1. Médico Ortopedista; Chefe do Grupo de Quadril do Instituto Nacional de Tráumato Ortopedia - Hospital de Tráumato-Ortopedia - INTO-HTO - Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
2. Médico Residente R4 do Programa de Residência Médica em Ortopedia e Traumatologia do Serviço de Quadril do Instituto Nacional de Tráumato Ortopedia - Hospital de Tráumato-Ortopedia - INTO-HTO - Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
3. Médico Residente R3 do Programa de Residência Médica em Ortopedia e Traumatologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ - Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
4. Médico Ortopedista; Diretor do INTO-HTO/RJ e Membro do Grupo de Quadril do Instituto Nacional de Tráumato Ortopedia - Hospital de Tráumato- Ortopedia - INTO-HTO - Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
5. Médico Ortopedista; Presidente da Sociedade Brasileira de Quadril (SBQ) e Membro do Grupo de Quadril do Instituto Nacional de Tráumato Ortopedia - Hospital de Tráumato-Ortopedia - INTO-HTO - Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
6. Médico Ortopedista; Membro do Grupo de Quadril do Instituto Nacional de Tráumato Ortopedia - Hospital de Tráumato-Ortopedia - INTO-HTO - Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
Endereço para correspondência: Fernando José Santos de Pina Cabral, Rua Djanira, 140, casa 32, Samambaia - 25710-290 - Petrópolis (RJ) - Brasil. Tel.: (24) 2243-2590
A revisão da artroplastia total de quadril continua sendo um problema crítico e de difícil solução para a maioria dos cirurgiões ortopédicos.
Resultados inconstantes, com técnicas que utilizam implantes cimentados, implantes não-cimentados de superfície po-rosa ou enxertos estruturais, avaliados pelos critérios de Merle D'Aubigné e Postel, estão descritos na literatura(1-14). É importante salientar que muitas dessas técnicas promovem, em última análise, um círculo vicioso, que culmina com o aumento dos defeitos ósseos, tornando as revisões subseqüentes um grande desafio. Com o advento de hastes femorais nãocimentadas e com fixação distal, lograram-se de imediato resultados bem superiores às técnicas até então utilizadas(5-8,12-13).
Em 1987, Wagner introduziu o conceito da haste de revisão não-cimentada cônica, com princípios biomecânicos e de histocompatibilidade, que proporcionou, com a evolução dos anos, os melhores resultados em revisão do componente fe-moral(12).
O objetivo deste trabalho é avaliar clínica e radiograficamente os resultados da revisão femoral com a haste de Wagner, demonstrando que o implante é eficiente, dispensando enxertia óssea complementar.
MÉTODOS
No período compreendido entre janeiro de 1997 e janeiro de 2004, 242 pacientes foram submetidos à artroplastia de revisão com haste de Wagner, no Instituto Nacional de Trau-mato-Ortopedia.
Nesse período, foram revisados 192 pacientes que preencheram o protocolo do estudo, totalizando 197 quadris.
A haste de Wagner é constituída de uma liga de titânio poroso e o seu corpo apresenta um ângulo cônico de 2º e um ângulo cervicodiafisário (CD) de 145º na 10a geração. Atualmente, o novo design com um ângulo (CD) de 135º proporciona melhora do off-set e decréscimo no índice de luxação (figura 1). Essa haste possui oito aletas dispostas longitudinalmente, que cortam o osso durante sua inserção e proporcionam excelente aumento da estabilidade, principalmente a rotacional (figura 2).
Foram realizadas 132 revisões em mulheres e 60 em ho-mens. Na época da cirurgia, a média de idade foi de 59,8 anos, variando entre 26 e 82 anos. Os casos foram acompanhados por um período médio de 52,3 meses (variando de 12 a 90 meses).

diagnóstico principal foi coxartrose primária em 81 ca-sos (41,1%), coxartrose pós-traumática em 63 (31,9%), doenças reumatológicas em 27 (13,7%), osteonecrose em 17 (8,6%), seqüela de epifisiólise em seis (3%), seqüela de doença displásica do quadril (DDQ) em dois (1%) e seqüela de ar-trite séptica em um (0,7%) (tabela 1).
