a Departamento de Ortopedia, Santa Casa de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
b Serviço de Ortopedia e Traumatologia, Hospital Israelita Albert Einstein, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), São Paulo, SP,Brasil
c Instituto de Ortopedia, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil
d Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), São Paulo, SP, Brasil


Introdução

Dentro da cirurgia artroscópica, a abordagem da articulaççãodo quadril foi renegada até recentemente, por causa da difi-culdade de diagnóstico das patologias intra-articulares e dadificuldade técnica da cirurgia.

A cápsula articular do quadril é a mais espessa do corpohumano, é localizada em planos profundos, acessados atravésde músculos volumosos, como o glúteo médio, e tem comoestruturas vizinhas o trígono femoral e o nervo ciático, quelimitam os portais de acesso. O espaço coxofemoral é exíguo,acessível somente com tração articular, e a manipulação deinstrumentos é dificultada pelo formato convexo da cabeçafemoral.

Nas últimas duas décadas, o desenvolvimento da resso-nância magnética permitiu a avaliação de inúmeras lesõesarticulares e periarticulares e novos conceitos foram intro-duzidos, como o impacto femoroacetabular (IFA) e o espaçoperitrocanteriano.

Houve também o desenvolvimento de instrumentais espe-cíficos, como cânulas longas, óticas especiais e shavers e probesde radiofrequência de menor diâmetro e flexíveis.

Indicações e contraindicações

A artroscopia de quadril oferece uma técnica minimamenteinvasiva para procedimentos que iriam requerer uma luxaççgica do quadril. Em adição, ela permite ao ortope-dista acessar alterações intra-articulares que previamente nãoeram diagnosticadas, muito menos tratadas.

As patologias mais comumente tratadas são o IFA, as lesõeslabrais e do ligamento redondo e o ressalto externo e interno.

As indicações diagnósticas envolvem a avaliação da carti-lagem em osteonecrose ou em conjunto com osteotomias e deartroplastias dolorosas e a coleta de tecidos para culturas.

As doenças sinoviais (condromatose, sinovite vilonodularpigmentada e artrite reumatoide) apresentam-se como umaboa indicação cirúrgica, assim como o tratamento da a dorglútea profunda (antiga síndrome do piriforme).

Estão sendo estudadas novas indicações de artroscopia,como a reconstrução do ligamento redondo, a capsulorrafianos casos de instabilidade7e o reparo das lesões dos tendõesglúteos.

A principal contraindicação da artroscopia do quadril é aexistência de processo infeccioso ativo, exceto nos casos dedrenagem de pioartrite ou avaliação de infecção em próteses.Infecções de pele ativas e especialmente na região dos portaisimpedem a cirurgia.

Dificuldades técnicas devem ser esperadas, mas não con-traindicam absolutamente a cirurgia em pacientes obesos,com osteoatrose avançada ou artrofibrose.

Exame artroscópico do quadril

quadrilA anatomia artroscópica do quadril divide a articulação emdois compartimentos: central e periférico (tabela 1).

O compartimento central é o espaço compreendido entrea porção cartilaginosa da cabeça femoral e o cotilédone ace-tabular, com a participação da porção articular do labrum, dopuvinar e dos ligamentos redondo e transverso. Esse comparti-mento só pode ser abordado com a tração e a separação dessassuperfícies articulares.

O compartimento periférico envolve a cápsula articular(com seus recessos medial, anterior e posterior e o espessa-mento transverso de suas fibras, denominado zona orbicularis),a porção capsular do labrum, o ligamento transverso, a plicasinovial medial e a porção anterolateral da cabeça femoral,onde ocorre comumente a deformidade tipo came.

Além desses, as estruturas periarticulares, como a mus-culatura glútea, a banda iliotibial, a fáscia lata, os músculospiriforme e rotadores externos, o nervo ciático e o forameciático maior, podem ser exploradas, no que é chamado deprocedimento endoscópico extra-articular.

Alguns autores preferem iniciar a cirurgia pelo compar-timento periférico, com o argumento de que assim não seexpõe o labrum a perfurações inadvertidas. Entretanto, a mai-oria dos autores começa a cirurgia com a abordagem docompartimento central, sob tração, e parte para explorar ocompartimento periférico secundariamente.

