Citação: Bonadiman JA. Carta ao editor sobre o artigo: O tamanho da glenosfera não importa na artroplastia total reversa de ombro. Rev Bras Ortop. 2024;59(2):254-259. 60(01):. doi:10.1055/s-0044-1800943

Conflito de Interesses

O autor não tem conflitos de interesse a declarar.

Recebido: Julho 09 2024; Aceito: Outubro 02 2024

Com grande interesse, li o artigo “O tamanho da glenosfera não importa na artroplastia total reversa de ombro” publicado por Patel et al.1 Estudos com foco nos resultados clínicos da artroplastia total reversa do ombro (ATR) são sempre importantes devido ao crescimento linear e a “popularização” deste procedimento. Dada a conclusão do estudo publicado (que foi a base para seu título),é necessário escrutinar os detalhes da metodologia aplicada devido ao impacto e à importância de suas repercussões. Alguns detalhes podem nos ajudar a entender os resultados obtidos em tal pesquisa, em especial aqueles referentes à técnica cirúrgica, reabilitação e cronologia da metodologia aplicada.

 

TÉCNICA CIRÚRGICA E REABILITAÇÃO

Considerando a ampla gama de configurações disponíveis para a ATR (como inlay versus onlay, lateralização da glenosfera, ângulo colo-diáfise, inclinação, entre outras) e suas respectivas influências nos resultados funcionais,2,3 torna-se crucial compreender de maneira detalhada o tipo específico de implante utilizado no estudo em análise. A identificação precisa da prótese utilizada é fundamental para replicar os resultados, permitindo uma avaliação mais precisa da eficácia da técnica aplicada.

A reinserção ou não do tendãosubescapularnaATR é um fator amplamente discutido e que tem impactos significativos, principalmente no que se refere à amplitude de movimento. A elucidação desses dados no artigo fornecerá aos leitores uma base sólida para avaliar as metodologias e os resultados do estudo.4

Quanto ao processo de reabilitação, faltam informações precisas sobre qual protocolo foi adotado no pós-operatório, bem como o período de imobilização com tipoia, qual tipo de tipoia foi utilizado e o momento de início da reabilitação fisioterapêutica. Os protocolos de reabilitação após a ATR são frequentemente discutidos e têm um impacto significativo no grau de mobilidade final.5

 

CRONOLOGIA

O estudo, desenvolvido no Departamento de Cirurgia Ortopédica, Icahn School of Medicine at Mount Sinai, em Nova York, Estados Unidos, menciona que foram incluídos pacientes submetidos à ATR desde 1987. No entanto, tal procedimento foi aprovado pela Food and Drug Administration 16 anos depois, em novembro de 2003 (Delta Shoulder K021478; DePuy Inc., Raynham, MA, EUA).6 Acredito que esclarecer essa discrepância cronológica é essencial para uma compreensão adequada da metodologia do estudo.

A amplitude de movimento - o aspecto mais importante do estudo em questão - foi medida e dividida entre prée pós-operatória. No entanto, o estudo não deixa claro em que ponto a medição pós-operatória foi feita. A determinação precisa desse intervalo é crucial, pois influencia diretamente a interpretação dos resultados e a validade do estudo.

O escore do Simple Shoulder Test (SST) foi aplicado para avaliação prée pós-operatória dos pacientes. Entretanto, há uma lacuna metodológica quanto à coleta de dados de pacientes submetidos à cirurgia antes de 1993, ano em que o SST foi formalmente descrito.7

Em suma, é imprescindível ressaltar que o aprofundamento detalhado das informações apresentadas é fundamental, tendo em vista a relevância substancial dos achados relatados neste estudo e o significativo potencial de impacto desta publicação no campo científico.

 

REFERÊNCIAS

Patel AV, White CA, Li T, Parsons BO, Flatow EL, Cagle PJ. Glenosphere Size Does Not Matter in Reverse Total Shoulder Arthroplasty. Rev Bras Ortop 2024;59(02):e254-e259
Larose G, Fisher ND, Gambhir N, et al. Inlay versus onlay humeral design for reverse shoulder arthroplasty: a systematic review and meta-analysis. J Shoulder Elbow Surg 2022;31(11): 2410-2420
Sheth U, Saltzman M. Reverse total shoulder arthroplasty: Implant design considerations. Curr Rev Musculoskelet Med 2019;12(04):554-561
Ameziane Y, Holschen M, Engel NM, Schorn D, Witt KA, Steinbeck J. Does the subscapularis repair affect the clinical outcome after primary reverse shoulder arthroplasty? J Shoulder Elbow Surg 2024;33(09):1909-1917
Howard MC, Trasolini NA, Waterman BR. Optimizing outcomes after reverse total shoulder arthroplasty: Rehabilitation, expected outcomes, and maximizing return to activities. Curr Rev Musculoskelet Med 2023;16(04):145-153
Food and drug administration. Delta shoulder. DePuy 510 (k) K021478, summary 2003. Available from: https://www.accessdata.fda.gov/cdrh_docs/pdf2/k021478.pdf
Lippitt SB, Harryman DT, Matsen FA. A practical tool for evaluating function: The simple shoulder test. In: The Shoulder: A Balance of Mobility and Stability; Matsen, American Academy of Orthopaedic Surgery: Rosemont, IL, USA; 1993:501-518