Trabalho realizado na Disciplina de Anatomia Descritiva e Topográfica do Departamento de Morfologia da Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina - UNIFESP/EPM, São Paulo (SP) - Brasil.
1. Mestre; Pós-graduando da Disciplina de Anatomia Descritiva e Topográfica do Departamento de Morfologia da Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina - UNIFESP - São Paulo (SP) - Brasil.
2. Professor Adjunto da Disciplina de Anatomia Descritiva e Topográfica do Departamento de Morfologia da Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina - UNIFESP - São Paulo (SP) - Brasil.
Endereço para correspondência: Leandro Nobeschi, Travessa Doze de Outubro, 106 (casa) - 09030-650 - Santo André (SP) - Brasil. Tels.: (11) 4427-7627/(11) 8117-7252; fax: (11) 5571-7597. E-mail: nobeschi@yahoo.com.br

INTRODUÇÃO

A identificação das dimensões das faces articulares da articulação do ombro é de grande interesse para a confecção e implantação de próteses. Pela fisiologia articular demonstrase que um dos fatores que garantem a grande mobilidade nessa articulação é a pequena profundidade (rasa) da cavidade glenoidal, que não restringe a movimentação da cabeça do úmero.

Esse fator deve ser levado em consideração, mantendo assim a dinâmica articular. Há concordância entre os auto-res quanto ao fato de o diâmetro longitudinal da cavidade glenoidal ser maior do que o diâmetro transversal(1-4). Testut e Latarjet relataram que o diâmetro longitudinal é igual a 35mm e o transversal, a 25mm(5). McPherson et al descreveram, baseados em estudo radiográfico, a medida do diâmetro longitudinal como sendo de 33,6mm (DP ± 3,9mm) e a do transversal, de 28,6mm (DP ± 3,8mm)(6). Esses autores mediram a profundidade "longitudinal" da cavidade glenoidal, 5mm (DP ± 1,1mm), e a profundidade "transversal", 2,9mm (DP ± 1,0mm).

A cavidade glenoidal também foi descrita como possuindo uma face articular correspondente a uma área de aproximadamente 6cm2(7-8). Soslowsky et al, por meio de estereofotogrametria digitalizada, determinaram essa área como tendo dimensões equivalentes a 5,79cm2 (DP ± 1,69cm2) nos homens e 4,68cm2 (DP ± 0,93cm2) nas mulheres(9).

Alguns trabalhos apresentam detalhes da cavidade glenoidal, como a freqüência da incisura glenoidal, presente em 55% da amostra(10-11).

Portanto, a literatura é escassa em se tratando de medidas dos diâmetros e da profundidade da referida cavidade.

O objetivo deste trabalho puramente anatômico é realizar medidas da cavidade glenoidal da escápula (diâmetros e profundidades), calcular sua área plana aproximada e relacionar essas medidas considerando o lado, assim como observar detalhes anatômicos característicos e descrever sua forma.

MÉTODOS

Foram utilizadas 62 escápulas isoladas de ambos os lados (27 direitas e 35 esquerdas) e seis pares em esqueletos articulados, totalizando 74 escápulas humanas adultas, sendo a maioria sem identificação quanto ao sexo e grupo étnico, com exceção de alguns esqueletos. Portanto, essas variáveis não serão consideradas. O material pertence ao Laboratório de Anatomia da Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina. As medidas foram obtidas com um paquímetro digital (Mitutoyo-Digimatic®) para os diâmetros e profundidade e em computador para a área.

Para a realização do cálculo proposto para a área plana da cavidade glenoidal foi necessária a realização de medidas de dois diâmetros transversais (maior e menor) e um diâmetro longitudinal. O diâmetro transversal "maior" foi medido da margem anterior até a margem posterior, passando essa reta sobre o tubérculo glenoidal, quando presente, ou na região correspondente, quando ausente; o diâmetro transversal "menor" foi medido da margem anterior, na extremidade superior da incisura glenoidal, até a margem posterior, paralelamente ao "maior" e perpendicular ao longitudinal; o diâmetro longitudinal foi medido do tubérculo supraglenoidal ao tubérculo infraglenoidal (figura 1).

A medida de cada diâmetro foi realizada pelo mesmo pesquisador e repetida três vezes, sendo obtida a média das mesmas. Com o resultado dessas medidas conseguiu-se estabelecer uma fórmula para o cálculo da área plana da cavidade glenoidal, em mm2, sendo esta: (? x d2/8) + (? x D2/8) + (D + d/2) x (L - d/2 - D/2) = área plana total (legenda: ? - pi; D - diâmetro transversal "maior"; d - diâmetro transversal "menor"; L - diâmetro longitudinal).

