INTRODUÇÃO

A necessidade da utilização de enxerto ósseo corticoesponjoso nas cirurgias reconstrutoras da porção anterior da coluna vertebral exige a remoção de grandes segmentos do osso ilíaco, que é uma reconhecida área doadora de enxerto ósseo. A remoção desses segmentos ósseos do ilíaco não está isenta de complicações, como hérnias abdominais(3,4), lesão do nervo cutâneo femoral lateral(10), hematoma local(13), instabilidade pélvica(5), dor à deambulação(6), alteração da sen-sibilidade(7) e deformidade local(14). Foram desenvolvidas várias técnicas de reconstrução dessa área doadora de enxerto ósseo, com a finalidade de prevenir algumas dessas complicações mencionadas. As técnicas de reconstrução desenvolvidas têm utilizado desde enxerto ósseo homólogo até biomateriais, para o preenchimento da falha óssea(1,8,11).

Temos utilizado, na medida do possível, o enxerto corticoesponjoso oriundo do osso ilíaco nas cirurgias reconstrutoras da coluna vertebral, devido a suas propriedades biomecânicas e capacidade de integração óssea. Desenvolvemos uma técnica para reconstruir a falha óssea criada no ilíaco durante a remoção do enxerto ósseo, que utiliza a costela do próprio paciente, a qual é retirada durante a realização da abordagem anterior da coluna(2) (toracofrenolombotomia e toracotomia) (fig. 1). 

O objetivo deste trabalho é apresentar a técnica que desenvolvemos para a reconstrução da área doadora de enxerto ósseo do ilíaco e os resultados clínicos e radiológicos de sua aplicação.

MATERIAL E MÉTODOS 

Material - A reconstrução da área doadora de enxerto ósseo do ilíaco com segmentos de costela foi realizada em 15 pacientes, submetidos à artrodese anterior da coluna vertebral (14 fraturas e 1 compressão do canal vertebral devido à fratura patológica). Dez pacientes eram do sexo masculino e cinco do feminino, com idade que variou de 19 a 65 anos (média de 36 anos).

Os pacientes foram avaliados clínica e radiologicamente, com o objetivo de estudar a integração e comportamento dos segmentos da costela e também a repercussão clínica da reconstrução realizada, avaliada por meio da dor, aparência e palpação do local e satisfação do paciente.

Técnica cirúrgica - A técnica de reconstrução do ilíaco utiliza a costela do próprio paciente, que é removida durante a realização da abordagem cirúrgica anterior da coluna vertebral, de modo que ela pode ser apenas realizada nos pacientes submetidos à toracotomia ou toracofrenolombotomia (fig. 1). 

A costela removida é dividida em dois segmentos, que são encaixados no local da retirada do enxerto do ilíaco. O primeiro segmento é encaixado no osso esponjoso do ilíaco e nessa etapa utiliza-se o segmento mais largo da costela, com a finalidade de restaurar a altura da falha óssea. O segundo segmento da costela é encaixado nas bordas superiores da falha óssea e é colocado perpendicularmente ao primeiro segmento. A restauração da superfície do ilíaco é facilitada pela forma e contorno da costela, que tem curvatura e torção semelhantes à superfície do ilíaco. Os dois segmentos da cos-tela são apenas encaixados sob pressão no ilíaco, não sendo necessário nenhum tipo de fixação adicional. (fig. 2).

RESULTADOS 

Os pacientes foram avaliados por período que variou de 6 a 16 meses (média de 10 meses). Somente um paciente apresentava dor leve, que se manifestava apenas à palpação do local da reconstrução, mas que não interferia em suas atividades e não necessitava do uso de medicamentos. Os demais pacientes não apresentavam qualquer tipo de sintomatologia dolorosa.

Todos os pacientes estavam satisfeitos com o aspecto cosmético. Não foi observada em nenhum paciente depressão da pele aós retirada do enxerto ósseio, que é aspecto característico dessa região.

A avaliação radiológica mostrou integração dos segmentos da costela em 13 pacientes (figs. 3,4,5 e 6). Foi observada em dois pacientes reabsorção da parte superior do segmento da costela, que estava afilado, mas apresentava continuidade com o osso ilíaco (fig. 7) Apesar desse aspecto radiológico, esses pacientes não apresentavam problemas clínicos e o resultado cosmético era bom.

DISCUSSÃO 

A reconstrução da porção anterior da coluna vertebral, que pode estar acometida em diferentes patologias (fraturas, tu-mores, patologias degenerativas, etc.)(1), está indicada com a finalidade de restaurar a capacidade de suporte de peso do segmento vertebral. O corpo vertebral é responsável pelo suporte de 90% do peso aplicado sobre a coluna vertebral(12). A utilização de enxerto ósseo corticoesponjoso, oriundo da crista ilíaca, tem sido uma boa alternativa para a reconstrução da porção anterior da coluna vertebral, por sua capacidade de suporte de peso e integração com o tecido ósseo adja-cente(9). O enxerto ósseo oriundo da fíbula é outra alternativa para a realização desse procedimento. Temos reservado sua indicação para as situações nas quais necessitamos de um enxerto ósseo de grande comprimento e é impraticável a utilização de osso da crista ilíaca(2).

