a Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, Serviço de Ortopedia e Traumatologia, São Paulo, SP, Brasil
b Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, Grupo de Oncologia Ortopédica, São Paulo, SP, Brasil

 


 

Introdução

O tumor de células gigantes (TCG) é um tumor ósseo benigno de características agressivas. Representa 5% dos tumores ósseos primários e a 15% dos tumores benignos.1

É composto por células gigantes tipo osteoclastos entremeadas por um estroma hipercelular e vascularizado, o que o diferencia de outras lesões tumorais ou pseudotumorais, como condroblastoma, tumor marrom do hiperparatireoidismo e cisto ósseo aneurismático.2

São mais prevalentes na terceira e quarta décadas de vida e localizam-se preferencialmente na região epifisária dos ossos longos. Fêmur distal, tíbia proximal e rádio distal são as localizações mais frequentes.

Campanacci et al.3 classificam os tumores de células gigantes em três tipos de acordo com seu comportamento biológico, aspecto radiográfico e quanto ao grau de destruição óssea (fig. 1). Tipo I: são considerados latentes e representados por lesões pequenas e intraósseas. Tipo II são ativos e radiograficamente maiores, porém preservam o periósteo. Os tipo III são agressivos, estendem-se através do periósteo e dos tecidos adjacentes.3–5

O tratamento geralmente é cirúrgico. O objetivo da cirurgia é a completa ressecção tumoral, com preservação da arquitetura óssea e da função articular, com a correção do defeito criado com técnicas como autoenxertia, homoenxertia, artrodese, endopróteses não convencionais e preenchimento com cimento ósseo.6 A ressecção intralesional geralmente é o tratamento de escolha para os Campanacci I e II.1 Essa deve seracompanhada de um ou mais métodos adjuvantes locais (eletrocauterização, fenol, nitrogênio liquido, cauterização com Bisturi de Argônio, entre outros) na tentativa de diminuir a chance de recidiva.2 Os tumores Campanacci III, em virtude de sua extensão e agressividade local, em geral são melhor abordados através de ressecção ampla com correção do defeito.1,6

Apresentam altas taxas de recorrência local, a qual depende do tipo de tratamento e da apresentação inicial do tumor. O risco de disseminação sistêmica (metástases pulmonares) gira em torno de 3%.1 Neste estudo avaliamos nove pacientes com diagnóstico de tumor de células gigantes localmente avançado no nível do joelho e seu desfecho após um ano de pós-operatório. Foram incluídos nesse estudo os tumores classificados como Campanacci III e os casos com fratura patológica.

O objetivo deste estudo foi avaliar os resultados decorrentes do tratamento desses pacientes, especialmente com relação à recidiva, e fazer uma revisão da literatura acerca do tratamento do tumorde células gigantes localmente avançado no nível do joelho. Método

Entre outubro de 2010 e agosto de 2014, nove pacientes com diagnóstico de tumor de células gigantes localmente avançados no nível do joelho (fêmur distal e tíbia proximal) foram submetidos a tratamento cirúrgico. O diagnóstico das lesões sem fratura foi confirmado através de biópsia percutânea, com agulha de Jamshidi. Nos casos com fratura

patológ ica, após estadiamento local e cirurgia, o exame anatomopatológico confirmou o diagnóstico. Os critérios de inclusão foram pacientes com diagnóstico de TCG no nível do joelho Campanacci III ou que se apresentassem com fratura patológica no momento do diagnóstico. A localização predominante foi o fêmur distal, com 87,5% (sete pacientes) e 13,5% na tíbia proximal (dois).

Os pacientes foram divididos de acordo com sexo, idade, localização do tumor, presença de fratura patológica e tipo de tratamento (tabela 1).

O método de tratamento mais usado foi a curetagem da lesão, seguida de método adjuvante com eletrocauterização e cimento ósseo, em sete pacientes. Dois pacientes foram submetidos a ressecção em bloco da lesão e substituição por endoprótese não convencional. Nesses pacientes havia destruição óssea importante com extensão do tumor para as partes moles vizinhas, o que inviabilizou qualquer outro método mais conservador. Nos casos de fratura patológica do fêmur distal, optamos por abordagem do tumor, curetagem da lesão com eletrocauterização do leito tumoral, redução dos fragmentos desviados com redução anatômica da superfície articular e fixação com placa especial com parafusos de bloqueio e a cimentação da lesão. No paciente com fratura patológica da tíbia proximal, foi feita ressecção ampla com substituição por endoprótese.