Patologias abordadas com a artroscopia dequadril

Lesões do labrum acetabular

A lesão labral é causa importante de dor no quadril. A funççãodo labrum é mais bem compreendida atualmente e acredita--se que funcione com um selante, que, com pressão negativa,garante alguma estabilidade ao quadril e previne o contatoexagerado entre as cartilagens do acetábulo e da cabeça femo-ral.

Inicialmente caracterizada como uma patologia isoladae sem maiores repercussões, a lesão do labrum (ou lábio)acetabular passou a ser considerada uma consequência dedeformidades ósseas, traumatismos ou movimentos supra-fisiológicos do quadril, como no caso de bailarinas,9e édiretamente relacionada à degeneração articular.

A lesão labial pode ter origem traumática ou degenerativa11e podem ter como fatores etiológicos: arrancamento trau-mático, degeneração articular, insuficiência óssea (displasia),instabilidade e impacto fêmoro-acetabular.

Independentemente da etiologia, as lesões labrais são maiscomuns no quadrante anterossuperior.13Nesse local a resis-tência mecânica do labrum é menor do que em todas outrasregiões, seja à tração (instabilidade) ou à compressão (IFA),conforme teste mecânicos in vitro.

14McCarthy et al.10observaram que a lesão labral e a artrosedo quadril são a progressão de uma mesma doença degene-rativa e abriram a possibilidade de intervir-se na evolução daartrose por meio do tratamento cirúrgico da lesão labral e desuas causas por via artroscópica.

15A cirurgia artroscópica tradicionalmente foi usada para odiagnóstico de lesões intra-articulares e a retirada de corposlivres do quadril. Seu emprego em lesões labrais foi ampla-mente difundido na última década

A artroscopia com estabilização com âncoras ou ressecççcial do labrum, associada à correção do fator desencade-ante da lesão, é o tratamento mais preconizado, pois, emboraos trabalhos iniciais de artroscopia relatassem um índice deinsucesso relativamente grande,16os resultados passaram aser mais promissores desde o desenvolvimento do conceitodo impacto fêmoro-acetabular e da re-fixação ou recontruççiais.

A ressecção parcial do labrum por meio da artroscopiaapresentou 82% de bons resultados após 10 anos de acom-panhamento de 52 pacientes, segundo Byrd e Jones.

17Estudos em ovelhas demonstraram a capacidade de olabrum cicatrizar após a sua refixação,18assim como artros-copias feitas em humanos mostraram cicatrização em maisde 88% de casos reoperados.

No tratamento aberto do IFA, Espinosa et al.19observarammelhores resultados em pacientes em que o labrum havia sidofixado comparativamente àqueles submetidos à ressecção,80% contra 28%, após dois anos de acompanhamento.

Em um grupo pareado de 74 pacientes submetidos à artros-copia para tratamento de IFA misto ou tipo pinçamento, afixação labial também apresentou melhores resultados doque a ressecção. Após seguimento de um ano, o grupo comreparação apresentou o escore de Harris para quadril (HHS)médio de 94,3% e 87,9% de bons resultados comparado ao HHSmédio de 88,9% e 66,7% de bons resultados do grupo em queo lábio foi ressecado.

No seguimento de dois grupos de 23 e 25 pacientes comlesão labial e IFA operados por meio de artroscopia, o grupoque foi tratado com estabilização labial e osteocondroplas-tia apresentou melhor escore funcional e menor índice dereoperações.

21Nos casos em que a fixação labral não é possível, areconstrução pode ser feita e são descritas técnicas comenxerto proveniente da banda iliotibial ou com tendão do grá-cil22,23com excelentes resultados.

A avaliação dos resultados do tratamento das lesões labraisé muito difícil, pois não há uma classificação uniforme, os índi-ces não artrósicos para avaliação funcional são inconsistentese os protocolos de tratamento são muito variados

16Mohtadi et al.24descreveram o ceiling effect no qual paci-entes jovens e ativos apresentam boa pontuação nos escores, apesar da limitação causada por patologias no quadril. Assimcriaram o iHOT, questionário específico para essa populaççtiva com dores no quadril.

