a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), São Carlos, SP, Brasil b Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Campus Baixada Santista, Santos, SP, Brasil
A hipercifose torácica entre mulheres pode ocorrer em decor-rência do envelhecimento e de algumas condic¸ões de saúde, tais como a osteoporose. 1-3 Kado et al. 3 verificaram, em um estudo de coorte retrospectivo com 1.196 mulheres, que a pro-gressãodahipercifose pode ser resultadode múltiplos fatores, dentre eles: idade, fraturas vertebrais, baixa densidade mine-ral óssea, doenc ¸adegenerativadodisco intervertebral, história familiar de hipercifose e perda de massa corporal.
A diminuic¸ão de massa e forc¸a muscular que acompanha o envelhecimento tem sido associada com o aumento do grau de cifose torácica, 2 jáque a estabilizac ¸ãoda coluna, favorecida pela massa muscular, pode ser importante para diminuir a incidência de deformidades posturais. 2 e fraturas vertebrais. 4
Granito et al. 5 verificaram que o torque muscular con-cêntrico e excêntrico de extensores de tronco apresenta correlac¸ão significativa comograude cifose torácicaentre ido-sos e diferenc¸a significativa entre mulheres idosas com e sem osteoporose. Ainda, homens e mulheres podem apresentar perdade torquemuscular isométrico, concêntricoeexcêntrico com o envelhecimento, 6 decorrente da perda de massa mus-cular e/ou diminuic¸ão da capacidade de os músculos gerarem tensão. 7 Sinaki et al. 8 verificaram que os homens apresenta-ram perda de 64% de torque muscular de extensores de tronco entre a quarta e a nona décadas de vida e as mulheres apresentaram uma perda de 50,4% entre a quinta e a nona décadas.
Assim, o objetivo deste estudo foi analisar os efeitos do envelhecimento no grau de cifose torácica e no pico de torque flexor e extensor do tronco entre mulheres saudáveis sem diagnóstico densitométrico de osteoporose. A hipótese do estudo consiste em que há aumento do grau de cifose torá-cica e diminuic¸ão do torque flexor e extensor do tronco com o avanc¸o da idade.
Materiais e métodos
Trata-se de um estudo transversal, conduzido entre mulheres sem doenc¸as ortopédicas, neurológicas ou cardiovasculares, de diferentes faixas etárias. Foram recrutadas 30 mulheres e distribuídas, de acordo coma idade, emtrês diferentes grupos.
Grupo mulheres jovens (n=10): entre 20 e 30 anos;
Grupo mulheres adultas (n=10): entre 40 e 50 anos;
Grupo mulheres idosas (n=10): acima de 65 anos.
Todas as participantes foram esclarecidas sobre os procedimentos do estudo, concordaram em participar volun-tariamente e assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Universidade Federal de São Carlos (88/2005) e está de acordo com a resoluc¸ão 196/96 do Conselho Nacional de Saúde e com a Declarac¸ão de Helsinki.
Inicialmente, todas as participantes foram submetidas a uma avaliac¸ão geral dos critérios de inclusão e exclusão, por um fisioterapeuta, na qual foram feitas uma anamnese, para coleta de dados pessoais e de saúde, e avaliac¸ão física, que constou de verificac¸ão da massa corporal (Kg) e da altura (m).
O índice de massa corporal (IMC) foi calculado com a divisão da massa corporal (kg) pela altura ao quadrado (m 2 ). 9
Foram incluídas mulheres brancas, não fumantes, seden-tárias. Foram consideradas sedentárias aquelas que fazem menosde150minutosdeatividade físicapor semana.10Foram excluídas as mulheres que apresentaram doenc¸a musculoes-quelética ou neurológica que pudesse comprometer a func¸ão sensorial oumotora, déficits cognitivos, usodedrogas que afe-tam o sistema nervoso central ou controle postural (sedativos, ansiolíticos), uso de drogas que comprometem a forc¸a mus-cular (corticosteroides), artralgias nos membros inferiores e diagnóstico densitométrico de osteoporose (t < -2,5) ou outras desordens na coluna vertebral lombar.
A avaliac¸ão de densitometria foi feita por meio de um densitômetro computadorizado com método de absorc¸ão de raios-X de dupla emissão da Lunar DPX-L-Equipment (Lunar, Madison,WI, USA) no Instituto Romeu Santini; e exame radio-gráfico da coluna torácica para determinar a medida da cifose torácica, feito no Centro Integrado deDiagnóstico por Imagem (CIDI).
