.
Estudos futuros de secc¸ão ligamentar seletiva e testes biomecânicos poderão determinar qual o papel específico desse ligamento na estabilizac¸ão posterior da articulac¸ão. Enquanto isso, devemos fazer todo esforc¸o possível para preservar o LW nas reconstruc¸ões do LCP.
Conflitos de interesse
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
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