Todos os trabalhos são unânimes na afirmação de que oprincipal fator de mau prognóstico é a presença de artrose oulesões de cartilagem tipo Outerbridge IV ou Tönnis tipo III ouIV.16Caso o espaço articular seja inferior a 2 mm, a progressãopara artroplastia ocorre em 80% dos casos em média após doisanos de seguimento.

Impacto femoroacetabular

O impacto femoroacetabular (IFA) é um distúrbio puramentemecânico que ocorre quando o quadril apresenta uma incon-gruência nos extremos de suas amplitudes de movimento etraz como consequências a dor articular e a predisposição àartrose.26Comporta-se como uma alteração do mecanismode rotação da cabeça femoral, em contraste com as forças decisalhamento que ocorrem em colos varo ou valgo.

A prevalência estimada de IFA assintomática na populaççeral é de 10% a 15%.

Os tipos clínicos descritos classicamente por Ganz et al.26são o came e o "pinçamento" ou "torquês".

Em mais de 70% dos casos operados com luxação cirúrgicaou artroscopia encontram-se alterações tanto acetabularesquanto femorais, descritas como impacto tipo "misto".

O tratamento cirúrgico adequado envolve a correção coma osteocondroplastia das deformidades em ambos os lados daarticulação.

Em alguns casos, o impacto pode ser por causa da sobre-carga, acima do nível fisiológico, de um quadril normal doponto de vista anatômico, como ocorre em bailarinas, porexemplo.30Nesses casos a lesão na cartilagem pode ocorrerem lugares atípicos.

Ganz et al.26descrevem a associação direta entre IFA eartrose secundária do quadril e recomendam a intervenççgica precoce em casos de deformidades femoroacetabu-lares, antes que lesões irreversíveis da cartilagem ocorram,o que pode levar ao retardo da evolução da artrose do qua-dril. Em trabalhos pioneiros relatam a luxação cirúrgica, quese tornou o padrão-ouro àquela época.

A artroscopia é claramente uma opção atraente, poisenvolve incisões menores, tempo de recuperação mais rápidoe potencialmente menos complicações do que a cirurgiaaberta. Em vários artigos recentes ambos os procedimentosapresentam resultados semelhantes aos da artroscopia.

As melhores indicações para artroscopia são a lesão tipocame isolada e a retroversão acetabular leve.

Mardones et al.31compararam a técnica cirúrgica abertae artroscópica em cadáveres e não encontraram diferençassignificativas na precisão da osteocondroplastia da cabeçafemoral em impacto tipo came.

Ilizaliturri et al.32demonstram melhoria no escore deartrite de Womac (Western Ontario and McMaster Universi-ties) em 15 de 19 pacientes. Não houve complicações graves.Um paciente evoluiu para artroplastia dois anos após a cirur-gia.

Cabrita et al.33descrevem 60 artroscopias de quadril, 35 deIFA, sem complicações graves e com conversão para artroplas-tia de 6% (fig. 1).

Polesello et al.34operaram 49 atletas (51 quadris) e apresen-taram 76% de atletas com retorno pleno ao esporte após tempode seguimento mínimo de um ano (média de 39 meses).

Larson e Giveans35descrevem sua experiência precoce em100 quadris em 96 pacientes com média de seguimento de9,9 meses, com melhoria significativa do HHS e conversão paraartroplastia em 3% dos casos.

Philippon et al.36operaram 122 pacientes com IFA porartroscopia e os acompanharam por 2,3 anos em média (doisanos de seguimento mínimo). A média do HHS passou de 58para 84 e 10 pacientes (8,2%) foram submetidos à artroplas-tia total de quadril. Os fatores preditivos para melhoria foram:HHS > 80 no pré-operatório, espaço articular prévio maior doque 2 mm e reparação labial em vez de ressecção no ato daartroscopia.

Indicações diagnósticas

Artroplastia de quadril dolorosa

A avaliação de artroplastia de quadril dolorosa por artros-copia é a indicação diagnóstica mais comum. A coleta deamostras de líquido sinovial e de cápsula articular permiteuma boa fonte para culturas. Podem ser observadas outrasfontes de dor em próteses, como tendinite do iliopsoas poratrito,36interposição de corpos estranhos, instabilidade arti-cular, soltura asséptica, impacto entre os componentes eadesões.

