a Servic¸o de Ortopedia e Traumatologia do Complexo Hospitalar da Santa Casa de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, Brasil b Departamento de Fisioterapia da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, Brasil c Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, Brasil


INTRODUÇÃO

Bursite trocantérica (BT) é o termo usado para descrever dor crônica, intermitente, acompanhada de desconforto à palpac¸ão da região lateral do quadril por causa do processo inflamatório das bursas. 1 As bursas são bolsas revestidas por sinovial com fluidos em seu interior, responsáveis pela diminuic¸ão do atrito entre os tendões e os músculos sobre as proeminências ósseas. 2 Entre todas as bursas descritas do quadril, a trocantéricaéamais frequentementeacometidapor inflamac ¸ão. A causa mais frequentemente associada à bursite trocantéricaéomicrotrauma repetitivo causadopelousoativo dos músculos que se inserem no grande trocanter, que resulta emmudanc¸as degenerativas dos tendões, dos músculos ou de tecidos fibrosos. 3

A artrose do quadril é uma das doenc¸as musculoesqueléti-cas que podem estar associadas à bursite trocantérica. Tanto em pacientes jovens como em idosos, as indicac¸ões da ATQ envolvempioriaprogressivadador comperdade func¸ão epio-ria da qualidade de vida decorrente da osteoartrose. 4AATQ é o procedimento ortopédico eletivo de maior sucesso e mais feito no mundo. 5 Apesar disso, não existem dados relevan-tes na literatura atual sobre a incidência de BT em pacientes submetidos a ATQ. Silva et al. 6 apresentam a única pesquisa de bursite pré-operatória, mas com poucas bursas coletadas e pacientes com artrite reumatoide e osteoartrose. 6 Entretanto, a incidência de BT no pós-operatório de ATQ é de aproxima-damente 4,6%. 7 O diagnóstico padrão-ouro para definir a BT é feitopelaavaliac ¸ãoanatomopatológicadabursa. Ferralaet al. 8 e Nikolajsen et al. 9 referem que em torno de 12% dos paci-entes após 12 a 18 meses do procedimento de ATQ ainda se encontravam com dor crônica para suas atividades diárias. 8,9

A presente pesquisa visa a avaliar a associac¸ão entre a BT e a osteoartrose no momento de feitura da ATQ primária.

Materiais e métodos

Estudo prospectivo com 62 pacientes operados sequencial-mente por osteoartrose primária do quadril e submetidos a ATQ. A bursectomia é um procedimento de rotina nas ATQs feitas em nosso servic ¸o.

As bursas foram coletadas durante as cirurgias e envia-das ao Laboratório de Patologia da instituic¸ão. Um patologista experiente analisou as bursas e identificou a presenc¸a ou não de bursite. As lâminas foram preparadas com cortes de 2,0 a 3,0 micra e coradas pela técnica de hematoxilina-eosina. Foi usado um microscópio óptico da marca Olympus, modelo BX40. O critério considerado para o diagnóstico da bursite foi a presenc¸a de espessamento capsular, com proliferac¸ão fibro-blástica e infiltrado inflamatório linfocitário, histiocitário ou neutrocitário, com hiperplasia sinovial.

Foram excluídos da amostra os pacientes com artrite reumatoide, epifisiólise proximal do fêmur, tumores locais, displasia do desenvolvimento do quadril, doenc¸a de Legg--Calvé-Perthes, fraturas prévias do quadril, hemofilia, osteo-necrose, sequela de artrite séptica e tuberculose e os que já haviam feito procedimentos prévios do quadril a ser operado ou submetidos a radioterapia. Todas as informac¸ões foram coletadas via prontuários e envolveramtambém dados demo-gráficos, epidemiológicos e clínicos, tais como idade, sexo e apresentac¸ões clínicas.

A análise estatística dos dados foi feita com o programa Excel para Windows, considerando-se estatística descritiva e distribuic¸ão de frequências.

Resultados

Foram observados 35 (56,5%) pacientes do sexo feminino e 27 (43,5%) do masculino. A idade média foi de 65 anos (desvio--padrão +/-11), variac ¸ãode41a85.

Em nove pacientes analisados (14,5%), foi confirmado o diagnóstico de bursite trocantérica. Entre esses, seis (66,7%) eram do sexo feminino e três (33,3%) do masculino. A figura 1 apresenta a histologia de uma bursa normal, com ampliac¸ão de 100×(A) e 200×(B). Observa-se a presenc ¸a de delgada membrana fibrosa revestida por células sinoviais. Na figura 2 é apresentada a histologia de uma bursa com o processo infla-matório (bursite crônica), emaumentosde100×(A) e200×(B), respectivamente. Nota-se que há espessamento fibroso da cápsula, com infiltrado inflamatório, predominantemente lin-focitário, além de hiperplasia sinovial.