Posteriormente as voluntárias foram submetidas a uma a avaliac¸ão do pico de torque concêntrico (PTC) e do pico de tor-que excêntrico (PTE) de flexores e extensores de tronco, por meio do dinamômetro isocinético Biodex Multi-Joint System 3 (Biodex Inc., Chattanooga, USA). Inicialmente, as participan-tes fizeram um aquecimento de cinco minutos em bicicleta ergométrica na velocidade de 25km/h. Em seguida, foram posicionadas sentadas, com 90 ? de flexão de quadril, na cadeira do dinamômetro. A estabilizac¸ão foi feita por meio de um dispositivo para fixac¸ão dos joelhos a 90 ? de flexão e fai-xas na região do quadril, terc¸o médio da coxa e tórax. O eixo do dinamômetro foi posicionado no espac¸o intervertebral de L5-S1, para avaliac¸ão da flexão e extensão de tronco. 11
Foramfeitas três contrac¸ões concêntricas e três contrac¸ões excêntricas para os movimentos de flexão e extensão de tronco para determinar o pico de torque. As avaliac ¸ões foram feitas por uma amplitude de movimento de 20 ? (entre 10 ? de flexão de tronco e 10 ? de extensão de tronco). O coefici-ente de correlac¸ão teste/reteste foi maior entre as mulheres. 11 As avaliac¸ões foram feitas para as velocidades de 20 ? /s e 45 ? /s, que correspondem a tempos significativos de movi-mento funcional do tronco. A velocidade de 10? /s sugerida por Dvir e Keating.11não foi bem tolerada pelas participantes em um estudo-piloto e não foi adotada no presente estudo. Um intervalo de descanso de 30 segundos foi mantido entre os testes.
Todos os testes foram feitos pelo mesmo examinador e as participantes foram encorajadas a fazer a flexão e a extensão de tronco com a máxima forc¸a possível. Foram per-mitidas duas repetic¸ões livres, antes do teste efetivo, para familiarizac ¸ão com o equipamento. Foi usado para as análises o pico de torque normalizado pelo peso corporal.
Os exames de radiografia da coluna torácica foram feitos em vista lateral. Os filmes de radiografia foram usados para medida do grau de cifose, que foi determinado com o uso do ângulo de Cobb. 12 A técnica radiográfica foi feita no período matutino, pela mesma pessoa, com experiência de sete anos nesse tipo de avaliac¸ão, e foi empregada com precisa atenc¸ão para evitar variac¸ões da postura que pudessem afetar o grau de cifose.

Análise estatística
Os dados estão expressos em média±desvio-padrão. Todas as análises foram feitas por meio do software Statistica 7.0 (Copyright Statsoft Inc 1984-2004) e se considerou um nível de significância de 5% (p=0,05). Inicialmente, a distribuic¸ão dos dados quanto à normalidade foi avaliada pelo teste de Shapiro-Wilks. Como foi constatada distribuic¸ão não nor-mal, as diferenc¸as entre os grupos em relac¸ãoaograude cifose torácica, pico de torque de flexão e extensão de tronco foram determinadas pelo teste não paramétrico Anova de Kruskal-Wallis. Quando o efeito principal foi significativo, comparac¸ões por pares foram feitas com o uso do ajuste de Bonferroni para comparac¸ões múltiplas. Correlac¸ões entre as variáveis foram determinadas pelo coeficiente de correlac¸ão de Pearson, r=0,10 a 0,30 classificado como fraco, r=0,40 a 0,60 moderado e r=0,70 a 1 forte. 13
Resultados
A tabela 1 apresenta os resultados de caracterizac¸ão dos gru-pos, ou seja, idade, massa corporal, altura e índice de massa corporal (IMC).
A tabela 2 apresenta os valores de grau de cifose torácica, pico de torque isocinético concêntrico (PTC) e excêntrico (PTE) para os músculos extensores e flexores de tronco nas veloci-dades de 20 o /se45 o /s. Observa-se aumento significativo do grau de cifose torácica e diminuic¸ão significativa no pico de torque concêntrico e excêntrico de extensores de tronco nas velocidades de 20 o /se45 o/s no grupo de mulheres idosas em relac ¸ão ao grupo de mulheres jovens e no pico de torque con-cêntrico e excêntrico de flexores de tronco nas velocidades de 20 o /se45 o /sno grupodemulheres adultas e idosas em relac ¸ão ao grupo de mulheres jovens.
