Trabalho realizado no Serviço de Ortopedia e Traumatologia da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.
1. Residente do Serviço de Ortopedia e Traumatologia da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.
2. Residente do Serviço de Ortopedia e Traumatologia da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.
3. Chefe do Serviço de Ortopedia e Traumatologia da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.
Endereço para correspondência: Rua Annes Dias, 255 - Centro - 90020-090 - Porto Alegre (RS) - Brasil. Tel.: 3214-8074. E-mail: jpcamp@bol.com.br
Com raras exceções, as rupturas tendinosas isoladas não são lesões relativamente comuns detectadas na prática traumatológica diária. Os tendões mais freqüentemente atingidos são: o quadricipital, o aquileu, o patelar e o bicipital. O presente relato justifica-se por descrever uma associação especial e, portanto, rara: a ruptura bilateral do cabo longo do bíceps.
RELATO DO CASO
Paciente do sexo feminino, 48 anos de idade, branca, agricultora, refere que, havia dois meses, enquanto andava de muletas, percebeu aumento súbito de volume no braço esquerdo, acompanhado de dor na região anterior do ombro. No mês seguinte, percebeu os mesmos sinais e sintomas no braço contralateral. Na história médica pregressa, referia ter sido submetida à artroplastia do quadril direito e, eventualmente, fazer uso de corticóide injetável para tratamento de lombalgia.
Ao exame físico não apresentava nenhuma limitação funcional dos ombros ou cotovelos, porém, aumento de volume na face anterior do terço médio para distal de ambos os braços, o que sugeria a ruptura bilateral do cabo longo do bíceps (figuras 1-3).


O estudo radiográfico não evidenciou alterações ósseas nos ombros ou cotovelos.
A ultra-sonografia evidenciou ruptura completa bilateral comprometendo o tendão longo do bíceps, observando-se ausência dos mesmos na região intertubercular dos úmeros. As porções remanescentes do tendão longo dos bíceps demonstravam ecogenicidade irregular, sem evidência de outras alterações (figuras 4-5).
O tratamento realizado foi conservador, pois a paciente apresentava força e função preservadas e não tinha preocupação com as alterações estéticas provenientes da lesão.
DISCUSSÃO
A ruptura do tendão do bíceps braquial é incomum em pessoas com menos de 50 anos de idade. Os fatores de risco para ruptura espontânea do tendão incluem corticoterapia prolongada, hipercolesterolemia, gota, artrite reumatóide, idade avançada, lúpus eritematoso sistêmico, insuficiência renal crônica, diabetes melito, transplante renal e antibioticoterapia com fluorquinolonas(1-2).
Os tendões mais freqüentemente acometidos são o quadríceps, o aquileu e o patelar. A ruptura do tendão longo do bíceps braquial é mais comum que a do tendão curto, sendo rara a ruptura bilateral(2). Além disso, o risco de lesão e alteração degenerativa da cabeça longa do bíceps está associado com sua função mecânica e sua proximidade com o manguito rotador e o acrômio. Injeções locais de corticóides podem causar ruptura espontânea de tendões, sendo raro o acometimento após terapia oral(2).
Os sintomas típicos de ruptura do tendão do bíceps são dor no ombro, principalmente anterior, que se irradia para o úmero distal. Os pacientes geralmente apresentam história de lesão ou dor crônica no ombro, a qual diminui após a ruptura. Ao exame físico a deformidade é bastante visível, sendo exacerbada com as mãos interdigitadas sobre a cabeça e contraindo o bíceps(3).
O diagnóstico é feito baseado na história e exame físico. O estudo radiográfico, normalmente, não evidencia alteração óssea, sendo a ultra-sonografia e a ressonância magnética os exames complementares confirmatórios(3).

Entre os diagnósticos diferenciais, deve-se incluir ruptura do tendão do músculo braquial, tendinite do bíceps, subluxação do tendão do bíceps e lesões do manguito rotador(3).
O tratamento é conservador, tendo como principais objetivos a manutenção da amplitude de movimento do ombro e a redução do processo inflamatório com antiinflamatórios nãohormonais, repouso e gelo. Estudos evidenciam a ausência de déficits significativos na supinação do antebraço e flexão do cotovelo em pacientes acompanhados por longo tempo após tratamento conservador(3).
2. Manjunath S, Trash DB. Images in medicine. Spontaneous bilateral rupture of biceps tendons. Postgrad Med J. 1999;75(886):470.
3. Carter AM, Erickson SM. Proximal biceps tendon rupture. Primarily an injury of middle age. Phys Sportsmed [serial on the Internet]. 1999 [cited 2003 Aug 1];27(6):[about 7 p.]. Available from: http:// www.physsportsmed.com/issues/1999/06_99/carter.htm