Casa de Saúde Nossa Senhora do Carmo, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Introdução
A sutura elástica de feridas permite fechamento progressivo da lesão, abrange todas as suas camadas, restaura a anatomia normal e restitui todas as func¸ões de contenc¸ão e resistência dos planos cutâneos, sem gerar novos fatores de morbidade para o paciente. Foi usada pela primeira vez para aproximar os bordos de uma fasciotomia pós-síndrome compartimental em membro superior.1
O objetivo deste trabalho foi relatar o uso da sutura elástica no fechamento de ferida cirúrgica de fasciotomia pós-síndrome do compartimento em perna com fratura traumática em terc¸o proximal da tíbia e fíbula associadas a lesão vascular. Relato do caso Paciente masculino, 30 anos, vítima de atropelamento por veí- culo de passeio, sofreu fratura exposta em tíbia e fíbula, foram feitas a lavagem mecanocirúrgica e a fixac¸ão externa transarticular entre o fêmur e a tíbia em um hospital público do Estado do Rio de Janeiro e foi transferido em seguida para nosso servic¸o. Ao exame clínico-ortopédico, o paciente apresentava dor branda, edema ++ + +/4+, sutura na face anterior da perna, com perfusão capilar normal e pulso de difícil palpac¸ão no membro acometido. Foram feitas radiografias para rotina de trauma e do membro inferior, bem como tomografia do membro lesionado. Os exames de imagem evidenciaram lesões apenas na perna, com fratura multifragmentar do terc¸o proximal da tíbia e fíbula alinhadas, estabilizadas e mantidas por fixador externo transarticular (fig. 1). Os exames laboratoriais demonstraram alterac¸ões em relac¸ão aos parâmetros de normalidade para os seguintes itens: neutrófilos, 9128; PCR 34,4 e CK 3940.
O paciente evoluiu em algumas horas com dor progressiva e intensa, que não melhorou com uso de analgésico, parestesia em hálux ipsilateral, edema e pele tensa e brilhante, foi feita a fasciotomia descompressiva. Durante o ato cirúrgico verificou- -se rompimento do tronco tibiofibular e foi feita sua ligadura. Não houve sutura direta da fasciotomia, o local da incisão foi protegido por curativos oclusivos (fig. 2). O paciente foi levado para a unidade de tratamento intensivo para tratamento de rabdomiólise.
Solicitado parecer do servic¸o de cirurgia vascular, foi feita arteriografia do membro, que evidenciou interrupc¸ão do tronco tibiofibular compatível com história de trauma (fig. 3), com enchimento das artérias tibial posterior e fibular por fluxo retrógrado.
Sete dias após a fasciotomia, o paciente apresentava a ferida limpa, sem sinais de infecc¸ão. Nessa oportunidade instalou-se o sistema de sutura elástica, com fio elástico para cirurgia vascular fixado à pele com grampos metálicos, aplicados com grampeador cirúrgico, distante 0,5 cm das bordas da incisão, iniciou-se pelo vértice proximal e continuou em direc¸ão ao vértice distal. O fio foi fixado a um dos lados e atravessou a incisão para ser preso ao lado oposto, em uma sequência que lembra um ziguezague da região proximal até

distal, como shoelace technique. Após sete dias observou-se a aproximac¸ão total das bordas da ferida, quando se retiraram o fio elástico e os grampos metálicos e fez-se a sutura definitiva com fio de nylon 2-0 (fig. 4A-D). O tratamento definitivo da fratura foi feito com fixac¸ão externa hibrida (fig. 5).
Discussão
O reconhecimento da síndrome do compartimento nem sempre é fácil, pois a perfusão periférica e os pulsos arteriais geralmente estão mantidos, não são bons parâmetros para suspeic¸ão clínica. Laboratorialmente ocorre aumento da creatina-quinase (CK), que indica mioglobinúria e sugere o diagnóstico.2 A fratura da diáfise da tíbia é uma das causas mais frequentes de síndrome do compartimento.3 A reparac¸ão dessas feridas cirúrgicas é feita com enxertos ou


grandes retalhos de pele, o que determina novas feridas, que, por sua vez, também precisam ser tratadas. Essas condutas acompanham-se de dor, elevada incidência de infecc¸ões, retrac¸ão cicatricial, rejeic¸ão e insucessos.4 As fraturas pro ximais de tíbia apresentam maior risco para síndrome compartimental,5 essa condic¸ão é favorecida quando há lesão vascular, é caracterizada por aumento dos níveis pressóricos em regiões envolvidas por fáscias musculares inelásticas,

altera a microcirculac¸ão local e compromete a viabilidade dos tecidos. A síndrome compartimental é uma emergência ortopédica que tem na fasciotomia descompressiva o recurso terapêutico para contenc¸ão de danos e reduc¸ão de graves sequelas.6
A dor intensa é o mais precoce achado clínico objetivo7 e nota-se palpac¸ão de aumento da pressão e firmeza no compartimento. A gravidade associa-se à rapidez com que o aumento de pressão se estabelece, ao tempo que perdura e ao grau de comprometimento da microcirculac¸ão de tecidos.8 A incisão da fasciotomia por si só já representa um dano ao paciente, além de potencializar infecc¸ões e aumentar o tempo de internac¸ão. Diversos procedimentos foram descritos para o fechamento desse tipo de incisão, com o uso de diversos tipos de materiais, referiu-se até mesmo elásticos comuns, devidamente esterilizados para a aproximac¸ão das

bordas da ferida cirúrgica, fixados à pele adjacente à incisão por pontos cirúrgicos com fio de sutura, determina boa aproximac¸ão das bordas da ferida em apenas cinco dias após o procedimento, com fechamento total da pele após 20 dias do pós-operatório, sem necessidade de sutura secundária da pele.9 No caso em questão a sutura elástica foi eficaz para auxiliar o fechamento definitivo da incisão para fasciotomia, permitiu a sutura secundária e dispensou o uso de autoenxertia cutânea, técnica exequível, de fácil manejo e baixo custo. Existe associac¸ão entre fraturas de tíbia e o desenvolvimento da síndrome compartimental, é necessário o diagnóstico diferencial a partir do reconhecimento precoce dos sinais e dos sintomas para a instituic¸ão de terapêutica adequada, o que melhora o prognóstico e diminui o índice de morbidade.10 O fechamento de fasciotomia na perna com uso de material elástico na sutura é mais barato e contribui para o menor tempo de hospitalizac¸ão, quando comparada com a técnica a vácuo.11
Conflitos de interesse Os autores declaram não haver conflitos de interesse
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