IN MEMORIAN

No começo da noite de 14 de julho de 1994, ao surgirem nos céus de Paris os majestosos fogos de artifício que, todos os anos, comemoram a data da queda da Bastilha, a França perdia um grande professor de ortopedia e traumatologia. OS acidentados e deformados perdiam um grande cirurgião e os especialistas brasileiros perdiam um grande amigo.

Aquela hora, em que a multidão nos cais do Sena aplaudia o maravilhoso espetáculo, expirava o Professor Raymond Roy-Camille, Professor Titular de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Paris e Chefe do grande e modelar serviço especializado do complexo hospitalar Pitié Salpetrière, tão nosso conhecido e onde muitos jovens especialistas brasileiros completaram seus estudos, sob a orientação de tão distinto mestre.

Acometido de mal incurável com importante repercussão esquelética, que ele, de resto, tão bem conhecia e contra o qual tantas vezes lutou, Roy-Camille, enquanto lhe foi possível, travou o seu grande combate, em defesa própria, com exemplar coragem e grande determinação e com o mesmo otimismo que comunicava aos seus colaboradores, familiares e amigos, todos absolutamente conscientes da gravidade do seu estado.

A luta terminou naquela triste noite de 14 de julho. produzindo em todos os que tiveram o privi1égio de desfrutar da sua amizade uma profunda e sincera sensação de saudade.

Raymond Michel Marc Roy-Camille nasceu em Port au Prince, na Martinica, em 25 de abril de 1927. Orgulhava-se de sua origem e cidadania franco-latino-americana, à qual sempre aludia, nas conversas com os amigos, nos intervalos dos trabalhos hospitalares, nas conversas da "Salle de Garde" e, ultimamente, nos alegres almoços, cercado de colaboradores e alunos, no bistrô fronteiriço à Pitié.

Muito cedo sua família enviou-o a Paris, onde realizou seus estudos; vencidas as fases preliminares e ultrapassado o terrivel "BAC", Raymond identificou a medicina como sua vocação, ingressando na famosa Faculdade do Boulevard St. Germain, onde professavam oss grandes mestres franceses.

Logo inclinou-se pelos estudos anatômicos, deixando prever sua inclinação pela cirurgia.

Em 1955 era ajudante de Anatomia na respectiva Cátedra, passando a Prossector em 1957, Doutor em medicina, inclinou-se imediatamente pela disciplina que tão bem exerceu. Em 1958, já era chefe de clínica de um dos grandes serviços de Ortopedia e Cirurgia, sob a tutela do grande Robert Judet.

Em 1966, já era Maitrede Conferência e Professor Agregé d'Orthopédie et Traumatologie. Em março de 1971, deixou o serviço do Professor Judet no Hospital Raymond Poincaré, em Garches, notável centro de ensino da especialidade, para dirigir seu próprio serviço no recém-terminado Hospital de Poissy, como Professor Titular da Universidade de Paris Ouest.

Em outubro de 1976, assumiu finalmente o serviço do GrupoHospitalier Pitié Salpetrière.

Em 1991, atingia a posição de Professor a Título Excepcional, o mais alto grau na hierarquia universitária francesa.

Na sua carreira, obteve vários prêmios e distinções honoríficas, dentre elas: medalha de ouro do Concurso de Internato em Cirurgia, 1957; Prêmio de Tese, 1958: "Prêmio Le Denter" da Academia de Cirurgia, 1958.

Em 1979, foi incluido na Legion D'honneur, comochevalier, sendo promovido a oficial em 1992.

A lista de seus trabalhos é enorme: longe nos levaria sua enumeração, de resto de todos já amplamente conhecidos.

Foi, membro destacado da Sociedade Francesa de Cirurgia e Traumatologia, cuja Presidência exerceu em 1988.

Em nosso País, foi membro correspondente do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e da Academia Nacional de Medicina.

Na área intemacional, recebeu ainda a honra excepcional de ser convidado para Guest Speaker do Congresso de 1979 daAmerican Academy of Orthopedic Surgeons.

Foi conferencista de honra no Congresso da SICOT em Munique, em 1987.

Seu fiel amigo, colaborador e substituto, Gerard Saillant, afirmou em recente artigo intitulado simplesmente "Merci":

"Raymond Roy-Camille morreu a 14 de julho de1994; certamente ele permanecerá em todos nos como o "Senhor Raque", homem do pedículo vertebral, chefe da escola da Pitié, um dos ortopedistas franceses conhecidos e reconhecidos em todo o mundo.

"Para nós, que o acompanhamos quotidianamente, ele era o grande "Patron", mas era muito mais. Ele era aquela presença entusiasta e estimulante, aquele espírito curioso de tudo, triturador de idéias, sabendo colocar tudo em discussão, a começar por ele mesmo.

"Como todo "Patron", ele sabia criar, decidir, impor seus pontos de vistas, mas sem jamais castrar seus alunos; teve a inteligência de escutar sempre, de criticar às vezes, de adotar ou adaptar freqüentemente as idéias novas, fossem elas provenientes de jovens colegas que passavam cada ano no serviço ou de sumidades com quem ele se ombreava nos congressos intemacionais.

"Tudo isso numa convivência quase familiar.

"Esta amizade fiel estendia-se aos visitantes e aos estagiários de outros países - num serviço onde ninguém se sentia estrangeiro - todos eram imediatamente adotados, conquistador pelo charme do chefe. De volta aos seus países, tornavam-se os maiores embaixadores da ortopedia francesa."

O signatário deste necro1ógico, escrito com pesar e amizade, foi testemunha de todas as qualidades tão bem sintetizadas com simplicidade por Saillant.

Fui cliente freqüente de sua bondade e espirito universal. Mais de quinze ex-residentes meus vieram a Paris e, adotados por ele, completaram seus estudos na especialidade, compartilhando de todas as regalias e vantagens dos seus alunos franceses.

Muitos outros brasileiros de outras escolas também gozaram da sua hospitalidade.

Raymond Roy-Camille foi um homen alegre, aberto, entusiasta, comunicativo, que apreciava a vida e tudo o que era bom e elevado.

A Ortopedia brasileira e nosso País muito lhe devem. Agradecemos por isso.

É com o maior pesar que cumpro a missão e o dever de escrever este triste registro.

Paris, março de 1995
J.A. Nova-Monteiro