Departamento de Ortopedia e Traumatologia, Instituto Doutor José Frota de Fortaleza, Fortaleza, CE, Brasil
 


 

Introdução

As fraturas do quadril incluem o conjunto das fraturas intertrocantéricas, cabeça/colo femoral e acetábulo. Esse conjunto incide em todas as faixas etárias e constitui um grande problema de saúde pública brasileiro. A população mais envolvida nesse problema está na faixa etária geriátrica, já que a incidência de fraturas do quadril aumenta com a idade e dobra a cada 10 anos depois dos 50 anos.1

O crescente aumento da expectativa de vida da população nas últimas décadas, associado a um estilo de vida mais ativo dos idosos e às comorbidades presentes nessa população, como a redução da massa magra, do equilíbrio, dos reflexos e da densidade mineral óssea, resulta em osteopenia e osteoporose e tem levado a um aumento de fraturas na população geriátrica.2

A mortalidade após fraturas de quadril se aproxima de 10% no primeiro mês e cerca de 30% em um ano. Entre os pacientes que sobrevivem, grande parte evolui com uma redução da mobilidade e do grau de independência.3

A maioria dos estudos tem o enfoque, principalmente, na mortalidade causada por esses traumas. No entanto, os estudos que avaliam a morbidade, ou seja, a perda de função pós-fratura, são menos comuns.4 O tratamento das fraturas do quadril com cirurgia é considerado o padrão-ouro, posto que reduz algumas complicações relacionadas à imobilização

prolongada, como eventos tromboembólicos e úlceras de decúbito.5 Devido à incidência crescente de fraturas de quadril e, consequentemente, a um maior número de procedimentos cirúrgicos para esse tipo de trauma, torna-se fundamental a avaliação do grau de qualidade de vida e independência dos pacientes após terem sido submetidos à cirurgia. Uma forma de avaliar os resultados funcionais após o tratamento cirúrgico de fraturas do quadril é por meio de questionários, com o objetivo de acompanhar a melhoria ou não das funções do cotidiano do paciente.

Um estudo aplicou um questionário em 537 idosos com fratura de quadril com três parâmetros, self-care, transfers e locomotion, para mensuração do grau de independência dos pacientes após correção cirúrgica.6 Posteriormente, outra pesquisa envolveu 154 fraturas do terço proximal do fêmur tratadas cirurgicamente e usou o questionário Hip Function Recovery Score (Anexo 1) elaborado por Zuckerman et al.7-9 Esse consiste em 11 perguntas relacionadas às atividades de vida diária: quatro relacionadas à independência nas atividades básicas, seis às atividades instrumentais e uma à mobilidade.10 No entanto, esse questionário foi usado em sua forma original, a partir da língua inglesa, traduzido de maneira literal.10

Sabemos da importância da tradução para a língua portuguesa de questionários escritos na língua inglesa e da adaptação também desses questionários às característicasindividuais e culturais da população local para torná-los adequados ao contexto cultural da população-alvo.11,12 Portanto, uma tradução padronizada de questionários da língua inglesa para a portuguesa torna-se fundamental para uma avaliação fidedigna das informações extraídas a partir desses questionários traduzidos, o que permite uma melhor comparação entre trabalhos científicos que abrangem diferentes técnicas operatórias e distintos programas de reabilitação dos pacientes vítimas de fraturas que envolvem o quadril e que foram submetidos a tratamentos cirúrgicos.

Portanto, temos como objetivo fazer a tradução transcultural de forma criteriosa do questionário Hip Function Recovery Score elaborado por Zuckeman et al.7,8 e adaptá-lo às características individuais e culturais da população brasileira.

Material e métodos O estudo em questão consistiu em um estudo de coorte, qualitativo e observacional, tendo em vista que não fizemos qualquer intervenção na forma em que os pacientes foram acompanhados pela equipe de traumatologia do hospital. Proporcionamos, assim, apenas uma avaliação sobre os questionários e buscamos as possíveis dificuldades de entendimento por partes dos participantes da pesquisa.

O método de tradução e adaptação cultural do questionário Hip Function Recovery Score(tabela 1) para a língua portuguesa usou os critérios descritos por Guillemin et al.13 e Heruti et al.14 e revisados por Beaton et al.,15 que consistem em um conjunto de instruções padronizadas para adaptação cultural de instrumentos de qualidade de vida que resumidamente incluem quatro etapas: tradução inicial, retrotradução, tradução de consenso e pré-teste.

Essa padronização visa a obter uma adaptação cultural de expressões para que não haja perda da semântica durante o processo de tradução.16 Esse método de tradução consiste em tradução inicial seguida de uma retrotradução e, posteriormente, uma apreciação das versões com elaboração de uma versão de consenso e pré-teste comentado com elaboração da versão final.

