INTRODUÇÃO

O tratamento pós-operatório das lesões dos tendões fle-xores dos dedos da mão pode ser realizado de três manei-ras: imobilização, mobilização precoce passiva e mobili-zação precoce ativa (1) . Potenza (2) , baseado em achados histológicos de cicatrização tendinosa no cão, concluiu que as aderências aos tecidos vizinhos na área de sutura do ten-dão seriam fundamentais para o processo de cicatrização e, dentro deste contexto, a imobilização articular no pós-operatório, como proposto por Bunnell e Boyer (3) , seria fundamental para a cura dos tendões reparados cirurgica-mente. Por outro lado, Lundborg e Rank (4) demonstraram, por meio de estudos em coelhos, que o tendão possui po-tencial intrínseco para cicatrizar, concluindo que as ade-rências aos tecidos vizinhos durante a cicatrização não se-riam necessárias para a cura da lesão tendinosa.

Os estudos experimentais e clínicos de Becker (5) e o es-tudo experimental de Gelberman et al (6) demonstraram que a cicatrização tendinosa sob movimentação apresenta me-lhor qualidade do que quando sob imobilização. A conse-qüência desses estudos foi reforçar a tendência dos proto-colos de pós-operatório que envolvessem algum tipo de mobilização precoce, que, por sua vez, aumentou a necesidade de estudos objeti-vando melhoria de técnicas e materiais de sutura tendi-nosa, com a intenção de elevar a resistência dos re-paros cirúrgicos dos tendões.

O objetivo do presente estudo foi avaliar biomeca-nicamente a resistência à tração e a rigidez (módulo de elasticidade) das suturas tendinosas executadas com três tipos diferentes de fios cirúrgicos.

MATERIAIS E MÉTODOS

Foram utilizados 18 cães, sem raça definida, 13 ma-chos e cinco fêmeas, com peso médio de 13,6kg, pro-venientes de outros proce-dimentos realizados no La-boratório de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Expe-rimental da FMB-Unesp. Após o sacrifício, os ani-mais tiveram os membros anteriores dissecados para obtenção do tendão flexor profundo do terceiro dedo.

As peças anatômicas foram obtidas após secção proximal na transição corpo muscular-tendão e desinserção óssea na falange distal. Após a obtenção, as peças anatômicas fo-ram identificadas e colocadas em saco plástico, retirado o excesso de ar e armazenadas em congelador doméstico por período que variou de um a três dias até a realização do ensaio mecânico.

No dia da realização dos ensaios, as peças foram des-congeladas em temperatura ambiente, durante aproxima-damente quatro horas, permanecendo envoltas em compres-sas embebidas em solução fisiológica. Após o descongelamento, as peças anatômicas do lado direito foram seccionadas no ponto médio com bisturi de lâmina n o 15 e os cotos resultantes foram suturados com
fio Mononylon ? 4-0, Prolene ? 4-0 ou Ethibond ? 4-0, conforme distribuição por sorteio nos grupos experimentais. Os corpos de prova do lado esquerdo foram mantidos ínte-gros e utilizados como controle pareado (figuras 1 e 2).

A técnica utilizada para a sutura foi a de Kessler modifi-cada por Mason e Allen (7) (com número de três nós), refor-çada com sutura contínua do epitendão com fio Monony-lon 6-0 em todas as peças (figura 3). O procedimento foi realizado sempre pelo mesmo experimentador, previamente treinado em estudo piloto.

Na seqüência procedeu-se ao ensaio mecânico. Para tan-to, as extremidades dos corpos de prova foram fixadas a garras especialmente desenvolvidas, padronizando-se a distância útil entre garras em 40mm, e montadas axialmente na máquina universal de ensaios mecânicos EMIC ? (figuras 4 e 5).

Após a fixação foi obtido o perímetro do corpo de pro-va, no ponto médio, que foi utilizado para o cálculo da área de secção. Foi utilizada célula de carga de 5.000N e velocidade de aplicação de carga de 40mm/min. Os parâmetros avaliados foram carga máxima (N) , alon-gamento relativo na carga máxima (%) e módulo de elasti-cidade (MPa ).

O estudo das variáveis segundo tipo de fio utilizado e lado (direito - sutura; esquerdo - controle) foi realizado pela técnica de análise de variância dos pontos médios com-plementado com os intervalos de confiança simultâneos (análise de medidas repetidas). Todas as discussões foram realizadas no nível de 5% de significância (8).


Fig. 1 - Aspecto das peças anatômicas (lado direito - íntegro e lado esquerdo - seccionado)


Fig. 2 - Aspecto das peças anatômicas após sutura (lado esquer-do)


Fig. 3 - Esquema da técnica de sutura de Kessler modificada por Mason e Allen
(A) , complementada por sutura com ponto contí-nuo no epitendão (B)


Fig. 4 - Corpo de prova do lado esquerdo (suturado) fixado às
garras antes do ensaio mecânico (A) e após o ensaio (B)


Fig. 5 - Aspecto da máquina universal de ensaios mecânicos com
as garras e corpo de prova montados axialmente

RESULTADOS

As tabelas 1, 2 e 3 apresentam os resultados (média e desvio padrão) nos três grupos estudados ( GI - Monony-lon , GII - Prolene e GIII - Ethibond ) em ambos os lados (direito - sutura e esquerdo - controle), estatística calcula-da e comentários.

