A origem do músculo psoas maior pode ser descrita como sendo composta por duas partes distintas: uma principal e outra acessória (5,7,8) .
Entretanto, ocorrem controvérsias quanto ao local de origem. Podem ser considerados para a porção principal a face lateral dos corpos vertebrais de T12 a L5 e os discos vertebrais correspondentes e, para a porção acessória, a face anterior dos processos transversos das vértebras lombares (2,3,5,7) . Para Testut & Latarjet (8) , a origem estaria na face ântero-lateral dos corpos vertebrais e dos discos intervertebrais de T12 a L4, na face anterior e borda inferior da décima segunda costela e nos processos costais das quatro vértebras lombares. Chiarugi (1) e Hollinshead (4), diferentemente, descrevem como sendo na face lateral do corpo vertebral de T12 a L4, na fibrocartilagem interposta e, ainda, ao longo do processo costal das cinco vértebras lombares.
Em secções de cadáveres de espessura de 2mm tratados pelo método de plastinação, notamos ser possível verificar a orientação dos feixes musculares e o local de origem e inserção dos músculos (6) . Dessa maneira, resolvemos estudar a origem do músculo psoas maior mediante essa técnica, com o intuito de verificar sua possível relação com o forame intervertebral.
MATERIAL E MÉTODO
Foram utilizados cinco cadáveres de indivíduos adultos, previamente fixados pelo método de infusão intraarterial de solução de aldeído fórmico. Após a exposição dos músculos psoas maior, direito e esquerdo, foi realizada dissecção inicialmente macroscópica e, em seguida, com o auxílio de microscópio estereoscópico (Zeiss), com o intuito de verificar as origens e a disposição dos feixes musculares.
Em sete cadáveres frescos, foi retirado em monobloco o conjunto da coluna vertebral desde T4 até a região sacrilíaca, nível S3-S4, incluindo o músculo psoas maior bilateralmente. Na seqüência, o monobloco foi mantido em temperatura de -20° C durante 72 horas e submetido a secções com o auxílio de serra de fita especial, com espessura de 2mm. Em quatro espécimes, o plano de secções foi paralelo ao eixo do músculo psoas maior e, em três, o eixo de secções foi transversal.
Os cortes obtidos foram processados segundo técnica de plastinação (6,9) , desidratados em acetona e submetidos a impregnação forçada com resina epóxi (Biodur), montados em câmara plana de dupla lâmina de vidro e colocados em estufa, a temperatura de 58" C, para cura do polímero.
Os cortes obtidos foram analisados com o auxílio de transiluminação, observando-se a orientação dos feixes musculares e as origens do músculo psoas maior.
RESULTADOS
Observamos em nosso material que o músculo psoas maior apresenta duas cabeças de origem, uma anterior e outra posterior.
A cabeça anterior origina-se nas faces ântero-laterais dos corpos vertebrais e dos discos intervertebrais de T12 a L4. Nas faces laterais dos corpos vertebrais, seus minúsculos tendões estão inseridos desde a borda cranial até sua borda caudal, continuando-se com a inserção na face lateral dos discos intervertebrais.
A cabeça posterior origina-se na face anterior dos processos costais de L1, L2 e L3 e ainda na décima segunda costela (figs. 1 e 2).
As cabeças anterior e posterior apresentam comunicações em suas fibras musculares; por conseguinte, essas origens envolvem os forames intervertebrais e, conseqüentemente, os nervos espinais (figs. 3 e 4).

DISCUSSÃO
A incorporação dos modernos métodos de imagem é uma realidade na prática médica. O impacto dessa técnologia sobre a acurácia diagnóstico e sua aplicação em procedimentos terapêuticos vem suscitando adaptações na adequação do estudo e ensino da Anatomia.
Os tortes tomográficos do corpo humano revelados pelo ultra-som, pela tomografia computadorizada e pela ressonância nuclear magnética parecem não guardar a mínima relação com as pegas disponíveis, de maneira geral, nos laboratórios de Anatomia.
Embora as secções totais de regiões do corpo não possam ser consideradas novidade (8) , cumpre salientar o problema da necessidade de tais cortes demandarem acondicionamento em recipientes especiais contendo soluções de fixação especiais ou ainda a manutenção em câmaras frigoríferas. Entretanto, nessas condições, as óbvias dificuldades de manuseio dos espécimes ocorreram e por muito tempo restringiram sua utilização como recurso de ilustração, acompanhado de distorção devida ao tempo de acondicionamento a que o espécime fora submetido.
O problema dos métodos e técnicas utilizados para a preservação de cadáveres ou de espécimes anatômicos tem constituído particular desafio para os morfólogos.
Os anatomistahá muito têm buscado uma técnica de preservação dos tecidos moles que resultasse em um espécime durável (sem o risco de putrefação), seco, que pudesse ser manuseável com facilidade e que não tivesse toxicidade (9) ou exalasse produtos irritantes.
A técnica de plastinação esta baseada na substituição da água e gordura tissulares por polímeros curavéis (3) .
O emprego da técnica de plastinação, para estudo anatômico nos vários segmentos do aparelho locomotor, permite a obtenção de cortes axiais que se assemelham aos fornecidos pelos modernos métodos de imagem, como tomografia computadorizada e ressonância magnética. Com isso, é interessante que o estudo dos vários segmentos anatômicos seja revisitado através dessa técnica, para que se faça a correlação entre imagem e corte anatômico.
Os cortes axiais do músculo psoas maior confirmaram as observações clássicas sobre a origem das duas cabeças do nervo, uma anterior e outra posterior (5,7,8) , também chamadas de principal e acessória.
Na origem da cabeça anterior, observamos pequenos tendões inserindo-se na face ântero-lateral dos corpos vertebrais e discos intervertebrais, enquanto que na cabeça posterior a origem dos processos costais de L1 e L3 foi bem evidenciada, ao contrário de algumas observações clássicas sobre sua origem nos processos transversos.
Um fato interessante observado, e que merece ser destacado, e a comunicação entre as fibras musculares das cabeças anterior e posterior com o envolvimento dos forames intervertebrais e, conseqüentemente, dos nervos espinais. Essa observação, não descrita de forma clara anteriormente, só foi possível com o estudo realizado pela técnica de plastinação.
Acreditamos que esta técnica abra vários campos da pesquisa em todas as áreas da ortopedia, em especial na de coluna vertebral, sendo interessante que os médicos se adaptem a essa nova forma de estudo.
2. Cunningham, D.J.: Anatomia humana, Barcelona, Manuel Marín, 1949. V. 2, p. 556-557.
3. Gray, H.: Anatomia,29ª ed., Rio de Janeiro, Guanabara-Koogan, 1977. p. 401.
4. Hollinshead, W.H.: Livro texto de anatomia humana, São Paulo, Harper & Row, 1980. p. 401.
5. Kapandji, I.A.: Fisiologia articular, São Paulo, Manole, 1987. V. 3, p. 94.
6. Rodrigues Jr., A.J.: Anatomia seccional dos membros revelada peIo método de plastinação. Folha Ortop Traum 3: 4, 1992.
7.Rouviere, H.:Anatomia humana, Madrid, Salvat, 1929. V. 2, p. 62-64.
8. Testut, L. & Latarjet, A.: Tratado de anatomia humana, Madrid, Salvat, 1954. V. 1, p. 991-994.
9. Von Hagens, G., Tiedemann, K. & Kriz, W.: The current potential of plastination. Anat Embryol 175: 411-421, 1987