Inicialmente o questionário Hip Function Recovery Score, em sua versão original em inglês, foi traduzido para o português por dois tradutores juramentados, independentes e bilíngues que tinham como língua principal o português e fluência na língua inglesa (tabela 1). Posteriormente, as duas versões foram confrontadas e se chegou a uma versão de consenso. Essa foi, então, retrotraduzida à língua inglesa por outros dois tradutores bilíngues, cuja língua principal é o inglês e que apresentam fluência na língua portuguesa e residem no Brasil (tabela 2). Os tradutores responsáveis pela retrotradução não tinham conhecimento da versão original do questionário em inglês

As duas traduções obtidas foram avaliadas por um grupo, composto por tradutores, médicos pesquisadores e professor da língua portuguesa, para que, por meio de comparação com o texto original, ocorresse a correção de discrepâncias e fosse elaborada uma versão de consenso (tabela 2).

A versão de consenso foi empregada como pré-teste e aplicada a 30 pacientes e cuidadores de pacientes vítimas de fraturas do quadril acima de 60 anos que foram submetidos a tratamento cirúrgico em um hospital de referência em traumatologia, para avaliação da compreensão e da aceitabilidade do instrumento e para a estimativa de possíveis necessidades de alterações devido a dificuldades encontradas pelos pesquisadores e pacientes no momento da aplicação dos questionários. Não se aplicou o questionário a pacientes ou cuidadores que não tinham um grau razoável de orientação e/ou cognição satisfatório na resposta aos questionários, para que não houvesse interferência nos resultados sobre o entendimento das perguntas.

Todos os pacientes convidados a participar da pesquisa foram orientados sobre os princípios do estudo e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. A pesquisa em questão foi avaliada e aprovada por um Comitê de Ética em Pesquisa e está em conformidade com a Resolução 466/12.

Após a aplicação da versão de consenso, ocorreram reuniões com um cirurgião de quadril, também membro da equipe envolvida na pesquisa, para avaliar as dificuldades encontradas pelos pacientes e aplicadores na versão de consenso. Com base nas sugestões, foi elaborada a versão final em português do questionário de Recuperação Funcional de Fratura em Idosos (Anexo 1), incluindo algumas explicações entre parênteses para aquelas expressões consideradas de difícil compreensão. Posteriormente, o novo questionário, dessa vez com as alterações necessárias, foi reaplicado aos mesmos pacientes.

Resultados Foi obtida uma grande semelhança entre as versões dos dois tradutores (T1 e T2). Quando os termos não eram idênticos, optamos pela tradução que considerávamos de mais fácil entendimento por parte dos indivíduos pesquisados. A tabela 1 apresenta a versão original em conjunto com as duas traduções feitas por tradutores juramentados.

Entre as diferenças encontradas nas traduções, optamos pela versão do tradutor 1 no item “banho”, já que percebemos que utensílio banheira não está no cotidiano da maior parte da população brasileira. Optamos pela tradução de capacidade de tomar banho. No item “alimentação”, escolhemos a tradução 2, pois julgamos de mais fácil entendimento a expressão manipular comida em vez de manuseio de alimento, além de elegermos o termo sonda em detrimento de tubo de alimentação, pois melhor caracteriza o uso de instrumento de auxílio para nutrição. Percebemos ainda, diferenças na tradução do termo bedpan e obtivemos como traduções as palavras aparador e comadre. Selecionamos o termo aparador, inicialmente traduzido pelo tradutor 1. Outro tópico que gerou discussão foi a tradução da palavra bending no item “trabalho em casa”, demonstrada como “flexão” (T1) e “curvar-se” (T2). Nesse caso optamos pela expressão usada pelo tradutor 1. Outra disparidade importante ocorreu no componente “mobilidade”, no qual optamos pela tradução 2, já que faz referência a caminhar ao ar livre, não usa a expressão caminhar em ambiente externo

Após a elaboração da versão de consenso, aplicamos essa versão a 30 pacientes, com o intuito de avaliar a compreensão,

a equivalência semântica, possíveis discrepâncias culturais e analisar a conceituac¸ão da traduc¸ão proposta. Do ponto de vista de entendimento do questionário, não se observou dificuldade na compreensão das palavras traduzidas. No entanto, houve dificuldade em relac¸ão a alguns costumes da populac¸ão brasileira. Nos itens que têm referência a “lavagem de roupa”, “trabalho em casa” e “preparac¸ão de comida”, observou-se que os idosos do sexo masculino não costumavam fazer atividades domésticas, têm dificuldade de responder esses itens. No item “compra de alimentos/comida”, ampliamos as possibilidades de compras em lojas para compras em supermercado, padaria e mercearia, pois culturalmente as mulheres no Brasil fazem mais compras em supermercados, enquanto que os homens fazem compras usuais do dia a dia em padarias e mercearias (ex: comprar pão). No item “trabalho doméstico” optou-se por colocar entre parênteses as palavras “erguer” e “curvar-se” como referência às palavras elevac¸ão e flexão, respectivamente, com o uso de tal artifício para aumentar o entendimento por parte dos pesquisados.

