Trabalho realizado no Hospital Universitário São José (HUSJ), de Belo Horizonte, MG.
1. Médico Residente de Ortopedia no HUSJ - Belo Horizonte/MG.
2. Médico Residente de Ortopedia no Hospital Socor - Belo Horizonte, MG.
3. Professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais; Médico Ortopedista do HUSJ - Belo Horizonte, MG.
Endereço para correspondência (Correspondence to): Av. Flávio dos Santos, 280/303 - 31015-150 - Belo Horizonte, MG. E-mail: marcelo.mota@bol. com.br
 

INTRODUÇÃO

O desenvolvimento de osteomielite após fraturas fechadas é muito raro. Não identificamos nenhum caso previamente relatado na literatura médica em língua portuguesa. Apenas 15 casos, seis dos quais em crianças, foram relatados na literatura inglesa(1).

Nesses casos houve sempre atraso no diagnóstico e história de infecção múltipla no trato respiratório superior(1). No trabalho publicado por Hardy e Nicol, a extremidade distal do rádio estava envolvida em 1/3 dos casos(2).

As fraturas do antebraço são muito comuns em crianças; correspondem a 45% de todas as fraturas e a 62% das do membro superior(3). Cerca de 80% das fraturas do antebraço acometem o terço distal.

RELATO DO CASO

Paciente de 14 anos de idade, sexo masculino, branco, quei-xava-se de dor moderada, intermitente, na região dorsorradial do punho direito havia dois anos, com piora nos últimos seis meses. Relatava diminuição da força na mão, seguida de aparecimento de lesão tumoral, com aumento progressivo.

O paciente havia realizado inúmeros tratamentos clínicos com uso de antiinflamatórios e analgésicos, associados com fisioterapia, sem resultado.

Em sua história pregressa é relevante a ocorrência de duas fraturas do terço distal do rádio direito, tratadas com redução fechada e imobilização, aos oito e 12 anos de idade. Não há qualquer descrição ou relato de exposições ósseas ou lesões de pele. Há relato de infecção múltipla do trato respiratório superior, tratada com antibióticos, desde tenra idade.

No exame físico inicial, o paciente apresentava-se afebril, com bom estado geral, tumoração na região dorsal do terço distal do rádio direito de consistência óssea, com dor moderada à palpação, sem rubor, calor, e ausência de lesões ou cicatrizes na pele. A amplitude de movimento do punho direito estava dentro da normalidade.

A radiografia apresentava lesão lítica metafisária com esclerose reacional em terço distal do rádio (fig. 1).

Devido à hipótese de diagnóstico de condroblastoma epifisário, cisto ósseo aneurismático ou infecção, foi solicitada uma tomografia computadorizada (figs. 2 e 3), que apresentou os seguintes resultados: aspectos tomográficos sugestivos de abscesso de Brodie em terço distal do rádio direito, com sinais de ruptura da cortical e importante comprometimento de tecidos moles adjacentes. Relatava piora da dor, com aparecimento de hiperemia e aumento progressivo da lesão. Manti-nha-se afebril e com hemograma normal.

Foi submetido a tratamento cirúrgico com curetagem da lesão e envio do material para exame anatomopatológico, que apresentou ausência de células neoplásicas, presença de infiltrado linfo-histiocítico, de tecido de granulação e de fragmento ósseo com fibrose; e para cultura, que evidenciou crescimento de Staphylococcus aureus coagulase positiva, confirmando o diagnóstico de osteomielite aguda.

O paciente foi submetido a antibioticoterapia endovenosa, com cefalosporina de segunda geração, por um período de duas semanas, e, então, devido à boa resposta do organismo, foi substituída por antibioticoterapia oral por um período adicional de seis semanas.

Após dois anos de evolução, o paciente está sem dor e com movimentos normais do pulso, pratica musculação regular-mente e as radiografias não apresentam alterações estruturais (fig. 4).

DISCUSSÃO

O trabalho pretende salientar a importância da osteomielite no diagnóstico diferencial de lesões líticas, tendo em vista seus diferentes aspectos evolutivos. Em particular, na extremidade distal do rádio, que constitui uma de suas principais localizações após fraturas fechadas(3).

Observamos, nos casos relatados na literatura, um período evolutivo relativamente longo, até 10 semanas, sem que o diagnóstico de osteomielite fosse citado(1,2).

A demora do diagnóstico deve-se ao fato de a osteomielite após fratura fechada da extremidade distal do rádio ser entidade incomum(3) e pouco lembrada no diagnóstico diferencial de lesões líticas da extremidade distal do rádio. A dor é moderada, possivelmente devido à fratura da cortical óssea(1).

A osteomielite deve ser considerada em pacientes com fraturas fechadas que evoluem com febre ou dor, após a fratura ter sido tratada(3).

CONCLUSÃO

A osteomielite após fratura fechada da extremidade distal do rádio é afecção rara, sendo necessário ser considerada no diagnóstico diferencial nas lesões líticas da extremidade distal do rádio.


REFERÊNCIAS

Veranis N., Laliotis N., Vlachos E.: Acute osteomyelitis complicating a closed radial fractures in a child. A case report. Acta Orthop Scand 63: 341-342, 1992.

Hardy A.E., Nicol R.O.: Closed fractures complicated by acute osteomyelitis. Clin Orthop 201: 190-195, 1985.

Hebert S.: "Fraturas do antebraço na criança". In: Hebert S., Xavier R., Pardini Jr. A.G., Barros Fo T.E.P.: Ortopedia e traumatologia. Princípios e prática. 3a ed., Porto Alegre, Artmed, p. 1077-1099, 2003.