Osteonecrose

A avaliação da cartilagem articular em osteonecrose é pos-sível com uma artroscopia de quadril, que pode ser feitaconjuntamente com a descompressão (foragem) da cabeçafemoral, nas osteonecroses em estágios I ou IIa de Ficat, semrisco de pioria da circulação da cabeça femoral. Ellenriederet al.38usaram a artroscopia para determinar qual condutatomar frente a esses casos. Em pacientes com estágios II eIII de Steinberg, sem colapso da cabeça ou lesão condral,foi feita descompressão associada à enxertia com cilindrosde enxerto autólogo. Nos casos de colapso (Steinberg IV),foi tentada a redução da porção desabada com auxílio defluoroscopia.

Além disso, a indicação de artroscopia fez-se interessante,pois o dano à cartilagem da cabeça femoral é mais bem avali-ado: em 52 casos de osteonecrose, Rush et al.39encontraramdanos à cartilagem femoral que não foram detectados em res-sonância magnética em 36% dos pacientes.

Artroscopia de quadril em casos de trauma

A artroscopia de quadril está indicada em casos pós--traumáticos com bons resultados e de modo seguro.

Cabrita et al.41realizaram 32 artroscopias de quadrilem casos de trauma, sendo vinte casos foram realizadosapós luxação traumática do quadril. Foram visualizados: oestado da cartilagem articular, das bordas acetabulares oucabeça femoral fraturadas, lesões do ligamento redondo einstabilidade articular. Os casos foram operados em umtempo entre seis horas a dez dias após a luxação. Nãohouve extravazamento extra-articular de soro fisiológicodurante a cirurgia e a pressão de 30 mmHg, mantidapela bomba de infusão, foi suficiente para a manipulaççgica. Da mesma forma, nos casos de sequelas tar-dias de luxação do quadril a artroscopia pode ser muitoútil para documentar lesões e retirada corpos livres naarticulação.

Doenças sinoviais do quadril

A sinovite vilonodular pigmentada pode apresentar-se demodo difuso ou focal. Ambos podem ser tratados com artros-copia, porém seu prognóstico é bastante diferente e reservadona forma difusa, com progressão precoce para artrite.

Boyer e Dorfmann44trataram 111 pacientes com con-dromatose sinovial de modo artroscópico, com seguimentomédio de seis anos. Metade dos pacientes evoluiu bem e semnecessidade de outros tratamentos. Houve indicação de novaartroscopia em 20%, cirurgia aberta em 37% e artroplastia totaldo quadril em 19% dos casos.

Outros autores referem ser um método eficaz para a reti-rada dos corpos livres condromatosos, porém pode haverdificuldades para acessar áreas póstero-mediais e póstero--laterais no compartimento periférico, o que pode levar arecidivas.

Zhou et al.,47em estudo retrospectivo, inspecionaram40 quadris em 36 pacientes com doenças auto-imunes (17com espondilite anquilosante, 11 com artrite reumatoide eoito com artrite psoriática) com irrigação e desbridamento detecido inflamatório. Todos apresentaram melhoria da ADM ediminuição da sinovite na RNM, com 75% dos pacientes satis-feitos com os resultados.

Artroscopia em sequelas de doençasda infância

Displasia de quadril

A indicação de artroscopia em casos de displasia é controversae deve ser considerada como de exceção.

Byrd e Jones48descrevem bons resultados em 38 casos dis-plásicos ou limítrofes à displasia, com uma progressão do HHSmédio de 57 pontos para 83 e apenas três resultados insatis-fatórios após seguimento médio de 27 meses.

Parvizi et al.49descrevem o acompanhamento de 34 paci-entes com persistência dos sintomas dolorosos em 24 casos.Ocorreram 14 evoluções para artrose severa e 13 migraçõeslaterais da cabeça femoral. Os autores contraindicam a artros-copia de quadril em casos de displasia pela possibilidade deaceleração do processo degenerativo.

Recentemente a artroscopia vem sendo feita nesses paci-entes junto com a osteotomia periacetabular ou após, combons resultados. Uma hipótese seria que a reorientação ace-tabular proporciona melhor ambiente para cicatrização dolabrum reparado.

Epifisiolistese e sequela de Perthes

São duas causas de IFA tipo came que podem ser abordadaspor artroscopia.

