INTRODUÇÃO

A osteonecrose não traumática (ON) da cabeça femoral é freqüentemente bilateral(12,19). O índice de bilateralidade, no entanto, varia muito em diferentes estudos de doença(5,7,8). O tempo de acompanhamento da ON após o diagnóstico inicial em um dos quadris favorece a identificação da doença do lado contralateral(4). Outro ponto de interesse refere-se também à bilateralidade como fator prognóstico no tratamento (1,18). O objetivo deste trabalho é observar a incidência da bilateralidade e analisar o fator bilateralidade em relação ao prognóstico. Os dados dos autores são confrontados com os da literatura.

MATERIAL

A casuística constou de 77 pacientes portadores de ON do quadril, operados de descompressão e enxerto ósseo ilíaco. Foram 91 procedimentos referentes a 77 pacientes, sendo que 39 pacientes (50,6%) apresentaram ON na cabeça femoral em ambos os lados, ou seja, ON bilateral. Destes, 28 casos bilaterais foram operados em datas diferentes (gráfico 1). Dentre os pacientes com ON bilateral, 14 foram submetidos a descompressão e enxerto ósseo em ambos os lados, e os demais, 25 pacientes, foram operados em apenas um dos lados.


MÉTODO

Todos os pacientes eram portadores de ON definida con-forme os critérios do Comitê de Investigação de ON do Japão(14) e de Camp & Colwell(2). Estes pacientes foram submetidos a descompressão e enxerto ósseo ilíaco conforme técnica descrita por Drumond, Magalhães, Oliveira et al.(8), em 1984, na Revista Brasileira de Ortopedia.

Os pacientes foram categorizados em dois grupos: os bilaterais e os unilaterais. Os resultados clínicos do tratamento foram avaliados nos grupos unilaterais e bilaterais, sendo feita análise estatística para definir-se se o fator bilateralidade influencia o prognóstico dos pacientes tratados.

Utilizou-se o teste do ?2 (qui-quadrado) como forma de avaliar a associação entre o resultado clínico e a bilateralidade.

A avaliação clínica foi feita pelo método de Merle D'Au-bigné & Postel(11) modificado por Charnley(3), em que foi verificada a presença de dor, as condições da marcha e função e a amplitude de movimento dos quadris.

RESULTADOS

Os resultados clínicos foram satisfatórios em 74,7% dos pacientes e insatisfatórios nos 25,3% restantes (gráfico 2 e tabela 1).

A bilateralidade como fator prognóstico no tratamento da ON da cabeça do fêmur - Análise da associação entre o resultado clínico e a bilateralidade

Não foi observada associação entre o resultado clínico e a ocorrência de ON bilateral, embora o índice de satisfação entre os casos unilaterais tenha sido maior (79%) do que nos casos bilaterais (71,7%). A tabela 2 mostra esses resultados.

A bilateralidade foi analisada em relação aos resultados clínicos em três grupos de pacientes. No primeiro, em que foi feito enxerto bilateral (em um dos lados a doença era mais adiantada), houve satisfação de 64,3%. No segundo grupo de casos unilaterais, a satisfação foi 78,9%. No terceiro grupo, em que o lado mais adiantado foi submetido a artroplastia total do quadril e o outro ao enxerto ósseo, o índice de satisfação foi de 80,0%. Esses resultados, no entanto, não foram estatisticamente significantes.

DISCUSSÃO

A incidência da bilateralidade em ON

A bilateralidade da necrose foi encontrada em 39 dos 77 pacientes portadores de ON, o que correspondeu a 50,6%. Os achados de bilateralidade na literatura mostraram índices variáveis, conforme visto na tabela 3. Ela aumentou na proporção em que os pacientes foram observados. Merle D'Au-bigné et al.(12), em 1965, verificaram que na observação inicial a bilateralidade era de 13%, após seis meses de 24%, após dois anos de 36%, atingindo cerca de 50% quando se publicou o artigo. Nas avaliações anteriores do autor e cola-boradores(6-8) o índice de bilateralidade também aumentou até a cifra do presente estudo. A pesquisa bibliográfica mostrou que a bilateralidade em diversas séries situava-se em torno de 50%, podendo, no entanto, apresentar valores mais altos como de 75% e 91% (tabela 3).

