a Laboratório de Pesquisa Neuromuscular, Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), Rio de Janeiro, RJ, Brasil
b Departamento de Biociências, Escola de Educação Física e Desportos (EEFD), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil
c Laboratório de Neurofisiologia e Neuropsicologia da Atenção, Instituto de Psiquiatria, Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ipub/UFRJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil
d Instituto de Neurociências Aplicadas (INA), Rio de Janeiro, RJ, Brasil
e Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), Rio de Janeiro, RJ, Brasil


INTRODUÇÃO

A cinemática apropriada do joelho depende da estabilidade mecânica da articulação exercida por componentes estáticos e dinâmicos. 1,2 Os ligamentos fornecem estabilização estática e sua principal função é permitir a cinemática articular normal e prevenir movimentos anormais e rotaç ões que possam danificar as superfícies articulares, 2 enquanto que a estabilização dinâmica é dada pela atividade contrátil muscular coordenada, modulada pelo sistema neuromuscular. 3,4 Essa última necessita de informaç ões proprioceptivas da cinestesia e posição articular 5-7 e da força desenvolvida pelos músculos.8-10

Essas informaç ões são obtidas por meio da aquisição de sinais aferentes dos mecanorreceptores periféricos, encontrados nos músculos, tendões, ligamentos, nas cápsulas articulares e na pele. 11 Mecanorreceptores também foram identificados no ligamento cruzado anterior (LCA) 12 e acredita-se que contribuam para a propriocepção do joelho. 13,14 Dessa maneira, a ruptura do LCA levaria à instabilidade articular não apenas pelo comprometimento da restrição mecânica, mas também por perturbar a propriocepção 14,15 e diminuir a capacidade dos músculos que atuam no joelho de responder adequadamente às cargas aplicadas. 15,16

Déficits proprioceptivos foram observados em pacientes com ruptura do LCA e associados com a redução da capacidade funcional. 7,17 Tais déficits foram identificados para o limiar de detecção do movimento passivo (LPMP) e para o senso de posição articular (SPA) quando comparados a indivíduos normais 18,19 e com o membro contralateral saudável. 19,20 As avaliaç ões do LPMP e de SPA passivo têm sido adotadas preferencialmente nos estudos. 18,21,22 Essa prática se baseia no pressuposto de que as baixas velocidades angulares usadas estimulariam especificamente os receptores das estruturas cápsulo-ligamentares, sem a estimulação dos receptores intramusculares e tendíneos. Nesses procedimentos, a atividade muscular voluntária dos indivíduos não é envolvida. Contudo, em condiç ões normais do movimento humano, a atividade muscular voluntária está sempre presente.

Poucas evidências demonstraram que déficits proprioceptivos, da maneira como são avaliados, afetariam adversamente os pacientes com LCA insuficientes ou reconstruídos cirurgicamente. 22 Assim, procedimentos que envolvam a ação muscular voluntária e, consequentemente, a estimulação dos receptores músculo-tendíneos devem receber maior atenção em avaliaç ões proprioceptivas. A avaliação do SPA com posicionamento e reprodução ativas pode ser uma opção de verificação da capacidade proprioceptiva de maneira mais funcional. Dessa forma, o presente estudo objetivou verificar se o déficit proprioceptivo no SPA permanece quando pacientes com um membro LCA deficiente são avaliados por meio de um teste de reprodução ativa da posição articular, em comparação com o membro contralateral saudável.

Materiais e métodos

Sujeitos

Participaram do estudo 20 pacientes (12 homens e oito mulheres, idade 30,6 ± 4,5 anos; peso 72,3 ± 14,2 kg; estatura 169,2 ± 8,9 cm) com ruptura unilateral do LCA. Foram selecionados aleatoriamente a partir da lista de espera para reconstrução cirúrgica do LCA. Os critérios de inclusão foram: 1) idade entre 20 e 40 anos; 2) ausência de lesão do LCA ou qualquer outra estrutura do joelho contralateral; 3) não ter sido submetido a cirurgia no membro com ruptura do LCA; 4) não ter sinais de degeneração articular (caracterizado por crepitação articular em qualquer um dos compartimentos do joelho). Os critérios de exclusão foram: 1) lesão condral diagnosticada no exame de ressonância magnética e 2) sinais de osteoartrose na radiografia do joelho. Todos os pacientes foram avaliados clinicamente pelo mesmo ortopedista (tabela 1). O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética local e os sujeitos foram informados dos objetivos e procedimentos por meio do termo de consentimento livre e esclarecido, conforme a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.

