As coalizões tarsais são conhecidas desde 1750, tendo sido Buffon (7,9) o primeiro a descrever sua patologia anatômica.
A seguir vários autores (6-11) abordaram-na quanto aos seus aspectos anatomopatológicos e clínicos, tendo maior destaque o trabalho de Harris & Beath (3) , correlacionando as coalizões tarsais com o pé plano peroneiro espástico. Devido à grande freqüência desta associação, criou-se quase uma sinonímia entre estas patologias.
Tal fato não se mostrou totalmente verdadeiro; Simmons (12) , em 1965, relatou a presença de coalizão tarsal em pés varos. Apresentamos três casos, um deles bilateral, propondo chamar a atenção dos colegas ortopedistas para a possibilidade clínica de pés cavos varos com coalizões tarsais.
RELATO DOS CASOS
Caso 1 - M.C.C., sexo feminino, 16 anos de idade, cor branca. Dor em ambos os pés após longas caminhadas ou quando praticava exercícios físicos há cinco anos. Ao exame físico, notavam-se pés cavos com calcâneos varos, rigidez da articulação subtalar e presença de tumefação em face medial, inframaleolar do tornozelo.
As radiografias dos pés foram realizadas em ântero-posterior, perfil e axial posterior. Mostraram a presença de pés cavos, sugerindo barra óssea subtalar em faceta medial, a qual foi confirmada através da tomografia computadorizada.
Submetida a cirurgia há dois anos, quando realizamos a ressecção da barra óssea na faceta medial da articulação subtalar do pé direito. A paciente abandonou o tratamento, não retomando para novas avaliações e programação de cirurgia no outro pé.
Caso2 - C.L.Q., sexo feminino, 20 anos de idade, cor branca. História clínica de dor no retropé direito há seis anos, que piorava às longas caminhadas e corridas. Ao exame físico, observava-se pé direito cavo e varo, com presença de tumefação dolorosa a palpação na região medial e posterior do pé.
Quadro radiológico do pé cavo à direita semelhante ao caso 1, coalizão tarsal da faceta medial da articulação subtalar confirmada através de tomografia computadorizada.
No ato operatório, realizado há um ano, após a ressecção da barra óssea, notaram-se sinais de desgaste da cartilagem hialina da superfície articular subtalar, optando-se então pela artrodese dessa articulação. No momento, a paciente encontra-se evoluindo hem, sem queixas clínicas.
Caso 3 - M.I.E., sexo masculino, 15 anos de idade, cor parda. Queixa de nodulação no tornozelo direito, dolorosa aos esforços físicos e prática esportiva há dois meses. Ao exame físico, presença de saliência medial inframaleolar no tornozelo direito, pés cavos varos bilateralmente e limitação dos movimentos da articulação subtalar apenas no pé direito.
Quadro radiológico e tomográfico semelhante aos demais casos.
Operado há seis meses, quando realizamos ressecção da barra óssea da faceta medial da articulação subtalar. No momento, encontra-se assintomático e com retorno da mobilidade da articulação talocalcaneana.
DISCUSSÃO Apesar de vários autores (1,2,4-7,9,10,13) citarem que as coalizões tarsais podem levar a pés clinicamente cavo ou varo, enfatiza-se a significativa presença de pés planos peroneiros espásticos.
Na literatura revista, apenas o trabalho de Simmons (12) fez referência a três pacientes apresentando pés cavos tibiais espásticos associados à coalizão tarsal calcaneonavicular.
No nosso estudo, todos os pacientes apresentavam pés cavos varos dolorosos e rígidos e as coalizões tarsais localizavam-se na faceta medial da articulação subtalar.
Em dois dos nossos pacientes (casos 1 e 3), optou-se pela ressecção simples da barra óssea. A paciente (caso 1 ) tinha coalizão tarsal em ambos os pés, mas somente um pé foi operado, uma vez que a mesma abandonou o tratamento, não retomando ao nosso serviço.
Na outra paciente (caso 2), em função de encontrarmos sinais degenerativos osteoarticulares, realizamos artrodese da articulação talocalcaneana.
Hoje encontramos maior número de coalizões tarsais devido ao advento da tomografia computadorizada, que facilitou o diagnóstico.
Embora a maior freqüência das coalizões tarsais ocorra em pés clinicamente planos e rígidos, não podemos esquecer que as coalizões tarsais podem associar-se a pés cavos dolorosos com limitação nos movimentos do retropé em pacientes adolescentes e jovens.
2. Dwyer, F.C.: Causes, significance and treatment of stiffness of the subtaloid joint. Proc R Soc Med 69: 97-102, 1976.
3. Harris, R.I. & Beath, T.: Etiology of peroneal spastic flatfoot.J Bone Joint Surg [Br] 30:624-634, 1948.
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5. Mann, R.A. & Baumgarten, M.: Subtalar fusion for isolated subtalar disorders. Preliminary report. Clin Orthop 226:260-265, 1988.
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