INTRODUÇÃO

Uma paciente branca, de 46 anos de idade, observou incapacidade de fletir a extremidade distal do hálux esquerdo associado a desconforto local, dois dias após trauma direto no hálux. Ao exame, a paciente apresentava incapacidade de flexão ativa do hálux esquerdo, mas preservava a mobilidade passivamente. Demonstrava ainda desconforto à palpação do trajeto do tendão flexor longo do hálux na região plantar do dedo. A hipótese diagnóstica de ruptura traumática do tendão do FLH foi aventada. As radiografias do hálux em ântero-posterior (AP) e perfil foram normais. Estudo da ressonância nuclear magnética da região foi sugestivo de tenossinovite estenosante do FLH na região dos sesamóides do hálux, mas não descartava completamente a hipótese de ruptura tendínea.

A paciente foi então tratada, de início conservadoramente, com imobilização da região e sete dias de medicação antiinflamatória não esteróide. Devido ao insucesso do tratamento conservador, a opção cirúrgica foi apresentada e aceita pela paciente. Realizou-se, então, a exploração da região plantar do hálux. O tendão do FLH apresentava-se com rupturas longitudinais e espessamento importante distal aos sesamóides, determinando quadro típico de tenossinovite estenosante nesta região. O ligamento intersesamóideo foi aberto na face plantar; a parte lesada do tendão foi removida e as bordas do tendão remanescente foram suturadas com fio absorvível, resultando em um tendão significativamente mais estreito. A paciente foi mantida em tala gessada sem apoio por 10 dias e, então, apoio parcial e progressivo em calçado pós-operatório foi permitido com a orientação de não promover hiperextensão da articulação metatarsofalangiana do hálux nas seis semanas seguintes à correção cirúrgica. Vinte meses após a cirurgia, a paciente apresentava-se assintomática, com mobilidade passiva completa e 80% da mobilidade ativa em nível de articulação interfalângica do hálux quando comparada com a mobilidade do lado oposto.

DISCUSSÃO

A tenossinovite do FLH é afecção bastante conhecida e que acomete freqüentemente as dançarinas(1-8). O aprisionamento desse tendão ocorre habitualmente na região posterior do tornozelo, no túnel próprio para a sua passagem entre os tubérculos lateral e medial do tálus(9-11). O aprisionamento do tendão do FLH na região plantar do hálux entre os sesamóides está raramente descrita na literatura, sendo

a maior série apresentada por Gould(12). Nesta série, nove casos foram relatados e o traumatismo foi também o fator desencadeador na maioria dos pacientes. O autor alertou para a ocorrência desta afecção, que até então passava despercebida, e para a importância do reconhecimento e tratamento precoces(12).

A tenossinovite deve ser levada em consideração no diagnóstico diferencial da ruptura do FLH. Nos casos em que o tratamento conservador não proporcionar a melhora dos sintomas, deve-se considerar a intervenção cirúrgica com o objetivo de restabelecer a mobilidade total do hálux e proporcionar a melhora da função articular e alívio dos sintomas.

REFERÊNCIA

1. Cowell H.R., Elener V.: Bilateral tendinitis of the flexor hallucis longus in a ballet dancer. J Pediatr Orthop 2: 582-586, 1982.

2. Fond D.: Flexor hallucis longus tendinitis - A case of mistaken identity and posterior impingement syndrome in dancers: evaluation and management. J Orthop Sports Phys Ther 5: 204-206, 1984.

3. Garth W.P.: Flexor hallucis tendinitis in a ballet dancer: a case report. J Bone Joint Surg [Am] 59: 673-676, 1977.

4. Hamilton W.G.: Stenosing tenosynovitis of the flexor hallucis longus tendon and posterior impingement upon the os trigonum in ballet dancers. Foot Ankle 3: 74-80, 1982.

5. Hamilton W.G.: Tendinitis about the ankle joint in classical ballet dancers. Am J Sports Med 5: 84-88, 1977.

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8. Tudisco C., Puddu G.: Stenosing tenosynovitis of the flexor hallucis longus tendon in a classic ballet dancer. Am J Sports Med 12: 403-404, 1984.

9. McCaroll J.R., Ritter M.A., Becker T.E.: Triggering of the great toe. A case report. Clin Orthop 175: 184-185, 1983.

10. Newman N.M., Fowles J.V.: A case of "trigger toe". Can J Surg 27: 378379, 1984.

11. Sarrafian S.K.: Anatomy of the foot and ankle. Philadelphia, J.B. Lippincott, p.p. 255-256, 1983.

12. Gould N.: Stenosing tenosynovitis of the flexor hallucis tendon at the great toe. Foot Ankle 2: 46-48, 1981.