Após as modificac¸ões sugeridas em concordância pelos autores durante a aplicac¸ão da versão de consenso, foi elaborada a versão final do questionário de Recuperac¸ão Funcional de Fratura em Idosos. Essa versão pode ser vista no Anexo 1 e foi aplicada aos 30 pacientes anteriormente pesquisados. Na reaplicac¸ão, houve entendimento total por parte desses pacientes no que diz respeito à semântica.

Discussão Ortopedistas usualmente avaliam seus resultados cirúrgicos baseados em parâmetros como posicionamento do material de síntese, taxa de consolidac¸ão óssea, percentual de infecc¸ão e arco de movimento. Entretanto, particularmente em idosos, uma cirurgia satisfatória, do ponto de visto técnico, não necessariamente resulta em bons resultados funcionais. Baseados nisso, buscamos trazer para a comunidademédica brasileira a traduc¸ão padronizada transcultural de um questionário de avaliac¸ão funcional mundialmente difundido, inclusive com diversas citac¸ões na literatura médica nacional, anteriormente usado na sua traduc¸ão literal, porém sem haver a preocupac¸ão de adaptar para a realidade cultural do nosso país, o que prejudica até a comparac¸ão entre artigos nacionais.

Dentre os fatores que mais influenciam a perda da capacidade funcional estão a dependência funcional prévia à fratura, o número de comorbidades, a idade avanc¸ada, a perda da capacidade cognitiva e a baixa capacidade funcional no momento da alta hospitalar.17 Fatores como gênero feminino, ausência de diabetes mellitus, capacidade de deambulac¸ão independente e não viver sozinho antes da fratura podem ser fatores de melhor prognóstico.18

As comorbidades associadas têm sido relacionadas como precursoras da mortalidade após fraturas do quadril. O efeito das comorbidades sobre a mortalidade tem sido medido tanto pela quantidade de doenc¸as coexistentes quanto pelo seu tipo. Pacientes com maior número de doenc¸as coexistentes têm maior possibilidade de morrer.19

Neste tipo estudo, optou-se por alterar ao mínimo a estrutura do instrumento original, não incluir ou excluir itens do questionário, a fim de não promover maiores alterac¸ões das propriedades psicométricas e permitir a comparac¸ão das versões.

Buscou-se assegurar uma uniformidade entre as versões, alterar apenas pequenas diferenc¸as de hábitos culturais de vida pertinentes à populac¸ão local. Os tradutores juramentados que participaram do trabalho eram intérpretes/tradutores de áreas diferentes da saúde, com o intuito de minimizar termos técnicos que pudessem dificultar o entendimento pela populac¸ão em geral. No pré-teste, existiram algumas dificuldades de compreensão em alguns termos, que após nova discussão e elaborac¸ão da versão final, apresentou a nova aplicac¸ão se com fácil reprodutibilidade e entendimento entre os pacientes.

Conclusão

O processo de traduc¸ão e adaptac¸ão cultural de questionários elaborados em língua estrangeira deve ser feito de maneira criteriosa, como fizemos com o questionário Hip Function Recovery Score. Obtivemos um excelente entendimento, por parte dos entrevistados, das perguntas do questionário após a elaborac¸ão da versão final brasileira. Os artigos científicos posteriores poderão usar esse questionário padronizado, que poderá servir como comparac¸ão de resultados na avaliac¸ão dos diversos programas de tratamento e reabilitac¸ão de pacientes idosos operados devido a fraturas do quadril e enriquecer a produc¸ão científica nacional.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse. Agradecimentos A todos os pacientes que contribuíram para a feitura deste estudo. Anexo 1. Versão final do questionário de Recuperac¸ão Funcional de Fratura em Idosos

Banho (P)
Você pode tomar um banho ou ducha por si mesmo(a)?
(4) a. Capaz de tomar um banho, banho com esponja ou chuveiro (pode incluir o uso de acessórios: tamborete, banco, cadeira, corrimão);
(3) b. Precisa de ajuda com a lavagem de uma única parte do corpo (por exemplo, costas, extremidade deficiente ou pés) ou precisa de um observador;
(2) c. Precisa de ajuda para entrar e sair da banheira;
(1) d. Precisa de ajuda para lavar mais de uma parte do corpo;
(0) e. Sempre precisa ser banhado(a) por outras pessoas.

Vestir (P) Você pode vestir-se por si mesmo(a)?
(4) a. Capaz de vestir as roupas, calc¸ar sapatos, meias e lidar com botões/zíperes (exclui atar os cadarc¸os);
(3) b. Precisa de ajuda com botões e zíperes;
(2) c. Precisa de ajuda com sapatos e meias (em uma ou ambas as pernas);
(1) d. Precisa de ajuda com até 3 itens;
(0) e. Sempre precisa ser vestido(a) por outras pessoas.
Alimentar-se (Q) Você consegue se alimentar?
(4) a. Consegue apanhar a comida do prato, cortar e colocar na boca;
(3) b. Necessita de outros para pré-cortar sua carne;

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REFERÊNCIAS

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