JMP, sexo masculino, branco, de 72 anos de idade, portador de coxartrose primária, foi submetido a artroplastia total cimentada do quadril esquerdo em junho de 1995, no Serviço de Ortopedia do Hospital Universitário Pedro Ernesto. Foi utilizada prótese modular com haste de aço e cabeça de 22mm de diâmetro, de fabricação nacional (Bau-mer ®).
Em dezembro de 1998, o paciente sofreu fratura do componente femoral, sem história de trauma (fig. 1).
No momento da revisão observou-se a presença de tecido intra-articular impregnado por metal. O exame histopatológico desse tecido demonstrou presença de processo inflamatório inespecífico com fibrose extensa, neoformação vascular e reação tipo corpo estranho envolvendo espículas ósseas degeneradas e material particulado enegrecido, não refringente, possivelmente de origem metálica. A cultura e bacterioscopia foram negativas.

A haste removida e uma haste do mesmo modelo, sem uso, para servir de espelho, foram encaminhadas para análise no Instituto Nacional de Tecnologia.
A análise microscópica identificou trincas de propagação por fadiga e separação dos grãos nas superfícies fraturárias, compatíveis com ataque corrosivo intergranular.
A análise metalográfica demonstrou valores heterogêneos de tamanhos de grão, variando de ASTM 4 a ASTM 7, em desacordo com as especificações exigidas, ou sejam, ASTM 5 ou superior (fig. 2).


O aço empregado na fabricação de ambos os implantes encontrava-se com teor de molibdênio abaixo do exigido na norma ISO 5832-1-87. O mesmo se deu com a relação entre os teores de cromo e molibdênio, que deveria ser maior ou igual a 26 e foi de 24,30 na haste removida e de 24,75 na haste nova. Os teores exigidos pelas normas ASTM F 138-92 e ISO 5832-1-87, bem como os resultados observados na haste removida e na haste controle, encontram-se na tabela 1.

DISCUSSÃO
Os implantes metálicos, quando em contato com o meio orgânico, são expostos a reações químicas idênticas às observadas no ambiente marinho, resultando em diversas formas de corrosão. No nosso estudo constatamos a presença de corrosão intergranular. Esta ocorre quando defeitos da composição do metal ou falhas no processo de metalurgia tornam a substância do implante suscetível ao ataque do meio orgânico(1,3).
Verificamos que o teor de molibdênio assim como a relação entre os teores de cromo e molibdênio nos implantes estudados encontrava-se abaixo do exigido na composição química segundo as normas especificadas no catálogo do fabricante, favorecendo o ataque corrosivo intergranular. Outra deficiência estrutural verificada, relacionada à baixa resistência à corrosão, foi heterogeneidade dos tamanhos de grãos, em desacordo com as especificações exigidas.
A análise laboratorial permitiu a identificação de irregularidades na composição química e estrutural dos implantes metálicos estudados, sendo um elemento útil na avaliação da qualidade do material utilizado na nossa prática diária.
Woolson S.T., Milbauer J.P., Bobyn J.D., et al: Fatigue fracture of a forged cobalt-chromium-molybdenium femoral component inserted with cement. A report of ten cases. J Bone Joint Surg [Am] 79: 1842-1848, 1997.
Callagham J.J., Pellici P.M., Salvati E.A., et al: Fractures of the femoral component: analysis of failure and long-term follow-up of revision. Orthop Clin North Am 19: 637-647, 1988.
Gilbert J.L., Buckley C.A., Jacobs J.J., et al.: Intergranular corrosion-fatigue failure of cobalt-alloy femoral stems. A failure analysis of two implants. J Bone Joint Surg [Am] 76: 110-115, 1994.