A profundidade foi mensurada utilizando-se uma pequena haste rígida de ferro, que foi apoiada nas margens da cavidade glenoidal da seguinte forma: para a profundidade padronizada como "longitudinal", a haste foi posicionada sobre os tubérculos supra e infraglenoidais, e a barra de profundidade do paquímetro foi estendida até atingir o centro da cavidade glenoidal; para a profundidade padronizada como "transversal", a haste foi posicionada nas margens anterior e posterior da cavidade glenoidal no mesmo ponto onde foi medido o diâmetro transversal "maior", e a barra de profundidade do paquímetro foi estendida até atingir o centro da referida cavidade. A haste de ferro utilizada possuía uma medida de espessura que foi diminuída da medida total obtida. Foi utilizado o teste de Mann-Whitney (p < 0,005) para o tratamento estatístico referente à área plana da cavidade glenoidal das escápulas.

Verificou-se nas escápulas analisadas a freqüência do tubérculo glenoidal e da incisura glenoidal. A forma da cavidade glenoidal foi também observada.

Todas as escápulas que não apresentavam as margens da cavidade glenoidal regulares, ou a integridade dos tubérculos supra e infraglenoidal, foram descartadas da amostra.

Importante destacar que a padronização dos pontos de referência e a execução das medidas por um único pesquisador, em três momentos distintos, tiveram por objetivo reduzir ao máximo a margem de erro.

RESULTADOS

Considerando a amostra total de 74 escápulas e após a realização das medidas referidas anteriormente, foram obtidos os seguintes resultados: diâmetro transversal "maior" variou de 20,02mm a 30,31mm, com valor médio de 25,47mm (DP ± 2,40mm); diâmetro transversal "menor" variou de 12,58mm a 26,44mm, com valor médio de 16,94mm (DP ± 1,82mm); diâmetro longitudinal variou de 30,85mm a 42,15mm, com valor médio de 37,25mm (DP ± 2,94mm). A área plana calculada variou de 151,08mm2 a 368,03mm2, com valor médio de 256,68mm2 (DP ± 5,4mm2) (tabela 1).

A profundidade "longitudinal" variou de 2,60mm a 6,54mm, com valor médio de 3,96mm (DP ± 0,82mm); profundidade "transversal" variou de 0,12mm a 3,18mm, com valor médio de 1,25mm (DP ± 0,74mm) (tabela 2).

Na ausência do tubérculo glenoidal, a profundidade "longitudinal" teve valor médio de 4,04mm (DP ± 0,85mm) e a profundidade "transversal" teve valor médio de 1,28mm (DP ± 0,74mm). Na presença do tubérculo glenoidal a profundidade "longitudinal" teve valor médio de 3,87mm (DP ± 0,68mm) e a profundidade "transversal" teve valor médio de 1,21mm (DP ± 0,79mm) (tabela 2).

Comparando-se a área plana da cavidade glenoidal das escápulas isoladas em relação ao lado, a média no lado direito foi de 283,42mm2 e, no lado esquerdo, de 239,32mm2. A profundidade "longitudinal" média no lado direito foi de 4mm e, no lado esquerdo, de 4,17mm; a profundidade "transversal" média no lado direito foi de 1,37mm e, no lado esquerdo, de 1,36mm (tabela 3).

A área plana da cavidade glenoidal com forma piriforme teve valor médio de 264,18mm2 (DP ± 5,0mm2); com forma elipsóide teve valor médio de 244,78mm2 (DP ± 6,1mm2) (tabela 4). Não houve diferença estatisticamente significante entre as áreas planas consideradas (p < 0,005).





A incisura glenoidal esteve presente em 100% da amostra.

A forma da cavidade glenoidal foi piriforme (figura 2) em 53 (estrela). escápulas (72%) e elipsóide (figura 3) em 21 (28%). A freqüência do tubérculo glenoidal está representada no gráfico 1. Esse tubérculo não foi identificado em 53% da amostra (figura 4).







DISCUSSÃO

Há concordância entre os autores que a cavidade glenoidal é maior longitudinalmente do que transversalmente, porém, raramente apresentam suas medidas. Na literatura não foram encontrados relatos referentes à medida da profundidade da cavidade glenoidal.

O resultado do presente trabalho referente aos diâmetros é similar aos da literatura(5-6). A profundidade alterou conforme a presença ou não do tubérculo glenoidal, como apresentado neste estudo. Esse detalhe não foi ressaltado por outros auto-res, dificultando a comparação.

Voss e Herrlinger e Khale et al demonstraram que a cavidade glenoidal possui uma área de 6cm2, ou seja, 600mm2, mas não descreveram como foi obtido esse resultado(7-8).

A medida da área plana da cavidade glenoidal obtida no presente estudo teve valor médio (256,68mm2) menor devi-do, provavelmente, à diferença de método utilizado para sua mensuração. O método aqui proposto permitiu medida mais real da área ao considerar partes mais largas e outras mais estreitas (diâmetros). Outro aspecto a ser destacado referente a essa diferença de mensuração é o fato de as medidas terem sido realizadas em escápulas, sem a cartilagem articular, distintamente da literatura consultada(9).