A deformidade na epifisiolistese deve ser avaliada comradiografias de perfil ou tomografia computadorizada. Emcasos de alteração do offset femoral, ou seja, escorregamentosposteriores importantes, não adianta ser feita uma osteocon-droplastia para correção do IFA, mas sim um realinhamentodo fêmur proximal com uma osteotomia intra-articular ousubtrocanteriana.

Embora afirmem que a artroscopia não afete a histórianatural da doença de Perthes, Freeman et al.52apontam queesse procedimento melhora a qualidade de vida e os scores,num seguimento mínimo de dois anos.

Lesões do ligamento redondo e reparo capsular nos casosde instabilidade

A função do ligamento redondo ainda não está bem estabe-lecida, mas ele aparentemente é um restritor do movimentoconjunto de extensão e rotação externa e fica tenso a esseteste no exame físico ou ao Fabere (flexão, abdução e rotaççerna).

Rao et al.53classificam as lesões do ligamento redondo emtrês grupos: I - traumática parcial; II - traumática total; III -degenerativas.

Na sua série inicial de 271 artroscopias de quadril, Byrd eJones54encontram 41 casos de lesões do ligamento redondo,23 traumáticas e 18 degenerativas.

Philippon et al.55referem que a reconstrução do ligamentoredondo pode ser feita em grupo seleto de pacientes comqueixa de instabilidade, com movimentos suprafisiológicos eapós tentativa de manejo artroscópico habitual como trata-mento de FAI, reparo labral e plicatura da cápsula.

Os estabilizadores capsuloligamentares do quadril conti-nuam sendo estudados e ainda não têm papel definido. Algunsautores vêm desenvolvendo técnicas para o reparo capsular,porém os efeitos desse tempo cirúrgico ainda são desconheci-dos no longo prazo e estudos prospectivos ainda estão sendofeitos.

Pioartrite de quadril

Kim et al.57fizeram artroscopia em oito pioartrites de quadrilem crianças e duas em adultos e obtiveram sucesso terapêu-tico em todas.

El-Sayed58comparou o tratamento artroscópico com a dre-nagem aberta em casos de pioartrite de quadril em 20 crianças.Houve 70% de bons resultados na técnica aberta e 90% natécnica artroscópica.

Yamamoto et al.59trataram quatro adultos e Nusem et al.60operaram seis adultos com pioartrite de quadril de modoartroscópico com sucesso.

Ressecção de osteoma osteoide

A ressecção de osteoma osteoide em quadril é descrita emcrianças e adultos em casos isolados e pode simular sintomasde IFA nesses pacientes, com boa indicação apenas em casossubcondrais ou no colo femoral anterior.

Artroscopia extra-articular (tratamentoendoscópico de patologias do quadril)

As indicações mais comuns são a bursite trocanteriana, oressalto externo e as tendinopatias dos glúteos mínimo emáximo, que juntos abrangem o conceito da síndrome dolo-rosa do grande trocanter,61o ressalto interno e a síndrome dopiriforme (dor glútea profunda).

Ressalto externo

O ressalto externo é produzido por espessamento da porççrior da banda iliotibial ou espessamento anterior dasfibras do glúteo máximo. É reproduzido com o atrito dessasestruturas com o grande trocanter durante flexão ou extensãoe pode ser ou não doloroso.62Muito dos casos sintomáti-cos podem ser resolvidos com fisioterapia e alongamentos.A liberação pode ser aberta ou artroscópica.63Essa pode serabordada com o paciente em decúbito lateral.

Polesello et al.63descrevem a técnica que diminui a tensãona banda iliotibial por meio da liberação meia do tendão doglúteo, em sua inserção femoral na linha áspera, com bonsresultados.

Bursites trocanterianas e lesões dos músculos glúteos

As bursites trocanterianas têm inúmeras possibilidades tera-pêuticas. Os casos refratários ao tratamento conservadorpodem ser tratados cirurgicamente por via endoscópica comeficácia e segurança.

As lesões tendinosas dos músculos glúteos vêm sendocomparadas às lesões do manguito rotador no ombro. Aslesões parciais ou totais são associadas à bursite trocan-térica crônica com sinal de Trendelenburg positivo. Muitoprovavelmente essas lesões são subdiagnosticadas. Há pou-cas publicações sobre o tema e novas técnicas vêm surgindo.Entretanto, ainda não é claro até que ponto a lesão muscularé reversível, bem como o prognóstico em longo prazo.

