Jaffe, em 1935, após relatar cinco casos de tumor esclerosante dos ossos longos, propôs o nome osteoma osteóide por considerar ser esse um tumor osteoblástico benigno. Sua opinião era oposta à teoria infecciosa de origem bacteriana de Brailsford(2,7).
Em 1947, Sherman associou seus 30 casos com os da literatura chegando a um total de 157 casos. Apoiou também a diferenciação entre osteomielite e osteoma osteóide como entidades distintas(2).
O osteoma osteóide é lesão benigna característica com intensa área esclerótica periférica reacional e um nicho (nidus) central radiotransparente. Localiza-se principalmente no córtex diafisário de ossos longos(3,4), sendo raramente encontrado em ossos da pelve, em mandíbula, em patela e em ossos das mãos e dos pés.
Nosso trabalho tem como objetivo apresentar um relato de caso de osteoma osteóide de localização pouco usual. Fazemos também referência à importância do diagnóstico diferencial com as lombalgias, comparando sempre com os dados da literatura.
RELATO DO CASO
Paciente LCB, 21 anos, sexo masculino, procurou atendimento médico por lombalgia, tendo esse primeiro quadro de dor se iniciado em dezembro de 1991. O quadro clínico apresentou evolução de dois anos até que o paciente procurasse atendimento médico.
Referia que a dor era mais intensa na articulação sacroilíaca à direita, agravada pelo esforço físico e aliviada com o uso de AINES (piroxicam). Consultou vários especialistas sem obter um diagnóstico da sua patologia, até dezembro de 1993. Na radiografia simples de região sacroilíaca, em incidências de ântero-posterior e perfil, identificamos uma lesão radiopaca central com zonas de esclerose periférica (perifocal), na asa do osso ilíaco direito, sugerindo o diagnóstico de osteoma osteóide. O paciente foi submetido a vários exames por imagem, obtendo-se um resultado nítido na tomografia computadorizada (fig. 1).
Os exames laboratoriais foram normais; a pesquisa do HLA-B27, para a hipótese de espondilite anquilosante, foi negativa. O tratamento proposto foi a excisão “em bloco” completa do nidus, usando-se tomografia computadorizada com anestesia local para localizar a lesão. A cirurgia foi realizada sob anestesia geral em dezembro de 1993 (fig. 2). A certeza de remoção do nidus foi constatada pela radiografia da peça anatômica banhada em álcool absoluto para melhor contraste (fig. 3).

Fig. 1 - Tomografia computadorizada de paciente masculino de 21 anos portador de osteoma osteóide em osso ilíaco direito
Após a cirurgia, o paciente evoluiu com remissão completa dos sintomas. Apresenta-se assintomático após três anos do procedimento cirúrgico.
REVISÃO DA LITERATURA
O osteoma osteóide é uma neoplasia benigna, de diâmetro variando de 2 a 3cm, sem qualquer potencial maligno(3). No-venta por cento dos pacientes acometidos estão entre 5 e 25 anos de idade. Ocorre na proporção de dois a quatro homens para uma mulher(11).
As características clínicas são a dor, principalmente noturna, que se agrava aos esforços. É usualmente do tipo intermitente, seguida por períodos de dor mais constante e intensa por dois a quatro meses. Os antiinflamatórios não-este-róides têm grande efeito na diminuição da dor. Sensibilidade local aumentada pode ser comum(3,11).

Fig. 2 - Tomografia computadorizada. Observa-se a ressecção cirúrgica em bloco do nicho.

