1 - Médica Ortopedista e Traumatologista, Especialista em Ortopedia Pediátrica Hospital Maria Amélia Lins - FHEMIG - Belo Horizonte, MG; Mestre em Ciências da Saúde (UFMG), Área de Concentração Saúde da Criança e do Adolescente.
2 - Médico Residente em Ortopedia e Traumatologia, Hospital Maria Amélia Lins - FHEMIG - Belo Horizonte, MG.
3 - Médico Residente do Hospital Mater Dei - Belo Horizonte, MG.
4 - Médico Ortopedista e Traumatologista, Hospital Maria Amélia Lins - FHEMIG - Belo Horizonte, MG.
5 - Médico Ortopedista e Traumatologista, Especialista em Ortopedia Pediátrica Hospital Maria Amélia Lins - FHEMIG - Belo Horizonte, MG.
Trabalho realizado no Ambulatório de Ortopedia e Traumatologia Pediátrica do Hospital Maria Amélia Lins - Belo Horizonte, MG.
Correspondência: Rua Congonhas, 668, Bairro Santo Antonio - 30300-100 - Belo Horizonte - MG. E-mail: doroteastarling@yahoo.com
INTRODUÇÃO

A fratura de um ou ambos os ossos do antebraço associada à fratura de úmero ipsilateral representa uma grave lesão do membro superior em crianças (1) . Stanitski e Micheli (2) utilizaram o termo cotovelo flutuante" pela primeira vez para descrever a associação de tais lesões. São incomuns, com prevalência que varia de dois a 13% e, na grande maioria das vezes, associadas a um trau -ma e alta energia (2,3) . Buckley et al (4) , em estudo com 3.472 pacientes atendidos em centro de referência em traumatologia pediátrica, afirmaram que, quanto à inci -dência de fraturas oncomitantes, as associações mais frequentes foram entre fraturas de tornozelo com as de tíbia e fíbula (10 casos), seguidas das fraturas de rádio e ulna com as do úmero (nove casos).

Malheiros (5) encontrou, em estudo com metodologia semelhante que reuniu 1.199 pacientes os quais apre -sentaram 1.722 lesões, que a associação mais frequente entre as lesões múltiplas foi entre fratura do úmero e a fratura dos ossos do antebraço (25 casos).

As fraturas expostas, a síndrome compartimental e as alterações neurovasculares foram mais frequentes em crianças portadoras de cotovelo flutuante quando compa -radas às fraturas supracondilianas do úmero isoladas (6).

Apesar de o tratamento conservador ter sido cita-do na literatura (7,8) , a maioria dos autores considerou a fixação percutânea com pinos das fraturas do úmero fundamental, tanto para um elhor resultado funcional quanto para diminuir o risco de complicações neuro -vasculares (2,9-11)./

Templeton e Graham (12) consideraram a fixação das fraturas do antebraço vantajosa, pois possibilitava me -lhor monitorização do status neurovascular do membro acometido e facilitava o cuidado das feridas cutâneas no caso de fraturas expostas.

O presente estudo tem por objetivo realizar uma análise descritiva dos 31 casos de crianças portadoras de cotovelo flutuante atendidas em nosso serviço no período de 1994 a 2007, bem como uma revisão detalhada da literatura pertinente ao tema. Trata-se, portanto, de um estudo de relevância, diante da gravidade e da raridade de tal afecção, além da exiguidade de trabalhos na literatura nacional com abordagem similar.


MATERIAIS E MÉTODOS

Trata-se de um estudo retrospectivo, transversal e observacional. Foram avaliadas crianças vítimas de fra -tura de um ou ambos os ossos do antebraço associada à fratura de úmero ipsilateral (lesão denominada coto -velo flutuante) atendidas no Ambulatório de Ortopedia e Traumatologia Pediátrica do Hospital Maria Amélia Lins, no período de junho de 1994 a dezembro de 2009.

As variáveis estudadas foram: idade, gênero, lado acometido, mecanismo de trauma, tipo de fratura, classificação, tratamento realizado e as complicações secundárias ao mesmo.

Os dados foram obtidos a partir da análise dos pron-tuários e transferidos ao protocolo de pesquisa. Foram excluídos os pacientes com fraturas supracondilianas do úmero tipos I e II de Gartland.

As análises estatísticas foram realizadas por meio do software Epi-Info 8.0 e SPSS 12.0. O nível de signi-ficância foi considerado de 5%. Porém, em virtude do pequeno tamanho da amostra e da falta de um grupo para comparação entre os resultados, não foi possível o cálculo estatístico. O fato de as variáveis serem discretas inviabilizou a análise por comparação das médias. Logo, optou-se por um estudo descritivo, onde se pode traçar o perfil do paciente com cotovelo flutuante.

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da instituição e registrado no Minis -tério da Saúde junto ao Sistema Nacional de Ética em Pesquisa (SISNEP) sob a folha de rosto número 221.462 e o CAAE número 0076.0.287.000-08.

