O lipoma intra-ósseo é uma lesão benigna muito rara. Existem menos de 100 casos relatados na literatura. Sua incidência é menor que um em mil casos de Tu ósseos primários, 0,17% de todos os tumores benignos, segundo Richter et al.(3).
Os lipomas podem ser classificados, segundo sua localização, em: intra-ósseos, corticais e paraortais. Quanto ao lipoma intra-ósseo, temos como sítios de localização mais freqüentes a região subtrocantérica do fêmur, o calcâneo, o ílio e a tíbia proximal. A localização característica no calcâneo situa-se no triângulo de Ward.
A faixa etária acometida é entre 5 e 75 anos, com média de 37 anos, conforme estudos de Milgram et al.(2). Não há preferência por sexo e sua etiologia é desconhecida e controversa.
Os autores têm como objetivo relatar caso de lipoma in-tra-ósseo no calcâneo e sua evolução após cinco anos da cirurgia.
RELATO DO CASO
N.S., masculino, 34 anos. Em junho de 1992, apresentou discreto edema e dor no pé esquerdo. Realizou radiografia simples, que mostrou imagem de rarefação óssea de forma ovóide, com contornos nítidos, medindo cerca de 3,5 x 2cm de diâmetro, localizada na região ântero-inferior do calcâneo (fig. 1). Foi levado a tratamento cirúrgico em setembro de 1992.
Realizaram-se curetagem do tumor por abordagem medial do retropé e enxertia óssea autóloga de ilíaco.

O estudo anatomopatológico do material excisado revelou compatibilidade com lipoma intra-ósseo (fig. 2).
O paciente ficou imobilizado por 60 dias; apresentou boa evolução, com integração do enxerto ósseo no 3º mês pósoperatório (fig. 3); atualmente, apresenta-se assintomático, com integração completa do enxerto e preenchimento total da lesão (fig. 4).
DISCUSSÃO
A etiologia do lipoma intra-ósseo é ainda desconhecida e muito discutida. Algumas teorias incluem trauma e zonas de infarto ósseo(1,4). As manifestações clínicas normalmente são pobres, sendo muitas vezes um achado casual(1,4,5).

O principal diagnóstico diferencial é com o cisto ósseo simples, porém devemos citar os pseudocistos de calcâneo, o condroblastoma, artrite reumatóide, lesões da tuberculose crônica e alguns tumores malignos, como lipossarcoma(4).
A característica radiológica desta lesão é uma zona de calcificação central numa lesão lítica não agressiva com bordas bem definidas, que é encontrada em 80% destes casos. Outros exames podem ser úteis, como a tomografia computado-rizada(5). Porém, o diagnóstico de certeza é histológico(1), em que aparecem lóbulos de tecido adiposo maduro adjacentes a osso lamelar e necrose gordurosa(4).
O tratamento recomendado é cirúrgico, com a curetagem da lesão e enxertia óssea, com o objetivo de evitar fratura patológica e transformação maligna em lipossarcoma, o que ainda não foi descrito na literatura(1,4).
Manitz, U. & Lossnitzer, A.: An additional case of an interosseous lipoma of the proximal tibial. Beitr Orthop Traumatol 32: 204-206, 1985.
Milgram, J.W.: Intraosseous lipomas with reactive ossification in the proximal femur (report of eight cases). Skeletal Radiol 7: 7-10, 1981.
Richter, G.M., Ernest, H.U., Dinkel, E. & Adler, C.P.: Morphologie und Diagnostik von Knochentumoren des Fubes. Radiologe 26: 341, 1986.
Schneider, O., Mischo, J. & Pâuschel, W.: Intraosseous lipoma of the calcaneus. Chirurg 65: 74-76, 1994.
Schumacher, K.A., Reuther, G. & Friedrich, J.M.: Radiological diagnosis of intraosseous lipoma. Rofo Fortschr Geb Rontgenstr Nuklearmed 149: 286-288, 1988.