Quanto à diferença de medida da profundidade "longitudinal" em relação à "transversal", deve-se ao fato da presença dos tubérculos supra e infraglenoidais para a medida "longitudinal". Esse fato justifica a realização das duas medidas.

As medidas da área plana e da profundidade, se comparados os lados e a forma, não apresentam diferença estatisticamente significante, tanto nas escápulas isoladas quanto nas pertencentes aos esqueletos articulados, sugerindo as-sim que o lado dominante do corpo não tem influência nas dimensões da face articular da escápula na articulação do ombro.

Métodos diferentes são utilizados para mensurar a cavidade glenoidal(6-9). Para garantir mensuração mais precisa neste trabalho foi mantido o mesmo avaliador, que realizou cada medida em três ocasiões distintas, utilizando a média das mesmas. A escolha das escápulas também foi fundamental, pois todas apresentavam as margens da cavidade glenoidal e os tubérculos supra e infraglenoidais preservados. Dessa forma, os pontos de referência para a mensuração eram facilmente identificados e utilizados em toda a amostra, o que reduziu a margem de erro.

O tubérculo glenoidal é descrito como uma pequena eminência arredondada no centro da cavidade glenoidal(4,5,11-13). Essa eminência é denominada "tubérculo de Assaky"(5). Porém, esses autores não mencionam sua freqüência. Neste estudo o referido tubérculo apresentou-se em 47% da amostra.

A incisura glenoidal está presente na margem ântero-supe-rior da cavidade glenoidal(3-5,12-14). Essa incisura foi observada em 100% da amostra, diferentemente da literatura, que refere sua presença em 55% da amostra(10). Também foi observado que ela caracteriza a forma da escápula: as que apresentavam incisura glenoidal mais acentuada foram classificadas como piriformes, e as que apresentavam incisura mais tênue foram classificadas como elipsóides.

Deve-se destacar que o tubérculo e a incisura glenoidais não constam na Terminologia Anatômica(15).

Quanto à forma da cavidade glenoidal, os autores classifi-cam-na de várias maneiras, porém, sem fornecer dados de freqüência. Para exemplificar, são citadas algumas: forma oval, piriforme, forma de lágrima, forma de gota. Neste trabalho foram adotadas duas formas: piriforme, a mais freqüente, e elipsóide.

CONCLUSÕES

Os resultados demonstraram que a área plana e a profundidade da cavidade glenoidal não apresentam diferença estatisticamente significante se comparados os lados direito e esquerdo. A forma piriforme da cavidade glenoidal foi mais freqüente do que a elipsóide. A incisura glenoidal esteve presente em 100% da amostra e o tubérculo glenoidal, em 47%.


REFERÊNCIAS

1. Tillaux P. Traité d'anatomie topographique avec applications a Iachirurgie. Paris: Asselín et Houzeau. 1882. p. 488-9.
2. Chiarugi G. Instituzioni di anatomia dell'umo. 2a ed. Milano: SocietàEditrice Libraria; 1926.
3. Bertelli D. Trattato di anatomia umana. Milano: Casa Editrice DottorFrancesco Vallardi; 1912. p. 359, 486-7.
4. Quiroz Gutiérrez F. Tratado de anatomia humana. Argentina: EditorialPorrua; 1959. p. 136 e 243.
5. Testut L, Latarjet A. Compendio de anatomia descriptiva. Barcelona: Salvat; 1945. p. 122-3.
6. McPherson EJ, Friedman RJ, An YH, Chokesi R, Dooley RL. Anthropometric study of normal glenohumeral relationships. J Shoulder Elbow Surg. 1997;6(2):105-12.
7. Voss H, Herrlinger R. Anatomia humana. Buenos Aires: Ateneo; 1974. p. 22-3.
8. Kahle W, Leonhardt H, Platzer W. Atlas de anatomia humana - aparelho de movimento. 3a ed. São Paulo: Atheneu; 2000. p. 108-14.
9. Soslowsky LJ, Flatow EL, Bigliani LU, Mow VC. Articular geometry of the glenohumeral joint. Clin Orthop Relat Res. 1992;(285):181-90.
10. Prescher A, Klumpen T. The glenoid notch and its relation to the shape of the glenoid cavity of the scapula. J Anat. 1997;190(Pt 3):457-60.
11. Prescher A. Anatomical basics, variations and degenerative changes of theshoulder joint and shoulder girdle. Eur J Radiol. 2000;35(2):88-102. Review.
12. Poirier PJ, Charpy A, editors. Traité d'anatomie humaine. Paris: Masson;1926. p. 137-8.
13. Rouvière H. Anatomia humana descriptiva y topografica. 5a ed. Madrid: Bailly-Bailliere; 1959. p. 9, 40-2.
14. Tandler J. Tratado de anatomía sistemática. Barcelona: Salvat; 1928. p. 196.
15. Comissão Federativa da Terminologia Anatômica. Sociedade Brasileira de Anatomia. Terminologia anatômica; terminologia anatômica internacional. São Paulo: Manole; 2001. p. 22, 35.