As indicações cirúrgicas de revisão foram as seguintes: afrouxamento asséptico em 147 quadris (74,6%), fratura periprotética em 23 quadris (11,6%), conversão de espaçador em 15 (7,6%), luxação recidivante em oito (4%) e conversão de Girdlestone em quatro (2%).
Ressalta-se que a equipe cirúrgica utilizou como implante a haste de menor comprimento que permitisse estabilidade mecânica, conforme planejamento pré-operatório (tabela 2).

Em todos os pacientes foi utilizada antibioticoterapia profilática com cefalosporina de primeira geração, iniciada após coleta de material intra-operatoriamente, com pesquisa pelo método de Gram, cultura e antibiograma. Prevenção de trombose venosa profunda (TVP) foi realizada em todos os pacientes com enoxaparina 40mg, uma vez ao dia, mantida por 10 dias.
Os defeitos ósseos femorais foram classificados em tipos 1, 2 e 3, pelo sistema descrito por Engh et al(5).
A remodelação óssea proximal foi avaliada quantitativamente nas radiografias em ântero-posterior (AP) e perfil durante o acompanhamento ambulatorial, através do diâmetro cortical na diáfise femoral, 1cm distal ao pequeno trocanter e classificada de acordo com os seguintes critérios: A - aumento do defeito ou sem remodelação; B - pequena remodelação; C - remodelação óssea significativa(2).
A migração do implante (subsidence) foi avaliada medin-do-se o afundamento vertical do componente femoral nas radiografias em AP durante as avaliações ambulatoriais.
Os critérios de D'Aubigné e Postel(14) foram utilizados para avaliação funcional dos pacientes, com as seguintes variáveis: dor, marcha e arco de movimento.
Complicações observadas nos pacientes também foram analisadas, tais como: infecção, TVP, lesão nervosa, luxação e fratura peroperatória.
RESULTADOS
Os casos, quando avaliados de acordo com os critérios de D'Aubigné e Postel(14), apresentavam, clinicamente, valores de 8,3 (variando de 3 a 12) na escala de pontuação no préoperatório e, no pós-operatório, média de 15,1 (variando de 5 a 18). Na última avaliação ambulatorial identificamos: 11 ca-sos como ruins (5,5%), oito razoáveis (8,2%), 78 bons (39,6%) e 92 excelentes (46,7%) (tabela 3). O critério mais importante foi a melhora significativa da dor.


Em dois casos não houve consolidação da osteotomia. Exceto um caso em que foi indicada a substituição do componente femoral com haste de diâmetro maior.
Entre os oito casos que apresentaram remodelação tipo A, ses casos apresentavam defeitos tipo 3 e neles foi utilizado cinco foram revisões que evoluíram com infecção no pós-ope-enxerto de banco de ossos na forma de réguas. ratório, dois pós-conversão de espaçador e um com defeito O afundamento médio encontrado em nossos pacientes foi tipo 3 de Engh et al. de 4,2mm (variando de 0 a 42mm), medidos na última avaliação.
A osteotomia femoral foi utilizada em 146 casos (74%) (fi-ção ambulatorial. Em oito casos (4%) ocorreu subsidence > guras 4 e 5). 10mm, com evolução clínica e radiográfica satisfatórias, exceto um caso em que foi indicada a substituição do componente femoral com haste de diâmetro maior.
As complicações foram observadas em 31 casos (15,7%). Infecção profunda em 11 casos (5,6%), luxação em 10 (5%), lesão nervosa em quatro (2%), fratura peroperatória em quatro (2%) e pseudartrose do grande trocanter em dois casos (1%) (tabela 6).

Dos 10 quadris que apresentaram luxação no pós-operató-rio (5%), oito permaneceram estáveis após redução fechada. Em um caso, foi indicada revisão com aumento do diâmetro da haste femoral e, em outro caso, houve evolução com infecção profunda, sendo indicadas retirada dos componentes e colocação de espaçador com antibiótico.