RESULTADOS

Foram avaliados 1.941 prontuários de pacientes portadores de fraturas atendidos em nosso serviço no período de junho de 1994 a dezembro de 2009. Destes, 913 apresentaram lesões nos membros superiores e 928 em membros inferiores. Trinta e dois eram portadores de cotovelo flutuante. Foi excluído um paciente que apresentava fratura supracondiliana do úmero tipo II de Gartland, perfazendo um total de 31 pacientes.

Com relação ao gênero, 24 pacientes (77,4%) eram do gênero masculino e sete (22,6%), do feminino. A média de idade foi de 8,5 anos (± 3,2), variando entre um e 14 anos, sendo que 17 pacientes (54,83%) possuíam entre seis e 10 anos.

O lado mais acometido foi o esquerdo (67,7%). O mecanismo de lesão mais comum foi queda de altura, em 23 pacientes (74,2%), principalmente de árvores frutíferas. Seguido por quedas de bicicleta (16,1%) e acidentes automobilísticos (9,7%).

Todas as fraturas supracondilianas do úmero foram Rev Bras Ortop. 2011;46(5):500-4 COTOVELO FLUTUANTE EM CRIANÇAS: ESTUDO DESCRITIVO DE 31 CASOS ATENDIDOS EM CENTRO DE REFERÊNCIA EM TRAUMATOLOGIA PEDIÁTRICA 502 classificadas como tipo III de Gartland. O padrão mais comum das lesões dos ossos do antebraço foi a fratura isolada do rádio distal (lesão fisária tipo II de Salter-Harris), em 22 (71%) dos pacientes.

As fraturas expostas ocorreram em 22 pacientes (71%), com a seguinte distribuição: 15 (48,4%) com exposição do úmero, sete (22,6%) apresentaram fratura exposta de um ou ambos os ossos do antebraço. A ex -posição simultânea do úmero e do antebraço ocorreu em dois pacientes. Quanto à classificação, todas foram do tipo I de Gustillo e Anderson. (Tabela 1).

Todas as fraturas expostas foram submetidas à fi -xação imediata na urgência com fios de Kirschner. Em dois pacientes (6,45%), optou-se pela redução incruenta seguida pela colocação de aparelho gessa-do axilopalmar para tratamento da fratura fechada do rádio distal. Em nenhum paciente foi empregado o tra-tamento conservador para ambas as fraturas de forma simultânea (Tabela 2).

Tabela 1 - prevalência da presença de exposição quanto à localização das fraturas.


Tabela 2 - tratamento empregado quanto à localização das fraturas e presença de exposição.


O método de fixação mais utilizado para o rádio dis-tal foram dois fios de Kirschner (93,54%), sendo um introduzido no estiloide radial e outro dorsalmente pelo tubérculo de Lister. Com relação às fraturas supracon -dilianas do úmero, 17 (54,8%) foram fixadas com fios cruzados, sendo um medial e outro lateral, enquanto que em 14 (45,16%) utilizou-se um fio intramedular seguido a outro introduzido através do epicôndilo lateral, o qual cruza o primeiro em um ângulo de 45 graus.

Complicações ocorreram em 12 pacientes com a se-guinte distribuição: consolidação viciosa (10%), lesão nervosa (6,0%), síndrome compartimental (3,0%), in -fecção no trajeto de pinos (16%) (Figura 1).


Figura 1 -Distribuição das complicações em pacientes portadores de cotovelo flutuante.fonte: AO tp, 1994/2007


A redução aberta da fratura supracondiliana do úme-ro foi realizada em 13 pacientes (41.93%), sendo res -ponsável pelos três casos de consolidação viciosa em varo submetidas a esse tipo de redução.

A lesão do nervo ulnar foi diagnosticada em dois pacientes (6,5%) ambos submetidos à fixação com fios cruzados a 90°. Nenhuma lesão neurológica foi associa -da ao trauma inicial.
A infecção no trajeto dos fios de Kirschner foi en-contrada em cinco pacientes (16,12%), a qual foi solu -cionada após a retirada dos mesmos.

Um paciente evoluiu com síndrome compartimental tra-tada com fasciotomia do antebraço na unidade de urgência.

DISCUSSÃO
O elevado número de casos, em comparação com os trabalhos publicados na literatura até então (1,2,4-7,12) , se deve ao fato de o nosso serviço ser o maior centro público de referência em traumatologia pediátrica, logo, grande número de lesões complexas, como cotovelo flutuante, nos são encaminhadas provenientes de todo o estado de Minas Gerais.

A predominância quanto ao gênero e o lado corrobo-ram os dados da literatura (2,6,12) . O predomínio das quedas de altura, principalmente árvores como mecanismo de predominante, reforçam que a associação de fratura de um ou ambos os ossos do antebraço com fratura supra -condiliana do úmero ipsilateral resulta de trauma de alta energia na maioria dos casos, uma vez que a força não é totalmente dissipada apenas pela primeira fratura (6) . Logo, a incidência de fraturas expostas encontradas (71%) foi muito maior quando comparadas as fraturas isoladas. Em uma meta-análise de 61 estudos, totalizando 7.212 fraturas supracondilianas do úmero, Wilkins (13) relatou incidência de 1% de fraturas expostas.