Os gráficos 1, 2 e 3 ilustram os resultados apresentados nas tabelas 1, 2 e 3. O gráf ico 4 apresenta o diagrama ten-são-alongamento nos grupos suturados.

Observou-se em todos os ensaios mecânicos realizados a ruptura na área de sutura, sem rompimento nas garras ou laceração dos tendões.

Tabela 1 - Carga máxima (N): média e desvio padrão dos três grupos em ambos
os lados (suturado e controle), estatística calculada e comentários


Tabela 2 -Alongamento relativo na carga máxima (%): média e desvio padrão dos três
grupos em ambos os lados (suturado e controle), estatística calculada e comentários


Tabela 3 - Módulo de elasticidade (MPa): média e desvio padrão dos três grupos em
ambos os lados (suturado e controle), estatística calculada e comentários



Gráfico 1 - Carga máxima: média e desvio padrão dos três grupos
estudados em ambos os lados (suturado e controle).


Gráfico 2 - Alongamento relativo na carga máxima: média e des-vio padrão
dos três grupos estudados em ambos os lados (suturado e controle).


Gráfico 3 - Módulo de elasticidade: média e desvio padrão dos
três grupos estudados em ambos os lados (suturado e controle).


Gráfico 4 - Diagrama tensão-alongamento dos três
grupos experimentais do lado direito (suturado)

DISCUSSÃO

As características relevantes do fio cirúrgico na sutura de tecido biológico são: a reação tecidual, que deve ser mínima, e a resistência adequada às forças de tração que ocorrem durante a cicatrização. O presente estudo é limi-tado ao aspecto da resistência à tração da fase imediata à sutura tendinosa.

A resistência imediata da sutura depende da técnica ci-rúrgica, ou seja, do tipo de ponto realizado e do material de sutura, isto é, do tipo de fio utilizado (9) . Ao padronizar o ponto de Kessler-Mason-Allen (7) com sutura do epitendão utilizando-se náilon 6-0, a variante tes-tada em todos os grupos experimentais foi o tipo de fio cirúrgico.

A escolha do ponto de Kessler-Mason-Allen (7) com o reforço do epitendão foi baseada no amplo uso na prática cirúrgica, assim como os fios testados ( Mononylon, Prole-ne e Ethibond ) também são amplamente utilizados na su-tura de tendões flexores.

A escolha do tendão do cão demonstrou-se adequada devido à semelhança com os tendões flexores de huma-nos (2,6) , embora outros autores tenham conduzido experi-mentos semelhantes utilizando tendões de coelhos (10,11) ou mesmo material de cadáveres humanos (12,13).

Os ensaios mecânicos foram realizados com a utilização de garras especialmente desenvolvidas para a fixação de tendões. Estas garras foram utilizadas em outros experi-mentos semelhantes (12)
e demonstraram-se confiáveis, não tendo sido identificadas rupturas no interior das garras, jun-to às mesmas ou escorregamento, o que garantiu confiança em relação aos resultados obtidos. Essas garras são produ-zidas em aço inoxidável, com o desenho sinusoidal (sem ângulos retos), de maneira a não haver encaixe total entre as duas partes, o que poderia causar lesão nos corpos de prova.

A velocidade utilizada de 40mm/min é classificada como média e os resultados obtidos devem ser considerados para essa velocidade; sabe-se que o aumento da velocidade pode causar, paralelamente, incremento dos valores de certas propriedades mecânicas (14).

Os parâmetros escolhidos foram a carga máxima (N), definida como a maior carga suportada pelo corpo de prova antes da ruptura completa. Foi também fornecido pelo programa da máquina de ensaio o alongamento relativo (%), que significa a percentagem em relação ao comprimento inicial (padronizado em 40mm em todos corpos de prova), de alongamento no instante da ruptura, além do módulo de elasticidade.

A carga máxima é propriedade estrutural e o alongamento relativo é propriedade material, assim como o módulo de elasticidade (MPa ). Este módulo foi fornecido pelo progra-ma do equipamento a partir do conhecimento prévio da área de secção do corpo de prova, calculada na presente investigação, a partir da medida do perímetro. Define-se, em mecânica, o módulo de elasticidade como resultado da tensão convencional (carga dividida pela área) dividido pelo alongamento num ponto qualquer do trecho elástico do diagrama tensão-alongamento relativo; é a variável que melhor expressa a rigidez de um corpo de prova submetido a ensaio de tração axial.

A análise estatística efetuada nos resultados obtidos nas propriedades mecânicas mostrou que na carga máxima não houve diferença no comportamento dos três grupos; em-bora os valores obtidos no grupo I (Mononylon) tenham sido discretamente superiores, essa diferença não foi sig-nificativa; foi significativa, entretanto, a diferença entre o lado suturado e o respectivo controle pareado nos três gru-pos. Portanto, o comportamento entre os três grupos foi semelhante, não sendo possível afirmar, pela análise isola-da desse parâmetro, que um determinado fio seja superior
a outro.