DISCUSSÃO
O principal objetivo a alcançar numa revisão femoral consiste na fixação estável do implante, possibilitando, assim, car-ga precoce. A fixação distal tem-se mostrado eficiente, principalmente por reduzir a necessidade do uso de enxertia óssea na tentativa de reparação dos defeitos femorais(15-16). Por outro lado, é importante ressaltar as complicações observadas nas técnicas de revisão não-cimentadas, tais como dor na coxa e má qualidade óssea provocada pelo fenômeno de stress shielding, associado à absorção óssea proximal pela falta de estresse mecânico nesse local, pois a fixação se faz distal-mente.
Com a técnica de Wagner, esses dois fenômenos diminuíram consideravelmente, principalmente pela utilização de próteses de menor comprimento, com o objetivo de promover o estímulo mecânico e, conseqüentemente, facilitar a remodelação óssea proximal(17).
O afrouxamento asséptico está diretamente relacionado à perda óssea. O problema somente pode ser resolvido a longo prazo por meio da restauração da falha óssea. O alto percentual de falha com as revisões cimentadas levou à utilização de próteses femorais não-cimentadas(18). Com a técnica de Wagner, a fixação distal permite ancoragem em osso estável, além da remodelação óssea proximal sem a utilização de enxerto ósseo.
Clinicamente, nossos pacientes apresentaram 86,3% de resultados excelentes e bons. Parhofer et al obtiveram 70,5% de excelentes e bons resultados, e Morscher et al 83%, em 31 pacientes(19-20). Outros trabalhos relatam 75-89% de bons re-sultados(14).
Radiograficamente, a restauração óssea proximal foi observada em 96% dos casos que estudamos. Na revisão de literatura, Kolstad et al relataram remodelação em 96% dos 31 casos avaliados e Hartwig et al em 87% dos pacientes analilisados (15,21).
A restauração óssea femoral associada com a haste de Wagner provavelmente está relacionada à transmissão de força proximal devido ao formato cônico da prótese, ao módulo de elasticidade do titânio e à boa histocompatibilidade das superfícies em contato(22).
Assim como Bohm e Bischel(18), acreditamos que a remoção cuidadosa do cimento e do tecido granulomatoso é condição essencial para a restauração óssea. Em relação à osteotomia femoral, deve ser preservado o suprimento sanguíneo ósseo, sendo evitada a desinserção muscular.
Dos oito pacientes que não apresentaram sinais de restauração óssea, cinco tiveram infecção profunda no pós-operató-rio e em três foi utilizado o espaçador sem osteotomia femoral. Acreditamos que a osteotomia femoral estimula a remodelação óssea proximal. Dos 35 pacientes classificados como tipo A ou B, em 26 a osteotomia não foi utilizada.
O afundamento do implante, descrito por Wagner e Wag-(17), consiste numa observação comum a todos os trabalhos (15-16,18,22-23). A provável explicação para tal acontecimento pode ser a fresagem em escala maior que a haste a ser utilizada e/ou a ausência de boa qualidade óssea(18).
Diversos trabalhos apresentam afundamento médio variando entre 18 e 20%(16,18,21-23). O afundamento médio encontrado em nossos pacientes foi de 4,2mm, sendo maior ou igual a 10mm em oito casos (4%); em um caso com afundamento de 4,2cm, houve indicação de troca do componente.
A osteotomia femoral foi utilizada em 74,2% dos casos. Apenas dois casos evoluíram para não consolidação, em que foi utilizado enxerto homólogo de banco de ossos por apresentar falha óssea do tipo III. Clinicamente, apresentaram resultados insatisfatórios e, radiograficamente, pouca ou nenhuma remodelação foi observada.
CONCLUSÕES
1) A haste femoral de Wagner permite fixação estável, mesmo na presença de consideráveis defeitos ósseos, com alto percentual de regeneração óssea proximal.
2) Planejamento pré-operatório, com avaliação de variáveis como gravidade do defeito ósseo femoral, necessidade de osteotomia femoral e sua extensão, assim como o tamanho do componente, é imprescindível para a utilização da haste de Wagner.
3) Clinicamente, foram obtidos resultados bons e excelentes na grande maioria dos pacientes e, radiograficamente, a regeneração óssea foi obtida, conseguindo-se índices semelhantes aos dos autores, fato que nos estimula ao uso dessa haste até o presente momento.
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