A avaliação da destruição óssea feita com a radiografia e ressonância magnética ou tomografia computadorizada foi determinante para definir a estratégia cirúrgica. Nos pacientes cuja lesão não permitia a reconstrução anatômica do osso, optou-se por ressecção e substituição por endoprótese, independentemente da presença de fratura patológica. Os pacientes foram avaliados a cada 15 dias no primeiro mês, retorno mensal até o terceiro mês e retornos a cada três meses, até completar um ano de cirurgia. Consideramos curados os pacientes que não apresentam recidiva nos 2 primeiros anos de pós-operatório. No entanto, o acompanhamento é anual por tempo indeterminado.

Resultados

Encontramos predominância do gênero masculino. Dos nove pacientes avaliados, sete são do gênero masculino (77,7%) e dois do feminino (22,2%) (fig. 2). A faixa etária variou dos 26 aos 41 anos.

Quatro pacientes (44%) evoluíram com recidiva local (fig. 3), no primeiro ano de pós-operatório, três do fêmur distal e um da tíbia proximal (fig. 4). Dos dois pacientes que apresentaram fratura patológica do fêmur distal no momento do diagnóstico, um deles apresentou recidiva cinco meses após a cirurgia. A figura 5 mostra o caso do paciente 1, submetido a tratamento com curetagem da lesão associado a cimento ósseo no fêmur distal mais fixação com placa. Após 11 meses, apresentou uma

falha óssea na cortical posterior devido ao crescimento do tumor.

Na presença de recidiva, a principal queixa dos pacientes foi o reaparecimento da dor. Fizemos um novo estadiamento com exames de imagem para confirmação da recidiva. Em um dos pacientes (paciente 3) foi feita nova curetagem e cimentação com boa evolução. Nos outros três pacientes optou-se pela ressecção em bloco e substituição por endopró- tese (tabela 2). Discussão

O tumor de células gigantes é considerado uma lesão benigna, apesar do seu potencial de agressividade local, potencial de recorrência e ocasionalmente provocar metástases pulmonares.7 A frequência dessas é de aproximadamente 1 a

3%, e pode ser maior nos casos que apresentam recidiva local, principalmente quando elas estão nas partes moles.8

É um tumor que não permanece latente. Uma lesão pequena tende a evoluir e levar à progressiva destruição do osso afetado.9 Portanto, o tratamento cirúrgico deve ser indicado e realizado o mais precocemente possível.

A curetagem associada a método adjuvante tem sido definida como tratamento preferencial para a maioria dos tumores de células gigantes.1,10,11 Essa apresenta um resultado funcional melhor, porém está associada a uma maior chance de recidiva, como evidenciado em alguns estudos.6,7,12 A ressecção ampla oferece a vantagem de menor chance de recidiva, uma vez que remove o tumor por inteiro. Geralmente é reservada para casos de grande destruição óssea, na qual a reconstrução da articulação é inviável.1,13 Vários estudos preconizam o uso dessa técnica nos tumores Campanacci III, com a intenção de reduzir o risco de recorrência e falha biomecânica.5,6 A ressecção completa de um osso também pode ser feita em alguns casos sem prejuízo funcional

acentuado ao paciente, tais como ulna, fíbula e pequenos ossos da mão e do pé.1,2,9 No entanto, os pacientes acometidos por esse tipo de tumor são jovens e há uma preocupação de preservar a superfí- cie articular e evitar uma possível artroplastia precoce. A substituição da articulação por endoprótese não convencional traz algumas desvantagens, como a necessidade de revisão e o risco de sucessivas trocas. Assim, alguns estudos mostram a preferência de usar métodos de reconstrução mais conservadores no tratamento dessas lesões, na esperança de que essa reconstrução seja definitiva. O uso do cimento ósseo é um método consagrado, mostra bons resultados tanto oncológicos quanto funcionais a longo prazo. Com relação à possibilidade de artrose secundária ao uso do cimento ósseo, Baptista et al.4 publicaram um estudo retrospectivo com 46 casos de TCG submetidos a curetagem e cimentação e concluíram que a distância do cimento até o osso subcondral tem relação prognóstica com o desenvolvimento da osteoartrose, porém isso não implica o resultado funcional final do paciente.