A tabela 3 apresenta as relac¸ões, em porcentagem, entre os torques extensor e flexor do tronco, nos diferentes gru-pos de voluntárias, durante ac¸ões musculares concêntricas e excêntricas, nas duas velocidades do teste isocinético. Não foi observada diferenc¸a significativa entre as relac¸ões de pico de torque extensor/flexor entre os grupos.
A tabela 4 apresenta as relac¸ões, em porcentagem, entre os torques obtidos durante as contrac¸ões excêntricas e con-cêntricas, nos diferentes grupos de voluntárias, na avaliac¸ão dos músculos extensores e flexores do tronco e nas duas velocidades do teste isocinético. Não foi observada diferenc¸a significativa entre as relac¸ões de pico de torque excên-trico/concêntrico entre os grupos na velocidade de 45 ? /s. A relac¸ão entre as contrac¸ões excêntricas e concêntricas na velocidade de 20 ? /s foi maior no grupo de mulheres idosas, em comparac¸ão com o grupo de adultas (extensores) e com o grupo de jovens (flexores), o que indica menor perda propor-cional de forc¸a excêntrica com o envelhecimento.

A tabela 5 apresenta os resultados das análises de correlac¸ão entre a idade com grau de cifose torácica e pico de torque. A idade apresentou correlac¸ão positiva significa-tiva com grau de cifose torácica e correlac ¸ão negativa com o pico de torque concêntrico e excêntrico de flexores e extenso-res de tronco nas duas velocidades. A correlac ¸ão entre idade e pico de torque de flexores de tronco pode ser considerada forte para as duas velocidades.
Discussão
Observou-se no presente estudo aumento do grau de cifose torácica no grupo de mulheres adultas e idosas em relac ¸ão às jovens. Ainda, observou-se correlac¸ão moderada (positiva) entre grau de cifose torácica e idade, o que indica que o envelhecimento pode levar ao aumento do graude cifose torá-cica. No estudo de Granito et al., 5 o grau de cifose torácica apresentou correlac¸ão (negativa) com a densidade mineral óssea, o que indica que a massa óssea pode contribuir para o aumento do grau de cifose torácica. Ainda, Cortet et al. 14 fizeram um estudo com vistas a comparar as curvaturas da coluna vertebral de mulheres com e sem osteoporose. Foram avaliadas 98 mulheres pós-menoupásicas, dentre as quais 51 tinham diagnóstico densitométrico de osteoporose e pelo menos uma fratura vertebral e 47 foram incluídas no grupo controle. Os autores verificaram um aumento significativo do grau de cifose torácica nas mulheres com osteoporose (63 ?± 13 ? ) com relac ¸ão às mulheres sem osteoporose (52 ?±11 ? ). 14 Entretanto, os dados desse estudo demonstram que não só a massa óssea e, consequentemente, as fraturas de compressão presentes entre mulheres com osteopenia/osteoporose são responsáveis pelo aumento do grau de cifose torácica entre idosas, uma vez que foram incluídas apenas mulheres sem diagnóstico densitométrico de osteoporose. Fon et al. 15 anali-saramograude cifose torácicade 316 indivíduos considerados normais, com idade entre2e77anos. A partir da análise de radiografias do tórax, pela modificac ¸ão do método de Cobb, concluíram que o envelhecimento determina um aumento do grau de cifose torácica. Milne e Williamson. 16 e Bartynski et al. 1 também demonstraram a progressão da cifose torácica com o avanc¸ar da idade de indivíduos de ambos os sexos, o que corrobora os nossos resultados.
No presente estudo, verificamos que o torque muscular concêntrico e excêntrico de extensores de tronco apresentou diminuic¸ão significativa para as idosas em relac¸ão às jovens. Entretanto, paraosflexoresde tronco, observou-sediminuic¸ão significativa entre as adultas e idosas em relac¸ão às jovens. Observou-se com a idade correlac¸ão forte (negativa) entre fle-xores de tronco e moderada (negativa) para extensores.