A bilateralidade como fator prognóstico

Uma busca sistemática na literatura(6) nos mostrou que a bilateralidade foi considerada como fator prognóstico por dois autores e como fator sem valor prognóstico em outros dois (tabela 4).

Logo, a bilateralidade não foi considerada como fator prognóstico em ON tratadas com enxerto ósseo e descompressão.

REFERÊNCIAS

1. Boetcher, W.G., Bonfiglio, M. & Smith, K.: Non traumatic necrosis of the femoral head. J Bone Joint Surg [Am] 52: 323-329, 1970.

2. Camp, J.F. & Cowell, C.W.: Core decompression of the femoral head for osteonecrosis. J Bone Joint Surg [Am] 68: 1313-1319, 1986.

3. Charnley, J.: The long-term results of low-friction arthroplasty of the hip performed as primary intervention. J Bone Joint Surg [Br] 54: 6176, 1972.

4. Coste, F., Merle D'Aubigné, R., Postel, M. et al: Evolution de l'osteone-crose primitive de la tête fémorale et perspectives therapeutiques. Presse Med 73: 263-267, 1965.

5. Defino, H.L.A., Picado, C.H.F., Issa, M. et al: Tratamento da necrose avascular da cabeça femoral pela técnica de descompressão. Rev Bras Ortop 26: 395-402, 1991.

6. Drumond, S.N.: Osteonecrose da cabeça do fêmur, tese, mestrado em Cirurgia, Fac. Med. UFMG, Belo Horizonte, 1997. 232p.

7. Drumond, S.N., França, J.T. & Drumond, O.R.: Tratamento da necrose não traumática da cabeça femoral. Rev Bras Ortop 28: 477-482, 1993.

8. Drumond, S.N., Magalhães, M.J., Oliveira, D.J. et al: Tratamento de ne- crose isquêmica não traumática da cabeça femoral. Rev Bras Ortop 19: 163-168, 1984.

9. Laredo, F.J., Oliveira, H.C., Turíbio, F.M. et al: Importância da tomogra- fia computadorizada na necrose asséptica da cabeça femoral: proposta de uma classificação. Rev Bras Ortop 25: 55-62, 1990.

10. Louyot, P. & Gaucher, A.: A propos de trente observations d'ON primi- tive de la tête fémorale. Rev Rhum 29: 577-581, 1962.

11. Merle D'Aubigné, R. & Postel, M.: Functional results of hip arthroplas- ty with acrylic prosthesis. J Bone Joint Surg [Am] 36: 451-475, 1954.

12. Merle D'Aubigné, R., Postel, M., Mazabraud, A. et al: Idiopathic necro- sis of the femoral head in adult. J Bone Joint Surg [Br] 47: 612-633, 1965.

13. Musso, E.S., Mitchell, S.N., Schink-Ascani, M. et al: Results of conser- vative management of osteonecrosis of the femoral head. Clin Orthop 297: 209-215, 1986.

14. Ono, K. (ed.): Annual report of Japanese investigation committee for avascular necrosis of femoral head (in Japanese) 1986: 331-336, apud Ohzono, K., Saito, M., Takaoka, K. et al: History of nontraumatic avas- cular necrosis of the femoral head. J Bone Joint Surg [Br] 73: 68-72, 1991.

15. Patterson, A.R., Bickel, W.H. & Dahlin, D.C.: Idiopathic avascular ne- crosis of the head of femur. J Bone Joint Surg [Am] 46: 267-282, 1964.

16. Penedo, J.L., Rondinelli, P., Pina Cabral, F. et al: Necrose avascular da cabeça femoral: tratamento pela técnica de descompressão cirúrgica. Rev Bras Ortop 28: 338-342, 1993.

17. Saito, S., Ohzono, K. & Ono, K.: Joint-preserving operations for idiopathic avascular necrosis of the femoral head. J Bone Joint Surg [Br] 70: 78-84, 1988.

18. Smith, K., Bonfiglio, M. & Dolan, K.: Roentgenographic search for avas- cular necrosis of the head of the femur in alcoholics and normal adults. J Bone Joint Surg [Am] 59: 391-396, 1977.

19. Tooke, S.M.T., Nugent, P.J., Basset, L.W. et al: Results of core decom- pression for femoral osteonecrosis. Clin Orthop 222: 99-104, 1986.