Ressalto interno

O ressalto interno ocorre basicamente com o tendão do iliop-soas em atrito com a eminência iliopectínea ou com a cabeçafemoral.

Ilizariturri et al.64trataram 19 pacientes com ressaltointerno, por causa do músculo iliopsoas, com bons resulta-dos e sem diferença quanto à tenotomia ser feita na alturado trocanter menor ou na região capsular anterior do qua-dril.

Em artigo de revisão, Khan et al.65relatam que a liberaççpica tem menor índice de complicações e dor pós--operatória quando comparada com a técnica aberta.

Dor glútea profunda

A dor glútea profunda, antigamente conhecida como sín-drome do piriforme, é uma patologia com diagnóstico deexclusão e com tratamento eminentemente conservador.A cirurgia é indicada em casos refratários.

Ela se manifesta como dor na região glútea acompanhadaou não de ciatalgia, que piora a compressão local e que per-manece, geralmente, por anos até ser identificada.

A técnica cirúrgica aberta é o tratamento clássico, porémo resultado estético da abordagem e o potencial de lesão donervo ciático muitas vezes inibem essa cirurgia.

Martin et al.67realizaram a liberação endoscópica do nervociático em 35 pacientes, dissecando-o de estruturas como omúsculo piriforme, bandas fibrosas, malformações vascularese aderências aos músculos obturatórios e quadrado femoral,obtendo melhora do MHHS de uma média de 54,4 no pré--operatório para 78 no pós-operatório com seguimento de umaano e meio. A dor ciática que os pacientes referiam ao perma-necerem sentados desapareceu em 83% dos casos.

Cabrita et al.68descrevem a exploração do nervo ciático(fig. 2) acompanhada de tenotomia do piriforme e neurólisedo ciático com monitoração neural intraoperatória (poten-cial evocado e eletroneuromiografia) com bons resultados em10 casos iniciais, sem recidivas e sem lesões neurológi-cas.

Complicações

Em revisão sistemática da literatura,69com 92 trabalhos e maisde seis mil incluídos, concluiu-se que a taxa de complicaçõesé baixa (0,58%) e a taxa de reoperações foi de 6,3%. A causamais comum foi a conversão para prótese total de quadril.

A complicação mais comum é a lesão iatrogênica da carti-lagem/labrum durante posicionamento dos portais.

A neuropraxia dos nervos pudendo e cutâneo lateral dacoxa foi a complicação neurovascular mais comuns e é dire-tamente relacionada aos mecanismos de tração, assim comoàs lesões de pele na região perineal.

A luxação do quadril por excesso de retirada de bordaacetabular, o extravasamento intra-abdominal e intratorácico,a hipotermia, a infecção, os fenômenos tromboembólicos, a necrose avascular, a ossificação heterotópica e a fratura docolo são complicações relatadas episodicamente.

Cabrita et al.41relatam que, em 450 casos consecutivos,a taxa de complicações diminui com a evolução da curva deaprendizado.

Entretanto Souza et al.70afirmam que em 194 casos acom-panhados, a taxa de complicações não é modificada com acurva de aprendizado, embora a natureza das complicaçõesmude, acompanhando indicações e técnicas cirúrgicas cadavez mais complexas.

Considerações finais

1. A artroscopia de quadril é um método de tratamento seguropara uma miríade de patologias do quadril que eram des-conhecidas até a década passada.

2. O IFA é a patologia artroscópica mais comum e a que apre-senta melhores resultados ao tratamento precoce.

3. O instrumental e a técnica cirúrgica da artroscopia de qua-dril continuam em evolução.

4. Estão sendo estudadas novas indicações de artroscopiado quadril, como reparo da lesão do ligamento redondo,capsulorrafia nos casos de instabilidade traumática e atrau-mática; dissecação do nervo ciático; e reparo de lesões dosmúsculos glúteo médio e mínimo. Apesar do entusiasmo,essas indicações são tecnicamente difíceis, com reproduti-bilidade discutível, e faltam estudos prospectivos de longoprazo para comprovar-se a sua eficácia.

5. Resultados cada vez melhores e menor número decomplicações devem ser esperados de acordo com a curvade aprendizado.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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