Recentemente, surgiram outras alternativas não biológicas para a restauração da porção anterior da coluna vertebral, representadas pelas próteses de substituição do corpo vertebral e caixas ou gaiolas de metal, que têm maior resistência mecânica à colocação de forças(9) e evitam a remoção de grandes quantidades de osso da fonte doadora, cujas desvantagens já foram mencionadas. Em nosso meio ainda te-mos grande limitação para a utilização desses materiais, ape-sar de reconhecermos suas vantagens.

Na realização das cirurgias de reconstrução da porção anterior da coluna vertebral (artrodese anterior), despertou nossa atenção o fato de estarmos removendo a costela do paciente durante a realização do acesso anterior à coluna vertebral, sem sua utilização no decorrer do procedimento cirúrgico, enquanto deixávamos grande falha óssea no ilíaco, após a remoção do enxerto ósseo. Essa observação serviu como ponto de partida para utilizarmos a costela retirada durante o acesso cirúrgico na reconstrução da falha óssea do ilíaco. Ficamos surpresos com a facilidade do encaixe e fixação de seus fragmentos no ilíaco, além das facilidades que sua curvatura e sua torção trouxeram para a reconstrução da face mais externa e superficial do ilíaco.

A execução dessa técnica de reconstrução não tem apresentado problemas e os resultados clínicos e radiológicos observados têm sido muito satisfatórios, principalmente do ponto de vista cosmético. Não temos observado, nos pacientes em que ela foi utilizada, a depressão da pele no local da retirada do enxerto ósseo. No entanto, sua utilização apresenta algumas restrições e está condicionada à remoção da costela durante o acesso cirúrgico, não sendo possível sua realização nas abordagens anteriores da coluna vertebral por meio de lombotomias ou nas abordagens dos segmentos inferiores da coluna lombar.

A realização isolada dessa técnica de reconstrução não previne algumas complicações da remoção do enxerto da crista do ilíaco. Cabe ressaltar que, além da execução de técnica cirúrgica apropriada para a remoção do enxerto ósseo, outros cuidados também são muito importantes, como a não realização da incisão cirúrgica sobre as proeminências ósseas, com a finalidade de evitar cicatrizes dolorosas; exposição subperiostal da crista ilíaca para proteger o nervo cutâneo femoral e evitar sangramento excessivo(2).

Acreditamos que a reconstrução da área doadora de enxerto ósseo do ilíaco com segmentos de costela, segundo a técnica descrita, apresenta vantagens do ponto de vista clínico e é procedimento de menor custo, quando comparado com a reconstrução com materiais bioativos como as cerâmicas e hidroxiapatita(1). Os resultados a longo prazo definirão o destino dessa técnica, que certamente ainda poderá ser aprimorada e ampliada pela utilização de enxertos homólogos de costela.

REFERÊNCIAS

1. Asano, S., Kaneda, S., Satoh, S. et al: Reconstructions of iliac crest defect with bioactive ceramic prosthesis. Eur Spine J 3: 39-44, 1994.

2. Bauer, R., Kerschbaumer, F. & Poisel, S.: Orthopädische Operations-lehre-Wirbalsäule, Stuttgart, Georg Thieme Verlag, 1991. 553p.

3. Castelein, R.M. & Santer, A.J.M.: Lumbar hernia in an iliac bone graft defect. A case report. Acta Orthop Scand 56: 273-274, 1985.

4. Challis, J.H., Lyttle, J.A. & Stuart, A.E.: Strangulated lumbar hernia and volvulus following removal of iliac crest bone graft. Acta Orthop Scand 46: 230-233, 1975.

5. Coventry, M.B. & Toppes, E.M.: Pelvic instability. A consequence of removing iliac bone grafting. J Bone Joint Surg [Am] 54: 83-101, 1972.

6. Dawson, E.G., Lotysch, M. & Urist, M.R.: Intertransverse process lum- bar arthrodesis with autogenous bone graft. Clin Orthop 154: 90-96, 1981.

7. De Palma, A., Rothman, R., Lewinneck, G. et al: Anterior interbody fu- sion for severe cervical disc degeneration. Surg Gynecol Obstet 134: 755-758, 1972.

8. Hochschuler, S.H., Guyer, R.D., Stith, W.J. et al: Proplast reconstruction of iliac crest defects. Spine 13: 378-379, 1988.

9. Hollowell, J.P., Vollmor, D.G., Wilson, C.R. et al: Biomechanical analy- sis of thoracolumbar interbody constructs. Spine 21: 1032-1036, 1996.

10. Kambin, P.: Anterior cervical fusion using vertical self-locking T-graft. Clin Orthop 153: 132-137, 1980.

11. Lubicky, J.P. & De Wald, R.L.: Methylmethacrylate reconstruction of large iliac crest bone graft donor sites. Clin Orthop 104: 252-256, 1982.

12. Maiman, D.J., Pintar, F., Yogandan, N. et al: Effects of anterior vertebral grafting on the traumatized lumbar spine after pedicle screw plate fixa- tion. Spine 18: 2423-2430, 1993.

13. Stauffer, R.N. & Coventry, M.B.: Postero-lateral lumbar spiner fusion. J Bone Joint Surg [Am] 54: 1195-1204, 1972.

14. Wolfe, S.A. & Kowamoto, H.K.: Taking the iliac bone graft. A new tech- nique. J Bone Joint Surg [Am] 60: 411-413, 1978.