A incidência de recidiva do tumor de células gigantes varia na literatura. Dalian et al.14 publicaram um estudo com 60% de recidiva local de TCGs submetidos a curetagem e enxertia, e recomendaram uma ressecção mais agressiva para seu controle local. O uso do metilmetacrilato associado à cauterização da cavidade como adjuvantes locais no tratamento do TCG diminuiu consideravelmente a percentagem de recidiva.5 Zehn et al.,15 numa revisão de estudos, mostraram diferentes taxas de recidiva, de 12 a 54% em até sete anos de acompanhamento (tabela 3). Klenke et al.13 citam em seu estudo recividas de 0 a 65% a depender do método cirúrgico. No presente estudo encontramos 44% de recidivas no primeiro ano de pós-operatório, período em que a frequência de recidiva é maior. No entanto, diferentemente desses estudos, aqui analisamos apenas os tumores localmente agressivos, Campanacci III.

Baptista11 cita que na presença de fratura com desvio importante, deformidade acentuada ou acometimento importante de três faces da cortical o procedimento mais seguro é a ressecção do segmento, tanto do ponto de vista oncológico como de diminuição da morbidade. O mesmo autor conclui que o volume aproximado do tumor, a presença de acometimento da cortical, a percentagem da largura afetada da epífise e a distância entre o limite da lesão e a superfície articular constituíram parâmetros radiográficos estatisticamente significantes para a indicação e/ou prognóstico do tratamento com curetagem associada a eletrocauterização da parede da lesão e preenchimento com enxerto ósseo, técnica avaliada por ele nesse estudo. O prognóstico do tumor está diretamente ligado à qualidade da técnica de curetagem e/ou ressecção usada, e não só ao método de reconstrução ou preenchimento.5,6,9 A presença de fratura patológica e extensão do tumor para partes moles é um tema controverso na literatura.1,6 MacDonald et al.16 concluíram que a fratura patológica não aumenta a probabilidade de recorrência do tumor, porém os autores não encontraram significância estatística nessa relação. O’Donnell et al.12 relataram que três (50%) entre seis pacientes que apresentaram fraturas patológicas evoluíram com recidiva da lesão tumoral. Concluíram haver correlação entre a ocorrência de fraturas patológicas e a recidiva tumoral. Jesus-Garcia et al.6 comentaram que a fratura patológica pode ser um fator de importância na relação com as recidivas, uma vez que na presença dela a dificuldade de fazer a curetagem efetiva é maior. Dos oito pacientes que apresentaram recidiva no seu trabalho, 50% apresentavam fratura patológica.

No presente estudo, não pudemos concluir que a chance de recidiva tumoral está diretamente relacionada com a presença de fratura patológica. No entanto, acreditamos que a contaminação das partes moles pelo tumor, como nos casos Campanacci III e fratura patológica, constitui fator de risco para a recidiva tumoral.6

O uso de denosumab tem mostrado bons resultados para o tratamento de tumores de células gigantes. Esse medicamento inibe a atuação do ligante RANK, diminui assim a atividade osteoclástica do tumor.17 Estudos mostram melhoria clínica e radiológica do tumor após o tratamento com denosumab subcutâneo, na dose de 120 mg mensais, com doses adicionais do 8 ? e 15 ? dia de tratamento.17,18 Com isso, abre-se um novo horizonte no tratamento desse tumor. A possibilidade do controle da doença após o uso da medicação nos possibilitaria fazer cirurgias mais conservadoras e com menores chances de recidiva.

Como limitações neste estudo citamos o pequeno número de pacientes. O tumor de células gigantes é raro, totaliza em média 5% de todos os tumores benignos primários do osso.15 Incluímos aqui apenas os pacientes com TCG Campanacci III e aqueles que apresentavam fratura patológica ao diagnóstico, o que limitou ainda mais a seleção dos casos. No entanto, encontramos na literatura poucos estudos multicêntricos, com grande número de pacientes. Os métodos de tratamento e as análises estatísticas são diferentes e há uma falta de estudos prospectivos randomizados.

Considerações finais

O tratamento do TCG (especialmente os grau III de Campanacci) ainda é um grande desafio. Acreditamos que o melhor método de tratamento para os TCG localmente avançados ao nível do joelho, sob o ponto de vista oncológico, é a ressecção ampla com reconstrução da falha óssea com endoprótese não convencional. Apesar da melhoria das técnicas de ressecção intralesional associada aos métodos adjuvantes intraoperatórios, o risco de recidiva permanece alto. Devido à complexidade do tratamento e a suas consequências, o paciente deve estar ciente e bem orientado quanto às possíveis complicações e prejuízos funcionais que podem ocorrer em decorrência do tratamento escolhido e a necessidade de novas intervenções cirúrgicas em médio e longo prazo.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

 

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