Fig. 3 - Radiografia da peça, imediatamente após ressecção, banhada em álcool absoluto. Observa-se todo o nicho dentro da peça.
Sinais de envolvimento neurológico são mais comuns em osteoma osteóide de coluna vertebral. A compressão da raiz nervosa pode ocorrer por ação da reação inflamatória local, apresentando irradiação para o metâmero envolvido, escoliose secundária a dor local e atrofia muscular(11).
Ao estudo radiográfico simples, observa-se esclerose perifocal com um nicho radiotransparente central. Entretanto, somente em 47% dos casos existe essa apresentação usual(18).
O tempo decorrido entre os primeiros sintomas e o diagnóstico final é geralmente de 17,9(18) a 27,3(11) meses. Diagnósticos equivocados de outras patologias são freqüentes, des-tacando-se dentre eles tuberculose, espondilite anquilosante, sarcoma osteogênico, artrite, escoliose, hérnia de disco, abscesso, outras lesões benignas ósseas e histeria(11).
Em geral, os osteomas osteóides têm cerca de 1cm de diâmetro e a maioria localiza-se no córtex de ossos longos, como tíbia e fêmur; contudo, podem ser encontrados no osso esponjoso ou perto do endósteo(9). O nicho propriamente dito é formado por tecido vermelho-acinzentado rígido, com consistência arenosa. Ao exame microscópico ele é formado inicialmente por delicadas trabéculas de osteóide rodeadas por osteoblastos e envoltos por estroma vascularizado de células fusiformes. Subseqüentemente, as trabéculas emaranhadas por osteóide tornam-se mais mineralizadas, ficando mais proeminentes sobre o estroma fibroso(4).
O osteoblastoma, denominado também osteoma osteóide gigante, semelhante ao osteoma osteóide, difere deste por ser puramente lítico, com aspecto celular semelhante, não apresenta sinais de esclerose, é maior que 2cm e não causa (1,2). Esse tumor só foi proposto como entidade patológica distinta em 1956, por Jaffe & Lichtenstein (apud(2)). Dez por cento desses tumores têm potencial maligno para osteossar-coma(4).
Quanto ao tratamento, é indicada a excisão cirúrgica do nidus, geralmente em bloco. Casos de recidiva com dor persistente são relatados pela literatura(1-4).
DISCUSSÃO
Em nosso caso, assim como na literatura, o paciente consultou vários especialistas até a obtenção do diagnóstico, comprovado pelo estudo histopatológico. O osteoma osteóide como causa de lombalgia é encontrado em alguns relatos, porém não proposto como hipótese diagnóstica em crianças e adultos jovens, apesar de poder ser diagnosticado no exame radiográfico(13).
Entretanto, o exame radiográfico da coluna vertebral e articulação sacroilíaca pode ser de difícil interpretação, pois as lesões são pequenas, a zona de esclerose pode ser mínima e os gases intestinais podem obscurecer as mudanças patoló-gicas(11). A escoliose é um achado comum em osteoma osteóide em coluna vertebral, mas geralmente não é observada quando é atingida a região sacroilíaca.
Realizamos uma revisão bibliográfica no Medline e Lilacs latino-americano, obtendo 13 casos relatados como osteoma osteóide localizado em ilíaco desde 1945 até 1997(5,7,8,10,14-16).
A tomografia computadorizada, a cintilografia óssea e a angiografia da lesão também têm importância no seguimento e no diagnóstico diferencial com abscesso ósseo; no osteoma osteóide podemos constatar a evidência de uma artéria nutriente provocando a hipervascularização da lesão(12).
Nosso paciente enquadrou-se nas características mais prevalentes para sexo, idade, dor, exames de imagem e métodos de terapêutica que são observados nos indivíduos acometidos pela doença.
O diagnóstico diferencial foi feito após aproximadamente 24 meses, semelhante ao da literatura, de pesquisa diagnóstica clínica e laboratorial. Entre os exames investigados des-tacam-se a pesquisa do HLA-B27, fator reumatóide e outros exames hematológicos, sendo todos negativos.
A cura espontânea foi bem documentada em alguns traba-(7,17). Observa-se gradual desaparecimento da dor e dos achados radiológicos, apesar de que alguma esclerose poderá ainda permanecer. Geralmente, essa história natural da doença é imprevisível e prolongada, sendo indicada intervenção cirúrgica.
As recidivas de sintomas são apresentadas em alguns relatos, sendo indicada nova intervenção cirúrgica(2,6,10,17). Nosso paciente, no seguimento de três anos, não apresentou recidiva da dor.
AGRADECIMENTO
Agradecemos a colaboração do Prof. Alexandre David pelo auxílio no tratamento do paciente.
2. Byers, P.D. & McPath: Solitary benign osteoblastic lesions of bone. Cancer 22: 42-56, 1968.
3. Camargo, O.P.: “Tumores ósseos e lesões pseudotumorais”, in Ortopedia e traumatologia, Porto Alegre, Artes Médicas, 1995. Cap. 20, p. 304.
4. Cotran, R.S., Kumar, V. & Robbins, S.L.: “Sistema músculo-esqueléti-co”, in Patologia estrutural e funcional, Rio de Janeiro, Koogan, 1991. Cap. 28, p. 1087-1090.
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