Apesar de configurar-se como entidade clínica não muito freqüente, os tumores glômicos, principalmente em sua localização subungueal, têm sido bastante estudados na literatura médica, desde Wood, em 1812, ressaltando-se suas variadas formas de apresentação e localização. Neste trabalho, pretendemos mostrar nossa experiência recente com oito casos desta patologia submetidos a tratamento cirúrgico em nosso serviço.
Estes tumores derivam-se de estrutura neurovascular complexa, enovelada, denominada "glomus", e localizada normalmente entre a derme e a hipoderme das extremidades digitais, podendo ter outras localizações menos freqüentes, inclusive viscerais. Apresentam-se também comumente solitários, embora sejam descritos casos de múltiplas tumoraçõ (2) (fig. 1). A relação entre o aparecimento destes tumores e traumatismos ainda não é fato devidamente comprovado.
MATERIAL E MÉTODOS
Foram compilados em análise retrospectiva oito casos de tumores únicos, operados no período de 1984 a 1994, sendo todas as pacientes do sexo feminino, com idades variando entre os 20 e os 50 anos. A localização subungueal foi predominante, com cinco casos, seguidos daqueles em polpa digital, dois casos. O último caso foi encontrado em região tenar. Todos os tumores localizavam-se em dedos de mão, enquanto apenas um encontrava-se no hálux.
Diagnóstico
O diagnóstico é fundamentalmente clínico, podendo o tumor ser ou não visível ou palpável na extremidade digital; a queixa é sempre de dor importante, paroxística e com exacerbação nas exposições à baixa temperatura e à compressão. Podem-se observar pequenas alterações na coloração ungueal.
O diagnóstico diferencial deve ser feito com inúmeros tipos de tumores primários ou metastáticos, como por exemplo os neurofibromas, cistos mixóides, hemangiomas, encondromas, etc. A ultra-sonografia foi de grau de utilidade na localização de tumores de até 3mm de diâmetro, utilizandose aparelhos de alta freqüência (3) (fig. 2).
Tratamento
Otratamento foi cirúrgico em todos os casos, procedendose à excisão completa de pequenas tumorações multilobuladas, de coloração óssea ou púrpura, facilmente descoladas do leito hipodérmico, através de incisões laterais à polpa digital ou de janelas ungueais e acesso pelo leito ungueal quando a localização era subungueal (7) (figs. 3, 4, 5).
A confirmação diagnóstica por exame histopatológico ocorreu em sete casos. Naquele localizado no hálux, houve dúvidas quanto à origem do tumor, imputando-se ao tecido vascular e não às células glômicas, como seria esperado. Sendo assim, o diagnóstico final foi hamartoma, que se comportava clinicamente como tumor glômico. Este caso mostra a dúvida quanto à histogênese do tumor, acreditando alguns que a responsabilidade cabe às células mesenquimais indiferenciadas, explicando a ocorrência de tumores nos ossos e nervos (1,5,8) .
Até o presente momento, num seguimento de dez anos, não observamos recidivas em nossos pacientes.
DISCUSSÃO
De modo geral, os achados em nossos pacientes confirmaram os descritos na literatura quanto à localização predominantemente subungueal, em lesões únicas. A dor é o componente principal do quadro clínico. Não observamos história familiar positiva em nenhum dos casos, assim como relação direta a traumatismos.
Acreditamos que o tratamento cirúrgico seja o mais indicado para este tumor, com excisão e sutura simples, em ambiente cirúrgico adequado e regime ambulatorial. Dessa maneira, temos conseguido até o momento resultados satisfatórios, inclusive do ponto de vista estético, sem necessidade de procedimentos mais sofisticados, como laser de argônio, etc.
É hoje tido como certo que o tumor g1ômico origina-se primordialmente das cé1ulas g1ômicas do canal de SucquetHoyer; os tipos histo1ógicos principais são: 1) angiomatoso: predominância do aspecto vascular; 2) mixóide: predomi -nância do tecido conjuntivo; 3) só1ido: predominância de células epitelióides.
Nos três tipos existem cé1ulas redondas com núcleos grandes, que são as cé1ulas g1ômicas. Em nossos casos, houve maior ocorrência do tipo angiomatoso, com sete casos, ocorrendo apenas um do tipo só1ido.
O caso de localização tenar foi de difícil diagnóstico, por tratar-se provavelmente de tumor infiltrativo ocasionalmente descrito na literatura. A confirmação só foi conseguida através da biópsia incisional, pois a imagenologia foi toda negativa (fig. 6). Este tipo tumoral possui aspecto angiomatoso, com ausência de cápsula e infiltração nos tecidos vizinhos, com tendência à recidiva após a cirurgia. A degeneração sarcomatosa é rara (4) . Não podemos desprezar o papel da imuno-histoquímica esclarecedora no diagnóstico diferencial e na pesquisa da histogênese (6) .
2. DAcri, A.M.: Tumor glômico, monografia, Univ. do Rio de Janeiro, 1994. p. 5-8. 3. DAcri, A.M., Luz, B.F. & Ferreira, A. J.: Tumor glômico. An Bras Dermatol
69: 405-411, 1994.
4. Gould, E.W., Manivel, J.C., Saavedra, J.A. & col.: Locally infiltrative glomus tumors and glomangiosarcomas: a clinical, ultrastructural and immunohistochemical study. Cancer 65: 310-318, 1990.
5. Kline, S.C., Moore, J.R. & Demente, S.H.: Glomus tumor originating within a digital nerve. J Hand Surg 15: 98-101, 1990.
6. Lopes Cardoso, I.C., Rosa Santos, O.L. & Rettore, F.C.: Tumor glômico - Estudo retrospectivo de 8 casos, HCFF-UFRJ no período entre 1978 e 1993. F Med 109: 137-141, 1994.
7. Moraes, H.B.: Comunicação pessoal, 20 de junho, 1994.
8. Serra, J.M., Muirragri, A. & Tadjalli. H.: Glomus tumor of the metacarpophalangeal joint: a case report. J Hand Surg 10: 142-143, 1985.