A adolescência está situada entre dez e 20 anos de idade. O adolescente ou "aborrescente" vive numa transição entre a infância e a vida adulta, tornando-se um reivindicador, cujos questionamentos, apesar de não serem totalmente aceitos, são em sua grande maioria justos.
A Unidade Clínica de Adolescente (UCA) do Hospital Universitário Pedro Ernesto, criada em 1974, foi o primeiro serviço especializado na atenção ao adolescente do Estado do Rio de Janeiro, desenvolvendo um trabalho em equipe multidisciplinar que, através das avaliações clínics e psicossocial, permite visão global da saúde e da doença do adolescente.
COMENTÁRIOS
Atualmente, a UCA é um serviço reconhecido nacional e internacionalmente como referência para atendimento de adolescentes e para treinamento de profissionais que desejam dedicar a atenção a essa população (3) .
Em sua estrutura, compõe-se de três setores que atuam de acordo com o grau de complexidade dos problemas apresentados:
Atenção primária - Conta com ambulatórios avançados, ultrapassando os muros do hospital, ocupando-se dos seguintes programas: saúde escolar, sexualidade, saúde oral, saúde ocupacional e saúde comunitária;
Atenção secundária - Destina-se ao atendimento ambulatorial do adolescente afetado em seu estado de saúde, que necessita de estrutura de serviço de saúde mais complexa capaz de dar resolução e/ou acompanhamento a esse adolescente. Para esse fim, conta com um prédio anexo ao Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) com três andares, chamado de Pavilhão Floriano Stoffel (PFS), realizando 25.000 consultas por ano, com equipe multidisciplinar composta por médicos, enfermeiros, odontólogos, assistentes sociais, psicólogos, nutricionistas, fonoaudiólogos e funcionários administrativos;
Atenção terciária - É realizada na enfermaria Aloysio Amancio da Silva, localizada no 3º andar do HUPE, onde são internados adolescentes de todas as especialidades médico-cirúrgicas instaladas na HUPE; consta de 20 leitos e é local de referência nacional para internação de adolescentes com problemas complexos de saúde.
O setor de Ortopedia e Traumatologia de adolescentes foi criado em 1986 e realiza serviços de atenção secundária e terciária.
No período de 1986 a 1994, foram feitas 6.000 consultas ortopédicas. Os problemas ortopédicos mais freqüentes, em ordem decrescente, foram: escoliose idiopática; doença de Scheuermann; doença de Osgood-Schlatter; epifisiolistese proximal do fêmur osteomielite crônica; desvios angulares de membros inferiores; traumatologia em geral; tumores ósseos benignos.
Com relação aos procedimentos cirúrgicos, foram efetuadas 176 cirurgias ortopédicas, sendo as mais freqüentes, em ordem decrescente, cura cirúrgica de osteomielite; epifisiodese proximal do fêmur e osteossínteses.
Foram ou estão sendo tratados 96 pacientes com deformidade da coluna vertebral com colete de Milwaukeeou OTLS. Com relação à atenção secundária, alguns trabalhos têm sido desenvolvidos (4-6,8,9) , merecendo maior destaque o exame rotineiro da coluna vertebral do adolescente (5) , que se reveste da maior importância na detecção da escoliose idiopática. Para os pacientes portadores de deformidades da coluna vertebral que necessitem usar colete de Milwaukeeou OTLS, existe convênio firmado com a Associação Brasileira Beneficence de Reabilitação (ABBR) e a Legião Brasileira de Assistência (LBA), para onde são encaminhados os adolescentes que não possuem recursos financeiros (a grande maioria), realizando suas órteses sem qualquer custo. Sem esse trabalho de cooperação com a ABBR e a LBA, o paciente de baixo poder aquisitivo não poderia seguir tratamento ortopédico.
No que se refere à atenção terciária (1,2,7) , de acordo com nossa ótica, é onde atua decididamente o setor de ortopedia e traumatologia, pois a UCA é um dos poucos centros onde se recebe e se trata os adolescentes portadores de osteomielite crônica (a maioria vinda de outros centros). Este é um problema da maior gravidade, pois o paciente portador de osteomielite, antes de chegar à UCA, percorreu vários hospitais, não obtendo a internação tão desejada. O adolescente é internado e submetido a tratamentos clínico e cirúrgico, sendo o de maior permanência hospitalar, pois sua alta está condicionada à cura clínica.
Apesar da crise do sistema de saúde, a enfermaria de adolescentes é hoje uma das mais confortáveis e bem equipadas do HUPE, através de recursos provenientes, na sua quase totalidade, da iniciativa privada. A enfermaria desenvolve atividades rotineiras em todas as unidades acadêmicas do centro biomédico e com unidades de outros setores, como é o centro dos cursos de serviços sociais, educação, filosofia, comunicação social, informática, matemática e estatística.
A atenção terciária desenvolve atualmente o projeto de resiliência (mecanismo de adaptação à doença crônica), inserido em uma rede internacional de grupos de pesquisa sobre o tema.
CONCLUSÃO
A UCA é parte integrante do Departamento de Medicina Interna da Faculdade de Ciências Médicas - UERJ. Desde sua criação, em 1974, a UCA busca desenvolver propostas acadêmicas renovadoras na área de atenção integral à saúde do adolescente.
Com a divulgação destes fatos, é nossa intenção despertar no colega ortopedista a idéia da setorização da ortopedia do adolescente, como já ocorre com a ortopedia pediátrica, pois a adolescência é uma fase da vida que concentra inúmeras patologias ortopédicas.
2. Elias, N., Almeida, A. L., Oliveira, L.P. & Mesquita, K.C.: Epifisiolistese proximal do fêmur: fixação "in situ" com um único parafuso. Rev Bras Ortop28: 829-832, 1993.
3. ____: Projeto Maisa II - Modelo de atenção integral à saúde do adolescente, UERJ, n° 1, 1987.
4. Elias, N., Cavalcante, M.A., Oliveira, L.P, & Mesquita, K.C.: Doença de Osgood-Schlatter: tratamento conservador com dispositivo infrapatelar. Rev Bras Ortop 27: 454-456, 1992.
5. Elias, N., Enokibara, R.T., Almeida, A.L. & Oliveira, L.P.: Cifose de Scheuemnann: resultados tardios após uso do colete de Milwaukee. Rev Bras Ortop 28: 224-226, 1993.
6. Elias, N., Gameiro, U.S., Enokibara, R.T. & Gouveia, B.U.F.: Cifose de Scheuermann, resultados precoces com uso do colete de Milwaukee. Rev Bras Ortop 25: 229-234, 1990.
7. Elias. N., Paiva, R., Bueno, A.C. & Mesquita, K.C.: Epifisiolistese proximal do fêmur. Rev Bras Ortop 23: 129-132, 1988.
8. Elias, N. & Teixeira, J.C.M.: Escoliose idiopática do adolescente. Diagnóstic precoce através do exame ortopédico rotineiro. Rev Bras Ortop 27: 275-277, 1992.
9. Elias, N., Teixeira, J.C.M., Fernandes Jr., N.O. & Oliveira, L.P.: Tratamento conservador da doença de Osgood-Schlatter. Rev Bras Ortop 26: 216-218, 1991.