Discussão

O tratamento da bursite trocantérica geralmente é conserva-dor e inclui medicamentos anti-inflamatórios não esteroides por até seis a oito semanas, além de gelo. Podem ser usados também infiltrac ¸ões, contraste térmico (gelo e calor), repouso e fisioterapia, com ultrassom no nível do trocanter maior e do triângulo femoral, associado ao alongamento muscular da banda iliotibial e do tendão do iliopsoas. 3,10 Na presente pesquisa, não houve o tratamento conservador de bursite previamente ao procedimento cirúrgico, já que os pacientes apresentavam osteoartrose do quadril sintomática e era indi-cada a ATQ. Nesse caso, visamos a estudar a epidemiologia da bursite trocantérica no momento de feitura da cirurgia do quadril.

A bursite trocantérica pode ser a manifestac¸ãodeuma doenc¸a secundária, como, por exemplo, aosteoartrosedoqua-dril. No caso da presente pesquisa, encontramos nove (14,5%) pacientes com bursite trocantérica silenciosa no momento de suas artroplastiasdoquadril, amaioriadelesdo sexo feminino (seis, 66,7%). Portanto, a grande maioria dos pacientes não apresentou bursite trocantérica no momento da feitura da ATQ primária.


Figura 1 - Bursa trocantérica normal corada pela técnica HE: (A) aumento de 100×; (B) aumento de 200×.


Figura 2 - Bursite crônica corada pela técnica HE: (A) aumento de 100×; (B) aumento de 200×.

Uma parcela dos cirurgiões de quadril não faz a ressecc¸ão da bursa durante o procedimento de ATQ. Isso poderia refletir nos índices de bursite pós-operatória observados na litera-tura. Farmer et al. avaliaram o tratamento da bursite após a feitura da artroplastia com o uso de corticoesteroides inje-táveis. Foram analisadas 689 artroplastias primárias no seu pós-operatório e observou-se uma incidência de 4,6%. 7

Este trabalho apresenta a incidênciadabursite trocantérica no momento da ATQ em pacientes com condic¸ões específicas - artrose primária. Apesar de não retratar a condic¸ão geral da populac¸ão submetida às artroplastias, uma vez que muitos pacientes apresentam artrose secundária (artrite reumatoide, epifisiólise proximal do fêmur, displasias, osteonecrose etc.), os dados encontrados nesta pesquisa justificam a ressecc¸ão das bursas durante o procedimento de artroplastia.

Conclusões

Dos pacientes submetidos àATQ (9/62) por osteoartrose, 14,5% apresentam bursite trocantérica silenciosa no momento das cirurgias do quadril. Dois terc¸os são do sexo feminino (66,7%).

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

REFERÊNCIAS

1. Alvarez-Nemegyei J, Canoso JJ. Evidence-based soft tissue rheumatology: III: trochanteric bursitis. J Clin Rheumatol. 2004;10(3):123-4.
2. Stedman TL, editor. Stedman: Dicionário médico. Traduc¸ão de Cláudia Lúcia Caetano de Araújo. 25 a ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1996.
3. Dani WS, Azevedo E. Bursite trocantérica. Rev Bras Med. 2006;7(1):2-5.
4. Shrader MW. Total hip arthroplasty and hip resurfacing arthroplasty in the very young patient. Orthop Clin North Am. 2012;43(3):359-67.
5. Pivec R, Johnson AJ, Mears SC, Mont MA. Hip Arthroplasty. Lancet. 2012;17;380(9855):1768-77.
6. Silva F, Adams T, Feinstein J, Arroyo RA. Trochanteric bursitis: refuting the myth of inflammation. J Clin Rheumatol. 2008;14(2):82-6.
7. Farmer KW, Jones LC, Brownson KE, Khanuja HS, Hungerford MW. Trochanteric bursitis after total hip arthroplasty: incidence and evaluation of response to treatment. J Arthroplasty. 2010;25(2):208-12.
8. Ferrala P, Carla S, Fortina M, Scipio D, Riva A, Di Giacinlo S. Painful hip arthroplasty: definition. Clin Cases Miner Bone Metab. 2011;8(2):19-22.
9. Nikolajsen L, Brandsborg B, Lucht U, Jensen TS, Kehlet H. Chronic pain following total hip arthroplasty: a nationwide questionnaire study. Acta Anaesthesiol Scand. 2006;50(4):495-500.
10. Huber TA, Ortiz J. Bursite trocantérica. Rev Bras Ortop. 1992;27:723-8.