A reduc¸ão no torque extensor com o avanc¸ar da idade, verificada neste estudo, também foi observada em diferentes estudos. Sinaki et al. 8 identificaram uma perda de 50,4% do picode torqueextensor de troncoentreaquintaeanonadéca-das de vida. Singh et al. 17 observaram uma perda de 46% do pico de torque entre a terceiraeasextadécadas de vida. Lim-burg et al. 18 verificaram uma reduc¸ão progressiva do torque extensor do tronco nas sucessivas décadas de vida.
Por outro lado, os dados presentes apresentam correlac¸ão forte de torque de flexores de tronco com idade, o que indica importante perda de forc ¸a de flexores de tronco entre mulheres com o aumento da idade. Ainda, mulheres adul-tas apresentaram diferenc ¸a significativa em relac¸ãoàsjovens para pico de torque de flexores de tronco, o que não foi obser-vado para músculos extensores de tronco.
Entre mulheres, a gestac¸ão pode comprometer a integri-dade dos músculos flexores de tronco, o que constitui mais um fator que pode contribuir para a diminuic¸ão do tor-que muscular com o envelhecimento, evidente entre 40 e 50 anos. Segundo Liaw et al., 19 déficits estruturais e funcionais dos músculos abdominais persistem seis meses pós-parto. A recuperac¸ão incompleta da integridade (distância) da linha alba pode determinar um déficit mecânico e resultar em reduc ¸ãoda capacidadedamusculaturaabdominal deproduzir forc ¸a. 19
Apesar da diminuic¸ão de torque muscular tanto de exten-sores quanto de flexores de tronco com o envelhecimento, foi mantida a mesma relac ¸ão entre torque extensor/flexor nas diferentes faixas etárias. Portanto, o envelhecimento não determinou um desequilíbrio entre os grupos musculares. Por outro lado, observou-se uma menor perda proporcional de forc ¸a excêntrica com o envelhecimento, especialmente para os extensores e flexores de tronco a 20 ? /s.
NoestudodeLindleet al.6 asmulheres apresentaramperda de forc¸a isométrica, concêntrica e excêntricadopicode torque de extensão de joelho. Entretanto, a variac¸ão no pico de tor-que excêntrico foi menor. As mulheres apresentaram melhor preservac¸ão da qualidade da contrac¸ão muscular para pico de torque excêntrico.
Os mecanismos de preservac¸ão da forc¸a excêntrica entre idosos parecem ser de origem mecânica e celular e incluem elementos ativos e passivos de regulac¸ão da resistência mus-cular àdeformac¸ão. Durante a contrac¸ãoexcêntrica, épossível desenvolver o mesmo torque de contrac¸ões isométricas e con-cêntricas, porém com um menor número de fibras motoras ativadas, para diferentes grupos musculares. O acúmulo de tecido não contrátil na unidade músculo-tendínea, relacio-nado a idade, pode oferecer uma vantagemmecânica durante as contrac¸ões excêntricas. 20 Como aspectos positivos do presente estudo podemos con-siderar o poder da amostra, que foi de 71%, calculado a partir dos dados da densidade mineral óssea das voluntárias, o que garante forc¸a para os resultados na generalizac¸ão dos dados para a populac¸ão geral. E ainda a medida de densidade mineral óssea por meio da densitometria óssea (DXA), que é considerada padrão-ouro para diagnóstico densitométrico de osteoporose não invasivo e tem sido usada para avaliar o risco de fraturana coluna, noquadril e emoutras regiões periféricas do esqueleto entre mulheres na pós-menopausa. 21,22
Conclusão
A principal limitac¸ão do nosso estudo foi que o fisioterapeuta responsável pelas avaliac ¸ões não foi cego, ou seja, não foi pos-sível omitir a alocac¸ão dos sujeitos entre os grupos. Futuros estudos, que incluam homens, são necessários para excluir fatores ligados ao sexo na determinac ¸ão dos efeitos do enve-lhecimento sobre o graude cifose torácica e o torque muscular de tronco.
Assim, os dados do presente estudo sugerem que o enve-lhecimento fisiológico entre mulheres pode ser responsável por um aumento do grau de cifose torácica e uma diminuic¸ão do torque extensor e flexor do tronco, com menor perda pro-porcional de forc¸a excêntrica.
Conflitos de interesse
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
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