Avaliação do senso de posição articular

Instrumento: Foi usado um dinamômetro isocinético (CSMI, Humac Norm) em todos os procedimentos.

Posicionamento: Os sujeitos foram posicionados sentados, com o côndilo lateral do fêmur alinhado ao eixo de rotação do aparelho e o tornozelo fixado a haste do acessório de avaliação do joelho por uma tira de velcro (fig. 1). Cuidado foi tomado para posicionar a fossa poplítea afastada do limite do acento para, assim, permitir o completo movimento articular e minimizar as estimulaç ões cutâneas dessa região. A precisão usada nas mensuraç ões angulares foi de 1 ? .

Amplitude articular máxima: A AAM do movimento de flexo-extensão foi determinada com a mensuração da amplitude entre a extensão máxima (0 ? ) e a flexão máxima do joelho.

Teste de reprodução da posição articular: Os indivíduos tiveram de vivenciar e posteriormente reproduzir posiç ões articulares, ambos com movimentos voluntários. Os comandos para execução da tarefa foram fornecidos verbalmente pelo avaliador e o sentido do movimento foi de flexão para extensão. Foram usadas duas posiç ões metas para ser vivenciadas, 20% e 50% da AAM (0% = extensão máxima). Ambos os membros foram avaliados e a escolha da ordem foi aleatória. Durante todo o procedimento os pacientes tiveram os olhos vendados. Variaç ões de ± 5 ?em torno da posição meta foram permitidas. Quando o sujeito violou essa margem, a tentativa foi descartada. Foram feitas cinco tentativas para cada posição meta (10 no total).

Determinação do erro individual e cálculo da acuidade proprioceptiva

O valor de erro individual para cada tentativa feita foi determinado pela diferença entre a posição reproduzida e a posição vivenciada. O desempenho proprioceptivo foi determinado por meio dos valores de erro absoluto (EA), erro variável (EV) e erro constante (EC). Schmidt e Lee 23descreveram em detalhes os cálculos de cada variável. Brevemente, o EA é obtido pela média aritmética dos erros individuais em módulo e determina a acurácia do individuo de reproduzir a posiç ão; o EV é o desvio padrão dos erros individuais e determina a consistência nas reproduç ões feitas; e o EC é a média aritmética dos erros individuais com os sinais e determina a tendência de reproduzir a posição acima ou abaixo da meta (viés ou bias).

Análise estatística

Foi usada estatística descritiva (média ± DP) para descrição dos dados. As variáveis dependentes foram os EA, EV e EC. Os dados foram submetidos ao teste de normalidade de Shapiro--Wilk. Comparaç ões foram feitas entre o membro LCA e o contralateral (controle). Os valores determinados para 20% e 50% AAM foram comparados com teste t para medidas pareadas. Os cálculos foram feitos no software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS Inc., Chicago, IL, EUA) e os gráficos no Sigma Plot (Systat Inc. Chicago, IL, EUA). A significância estatística estabelecida foi de p = 0,05.

Resultados

Tempo de lesão, causa da lesão e lesões associadas

O tempo médio de lesão até a coleta dos dados era de 3,7 ± 1,2 anos. As lesões ocorreram na maioria por entorse em situaç ões do cotidiano (45%), lesões sem contato em futebol recreativo (35%), quedas (15%) e acidente automobilístico (5%). Foram verificadas lesões associadas de 14 pacientes, 13 no menisco medial e apenas uma no lateral.