Trail et al , em 1989 (15) , analisaram o comportamento mecânico de diversos tipos de fios de sutura em ensaios com os mesmos íntegros ou com nós; supôs-se que conhe-cer o desempenho de um fio íntegro não é suficiente, é preciso também investigar o comportamento com o nó, além do número de nós necessário para que não haja escorrega-mento. Nesse trabalho, os autores encontraram para o fio íntegro 12,23 ± 0,87N ( Mononylon), 13,76 ± 2,22N ( Pro-lene ) e 19,16 ± 1,09N ( Ethibond ), valores que são discre-tamente inferiores aos do presente estudo; os mesmos fios,
com nós, apresentaram 8,65 ± 1,10N ( Mononylon), 11,24 ± 0,90N ( Prolene) e 10,32 ± 1,80N ( Ethibond ), resultados inferiores aos obtidos com o fio íntegro, o que parece de-monstrar que a presença do nó diminui a resistência do conjunto, mesmo que não haja escorregamento. Os resul-tados do presente trabalho foram semelhantes, ressaltan-do-se que aqui foi testado o fio com nó comum a técnica de sutura em corpo de prova biológico.

Becker e Davidoff (16) , em 1977, em estudo semelhante, encontraram 10,32 ± 1,80N para o Ethibond , que é aproxi-madamente 50% do valor da presente investigação.

Ketchum et al (9) , em 1977, estudaram, em tendões de cães, vários fios e encontraram aproximadamente 26N ( Mo-nonylon), 30N (Prolene) e 32N ( Ethibond ), valores pouco superiores aos nossos, porém com técnicas diferentes de amarração.

Nota-se, portanto, que a comparação direta de resulta-dos é difícil porque cada trabalho apresenta particularida-des metodológicas, mas, com exceção de Becker e Davi-doff (16) , os outros dados da literatura são semelhantes.

Com relação ao alongamento relativo, a análise estatís-tica mostrou que o Mononylon tem comportamento dife-rente do do Prolene e do Ethibond , caracterizado por maior capacidade de alongamento até ruptura. O grupo suturado com Mononylon quando comparado com o controle parea-do também apresentou comportamento diferente de ma-neira significativa, ou seja, o lado suturado apresentou com-portamento "menos fisiológico" em relação ao tendão íntegro. Esse resultado aponta para a ocorrência de gap entre os cotos suturados antes do ponto de ruptura, o que poderia significar in vivo prejuízo para o processo de repa-ração ou, em outras palavras, a sutura com esse fio poderia não ser rígida o suficiente para permitir carga precoce.

Já o comportamento do Prolene e do Ethibond foi seme-lhante, tanto quando comparados entre si como na compa-ração contra o controle íntegro e, dessa maneira, a prefe-rência por esses fios talvez pudesse ser justificada quando se pretenda a utilização de movimentação no pós-operató-rio imediato.

Trail et al (15) também analisaram o alongamento de di-ferentes fios íntegros e obtiveram na ruptura: 60,30 ± 17,16mm (Mononylon), 72,24 ± 20,59mm (Prolene) e 33,00 ± 10,43mm (Ethibond ). Observa-se que, com o fio íntegro, Mononylon e Prolene apresentam comportamento seme-lhante e alongaram-se mais até a ruptura que o Ethibond , resultado que é diferente do da presente investigação, em que os fios foram testados com nós. De qualquer maneira percebe-se que o Ethibond , com ou sem nó, alongou-se menos que os outros fios, o que pode ser útil em relação à
possível prevenção de formação de gap durante movimen-tação precoce.

Não encontramos nenhum trabalho que tenha investiga-do o módulo de elasticidade e, portanto, não há dados para comparação. Parece justificável o estudo do módulo, que é propriedade material e pode estimar de maneira mais exata a rigidez do corpo de prova. O resultado mostrou seme-lhança de comportamento entre os três grupos, ou seja, to-dos os fios com a técnica de sutura utilizada apresentaram rigidez semelhante e todos são igualmente inferiores (me-nos que 10%) do comportamento do controle, o que pode significar cautela em relação à proposta de movimentação imediata.

Resta ainda comentar como o Mononylon apresenta com-portamento mais "elástico", se este possui módulo de elas-ticidade (indicador da rigidez) semelhante ao dos outros fios. A explicação pode estar no fato de o alongamento maior observado no grupo Mononylon ter ocorrido predo-minantemente já próximo à carga de ruptura e não de ma-neira uniforme ao longo do ensaio, mas para corroborar esta afirmação seria necessária a análise detalhada do dia-grama carga-deformação, que não foi objetivo deste estudo.

CONCLUSÕES

Nas condições deste experimento, e no cão, a resistên-cia à tração e a rigidez (módulo de elasticidade) de todos os fios usados com o mesmo tipo de sutura foram seme-lhantes. O Mononylon teve alongamento relativo na carga máxima maior do que o Prolene e o Ethibond , sugerindo formação de gap com este fio.

REFERÊNCIAS

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