INTRODUÇÃO

A partir de 1961, John Charnley difundiu o uso de uma prótese total do quadril baseada no princípio do baixo torque friccional, caracterizada pelo diâmetro reduzido da cabeça femoral (22mm) e componente acetabular com diâmetro externo máximo, aumentando, dessa forma, a relação cabeça-polietileno(2). Em sua experiência clínica, Charnley observou uma redução do desgaste volumétrico do polietileno, as-sim como uma medialização do centro de rotação da prótese, aumentando o braço de alavanca do momento abdutor. Entretanto, tal circunferência (22mm) prejudicaria o arco de movimento e a estabilidade entre os dois componentes, sendo necessário maior rigor no posicionamento cirúrgico dos componentes. A prótese de Charnley foi amplamente divulgada nos meios acadêmicos e é, ainda hoje, considerada uma boa opção entre as próteses cimentadas devido ao longo período de seguimento e bons resultados já descritos na literatura(1,7,10).

MATERIAL E MÉTODOS

Realizou-se um estudo retrospectivo de 115 artroplastias totais do quadril cimentadas tipo Charnley efetuadas em 88 pacientes, entre 1976 e 1991, no Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da FMUSP. Vinte e sete pacientes foram submetidos à artroplastia bilateral (30,6%). Houve pequeno predomínio quanto ao lado opera-do (52,3% à direita e 47,7% à esquerda). Houve predomínio do sexo feminino (56,8%). A idade dos pacientes variou entre 23 anos (artrite reumatóide juvenil) e 83 anos (fratura do colo femoral), com média de 56,4 anos.

A raça branca foi maioria com 60%, seguida da cor parda (20%), da raça negra (16%) e da raça amarela (4%). O tempo médio de seguimento foi de 11,8 anos, com variação entre 7,3 anos e 22,8 anos. A via de acesso mais utilizada foi a de Gibson modificada (93,0%), seguida pela via de Charnley (4,3%) e pela via de Hardinge (2,7%). Realizou-se antibioticoprofilaxia com cefalosporina de primeira geração com Keflin 1g EV de 6/6 horas até 48 horas de PO. O treino de marcha foi iniciado a partir do 7º dia de pós-operatório.

A avaliação clínica foi efetuada a partir da revisão dos prontuários, seguindo-se os critérios de Merle D'Aubigné(9). A avaliação radiológica foi acompanhada pelos critérios de Gruen, pelos quais se divide o fêmur em sete zonas de provável soltura(7).

Utilizamos também os critérios de soltura acetabular descritos por DeLee e Charnley, nos quais se divide o componente acetabular em três zonas(6). Foi admitida como sinal sugestivo de soltura uma linha de radioluscência maior que 2mm, ausente na radiografia imediatamente anterior. Os diagnósticos pré-operatórios estão relatados na tabela 1.

Houve sinais de soltura em 48 componentes acetabulares (41,7%), com tempo médio de soltura de 10,8 anos, com variação entre 1 ano e 17,2 anos. Houve predomínio de sol-tura nas três zonas (77% das solturas acetabulares). Observamos também soltura de ambos os componentes em 12 pacientes (19,3% dos casos de soltura).

RESULTADOS

A avaliação pré-operatória através do índice de Merle D'Aubigné apresentou 86,9% de resultados ruins e 13,1% de regulares. Após cirurgia, obtivemos 98,3% de resultados bons contra 1,7% de regulares.

Quanto à soltura do componente femoral, esta ocorreu em 38 casos (33,0%), havendo predomínio de soltura nas sete zonas (63,4%), seguido de soltura nas duas zonas (13,2%). A média do tempo de soltura foi de 10,9 anos, com variação entre 1 ano e 18,3 anos.

A tabela 5 relata as complicações ocorridas (13 pacientes). Nos casos em que houve infecção(4), realizaram-se limpeza cirúrgica e retirada das próteses, tendo sido feita revisão em apenas um caso. Nos casos de luxação(4), realizou-se redução incruenta com sucesso total. Realizou-se o diagnóstico de trombose venosa profunda em cinco pacientes, havendo melhora clínica após tratamento adequado.

DISCUSSÃO

Obtivemos 98,3% de bons resultados, o que está de acordo com os valores encontrados na literatura, como os descritos por Neumann (95%) e Hartofilakidis (93,3%)(8,10). No pre-sente trabalho, observamos 41,7% de soltura do componente acetabular, com uma média do tempo de soltura de 10,8 anos após cirurgia. Estes dados não foram verificados na literatura, nos trabalhos com tempo médio de seguimento semelhante ao presente estudo (mais que dez anos). Callaghan observou em um estudo de 116 próteses de Charnley, com mais de 15 anos de seguimento, um índice de soltura de 24% dos componentes acetabulares(2). Neumann, em uma série de 98 artroplastias, evidenciou 36,7% de soltura acetabular(10).


Quanto à soltura do componente femoral, esta ocorreu em 33,0% dos casos, com média do tempo de soltura de 10,9 anos após cirurgia. Em nossa revisão, observamos valores semelhantes com 32,6%(10) e 27,6%(8). Encontramos, porém, trabalhos com índices de soltura femoral inferiores aos já descritos, como 7%, fato atribuído pelo autor às melhorias na técnica de cimentação(2).

Observamos infecção pós-cirúrgica em 3,4% dos casos, valor este próximo ao encontrado por outros autores(1,2,10).

Observamos, em nosso estudo, 3,4% de luxação pós-ope-ratória, fato este encontrado na nossa revisão literária com valores de 3,9%(1) e 3%(2).

CONCLUSÕES

Baseados neste estudo retrospectivo e na nossa revisão literária, concluímos que a prótese cimentada de Charnley é uma boa opção entre as próteses cimentadas. Ressaltamos a importância de uma técnica cirúrgica adequada, que permita o posicionamento correto dos componentes, garantindo-se estabilidade da prótese.

REFERÊNCIAS

1. Beckenbaugh, R.D.: Total hip arthroplasty. A review of three hundred and thirty-three cases with long follow-up. J Bone Joint Surg [Am] 60: 306, 1978.

2. Callaghan, J.: Charnley total hip arthroplasty with use of improved techniques of cementing. J Bone Joint Surg [Am] 79: 53, 1997.

3. Charnley, J.: Arthroplasty of the hip. A new operation. Lancet 1: 1129, 1961.

4. Charnley, J.: Low friction arthroplasty of the hip. Theory and practice, 1979.

4. Charnley, J.: The long-term results of low-friction arthroplasty of the hip performed as a primary intervention. J Bone Joint Surg [Br] 54: 61, 1972.

5. DeLee, J.G.: Radiological demarcation of cemented sockets in total hip replacement. Clin Orthop 121: 20, 1976.

6. Gruen, T.: Modes of failure of cemented stem type femoral components. Clin Orthop 141: 17, 1979.

7. Hartofilakidis, G.: Charnely low-friction arthroplasty in young patients with osteoarthritis. Clin Orthop 341: 51, 1997.

8. Merle D'Aubigné, R.: Functional results of hip arthroplasty with acrylic prosthesis. J Bone Joint Surg [Am] 36: 451, 1954.

9. Neumann, K.: Long-term results of Charnley total hip replacement. J Bone Joint Surg [Br] 76: 245, 1994.