AAM, 20% AAM, 50% AAM e posições vivenciadas

A amplitude articular máxima determinada para o membro LCA foi de 105,3 ?± 11,8 ? e para o controle 111,2 ?± 10,2 ? . As posiç ões metas calculadas para o LCA 20% e 50% AAM foram 21,1 ?± 2,4 ? e 52,6 ?± 5,9 ? , respectivamente. As posiç ões metas calculadas para o controle 20% e 50% AAM foram 22,2 ?± 2,0 ? e 55,6 ?± 5,1 ? , respectivamente. As posiç ões vivenciadas usadas no teste de reprodução articular foram 20,3 ?± 3,8 ? e 50,5 ?± 7,2 ? LCA, enquanto que as posiç ões vivenciadas usadas no teste de reprodução articular foram 21,1 ?± 3,0 ? e 52,4 ?± 5,9 ? no controle.

Erros individuais

Os valores determinados para os erros individuais estão demonstrados graficamente nas figuras 2 e 3.

EA, EV e EC

Os valores determinados para os EA, EV e EC estão listados na tabela 2. O membro com LCA em geral demonstrou valores maiores (piores). Diferenças significativas foram encontradas para o EA em ambas as posiç ões avaliadas e para o EC em 50% AAM.

Discussão

Os ligamentos têm a função de restringir mecanicamente a amplitude articular e limitar o movimento por meio de um arco estável. 1,2 Além disso, fornecem informaç ões proprioceptivas 24,25 e possibilitam a estabilização dinâmica da articulação modulada pelo sistema neuromuscular. 3,4 Se esse sistema estiver íntegro, possibilita respostas motoras reflexas apropriadas e diminui a possibilidade de ocorrência de movimentos articulares anormais e subluxaç ões. 2,16,26

Pacientes com lesão do LCA apresentam déficit proprioceptivo 18,20 e esse déficit tem sido proposto como responsável pela sensação de falseio e quedas relatadas pelos pacientes com instabilidade anterior do joelho. 27 Comumente a propriocepção do joelho tem sido avaliada com o uso de testes passivos, 6,28 nos quais a ação muscular voluntária dos indivíduos não está presente. Os equipamentos geram movimentos passivos com o uso de baixas velocidades angulares (aproximadamente 0,5 ? /s) com o intuito de avaliar seletivamente os receptores cápsulo-ligamentares. 29 A estimulação dos receptores intramusculares e tendíneos ocorre continuamente durante atividades motoras voluntárias. Sendo assim, é importante verificar se déficits no senso de posição articular continuam presentes ao se usar um método ativo para testar o SPA.

Neste estudo avaliamos o SPA em pacientes com lesão do LCA unilateral com o uso de um dinamômetro isocinético com as medidas ativas em 20% e 50% da amplitude articular máxima. O uso do percentual da AAM, em vez de valores absolutos, foi adotado para tornar a comparação entre os sujeitos relativizada. 30Foram encontradas diferenças significativas em ambas as posiç ões avaliadas para o EA, o que demonstra que o membro LCA deficiente tem menor acurácia na reprodução da posição articular quando comparado ao membro contralateral saudável. Corroborando os resultados de Lee et al., 19 Carter et al., 20 ao avaliar o SPA de 50 pacientes com lesão unilateral do LCA com o uso de um dinamômetro isocinético, encontraram um EA significativamente diferente entre os membros lesionados e controle 9,42 ?± 3,14 ? e 7,1 ?± 2,32 ? , respectivamente.

Diferenças significativas para o EV não foram identificadas, o que demonstra que os indivíduos apresentaram as mesmas consistências na reprodução da posição articular independentemente da lesão. O EC determinado, tanto para o membro LCA deficiente quanto para o contralateral saudável, tiveram valores negativos (reposicionamento do membro abaixo da posição meta). Esse comportamento também foi identificado por nosso grupo em indivíduos livres de lesões ortopédicas (dados não publicados). Neste presente estudo, apenas o EC de 50% AAM alcançou diferença estatística. Porém, pelos métodos aplicados não é possível obter uma resposta fisiológica para esse comportamento. Os valores de EV e EC não são comumente usados na literatura, o que impede a comparação dos resultados.

Conclusão

O déficit proprioceptivo quando avaliado pelo EA permanece mesmo quando a avaliação do senso de posição articular é ativa e, consequentemente, envolve a atividade de receptores intramusculares e tendíneos. Estudos futuros deverão incluir o cálculo dos erros variáveis e erro constante, possibilitar comparaç ões de resultados e, assim, ampliar o conhecimento do comportamento dessas variáveis.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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