Da mesma forma, Harrington et al (1) afirmam que a redução aberta é mais realizada em pacientes portadores de cotovelo flutuante, isto porque a violência do trauma envolvido resulta em raturas com grande deslocamen -to e, com frequência, o fragmento proximal da fratura supracondiliana do úmero fica preso nos tecidos moles anteriores tornando impossível a redução fechada. Neste estudo, 41,93% (13 pacientes) das fraturas supracondi -lianas do úmero exigiram redução aberta.

O padrão de fratura de antebraço mais encontrado foi do rádio distal, o que vai de acordo com a literatura vigente (2,6,12) . Templeton e Graham (12) afirmaram que se a fratura do antebraço corre em seu terço proximal ou médio, o braço de alavanca criado é muito pequeno para gerar um momento de força necessário para produzir uma fratura de úmero ipsilateral.

Apesar de o tratamento conservador ter sido citado na literatura (7,8) , a maioria dos autores concorda que o tratamento cirúrgico é essencial (2,6,12,13) . A tração não possibilita uma redução Anatômica e o gesso em flexão, necessário pra conferir maior estabilidade às fraturas supracondilianas, é contraindicado devido ao acentuado edema presente, o que aumentaria o risco de síndrome compartimental. Além disso, há uma elevada incidência de cúbito varo associada ao tratamento conservador (9) . Neste estudo, nenhuma fratura supracondiliana do úme-ro foi tratada conservadoramente.

Templeton e Graham (12) afirmaram dar prioridade à fixação das fraturas supracondilianas do úmero, uma vez que as mesmas estavam associadas a um maior núme -ro de complicações. Ainda segundo esses autores, uma vez estabilizadas tais fraturas, o manejo das fraturas do antebraço torna-se mais fácil.

Dois pacientes foram submetidos à redução in-cruenta seguida da colocação do aparelho gessado axilopalmar para tratamento da fratura fechada do rádio distal. Harrington et al (1) afirmaram ter bom resultado com tratamento similar em quatro de 12 pacientes portadores de cotovelo flutuante. Entretan -to, a fixação de ambas as fraturas foi defendida por alguns autores (6,13) , pois, segundo os mesmos, possibi -litou melhor monitorização do status neurovascular do membro acometido, o que facilitou o cuidado das feridas cutâneas, no caso de fraturas expostas, e teve uma incidência menor de perda da redução quando comparada ao tratamento conservador.

Os métodos de fixação utilizados para tratamento das fraturas supracondilianas do úmero foram os se -guintes: fios cruzados, sendo um medial e outro lateral e um fio intramedular associado a outro introduzido pelo epicôndilo lateral. Houve duas lesões do nervo ulnar associadas à introdução do fio medial, sendo as mesmas consideradas iatrogênicas. Apesar de a fixação com fios
cruzados ser mais estável, existe, na prática, o risco au -mentado de lesão do nervo ulnar associado à passagem às cegas do fio medial (11,13) . Em nosso serviço, dá-se preferência, desde o ano 2000, pela utilização de um fio intramedular em associação com outro lateral, o qual cruza o primeiro com angulação de 45 graus. Excelentes resultados foram obtidos até o momento, sem nenhuma lesão neural relatada (14) .

A consolidação em varo da fratura supracondiliana do úmero foi encontrada em três pacientes, todos os quais tinham sido inicialmente submetidos à redução aberta. Tal fato pode ser explicado pela gravidade das fraturas que exigiram a redução supracitada, bem como uma redução inadequada por parte do cirurgião duran -te o ato operatório. Labelle et al (15) constataram que a
inclinação em varo do fragmento distal foi a causa da deformidade em todos os seus pacientes com cúbito varo após fratura supracondiliar.

Ao contrário do que foi citado na literatura, nenhu-ma lesão neurológica foi desencadeada pelo trauma ini-cial. Em uma série de oito casos de cotovelo flutuante, Templeton e Graham (12) Relataram duas lesões do nervo mediano, uma lesão do nervo interósseo anterior e uma do nervo ulnar. Segundo os mesmos autores, essa inci -dência foi elevada devido à própria gravidade do trauma e à lesão de alta energia resultante.


CONCLUSÕES
O cotovelo flutuante é uma lesão incomum na trau-matologia pediátrica. Na maioria das vezes, decorrente de um trauma de alta energia. O tratamento cirúrgico é preconizado para ambas as
fraturas pela maioria dos autores. A lesão do nervo ulnar esteve relacionada ao método de fixação, ao contrário do que é citado na literatura. Nenhuma lesão neurológica foi desencadeada pelo
trauma inicial.

REFERÊNCIAS

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2. Stanitski CL, Micheli LJ. Simultaneous ipsilateral fractures of the arm and forearm in children. Clin Orthop Relat Res. 1980;(153):218-22.
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4. Buckley SL, Gotschall C, Robertson W Jr, Sturm P, Tosi L, Thomas M, et al. The relationships of skeletal injuries with trauma score, injury se-verity score, length of hospital stay, hospital charges, and mortality in children admitted to a regional pediatric trauma center. J Pediatr Orthop. 1994;14(4):449-53.
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