O ato de nadar é relatado desde os tempos da Grécia e Roma antiga(5). Platão escreveu que "o homem que não sabe nadar não é educado".
Com a evolução dos tempos, crescente número de pessoas utiliza a natação como esporte, visando manutenção da preparação física, recreação ou competição.
Nos Estados Unidos da América existem trabalhos que contabilizam 120 milhões de nadadores recreativos anual-mente(3,7).
A queixa de dor nos ombros é freqüente em inúmeras modalidades esportivas, como voleibol, judô e ginástica olím-(2,7,11,12); porém, na natação, a incidência de queixas dolorosas, que diminuem o rendimento esportivo(10) ou determinam o afastamento do atleta, parece ser alta.
Kennedy & Hawkins, em 1974(8), introduziram o termo "ombro do nadador", definido como uma tendinite do supraespinhoso e/ou do bíceps braquial. Os autores encontraram esta doença em cerca de 3% dos nadadores.
Os relatos mais recentes demonstram que a incidência de dor pregressa no ombro varia de 47 a 80%(1,3,4,6,9,10), enquanto os estudos relacionados à dor atual no ombro, de 13 a 26%(9).
O objetivo deste trabalho foi pesquisar a incidência de dor pregressa e atual nos ombros de nadadores brasileiros de elite, bem como correlacionar os achados dolorosos com fatores que possam influenciar nos resultados.
MATERIAL E MÉTODO
Durante a realização do Troféu Brasil de Natação, em agosto de 1998, no Conjunto Esportivo Constâncio Vaz Guimarães, em São Paulo, foram avaliados 205 nadadores brasileiros, segundo um protocolo preestabelecido, aplicado para todos os atletas, que representam a realidade da natação de elite brasileira.
O protocolo constou da identificação dos nadadores, pesquisa dos melhores tempos e estilo, questionamento da presença ou não de dor anterior e pregressa no ombro, bem como a demonstração por meio de desenho do local doloroso na articulação do ombro.
A dor atual foi definida como um quadro álgico no ombro durante a competição.
Os atletas examinados eram considerados os melhores nadadores provenientes de 29 clubes de diversas cidades, divididos em nove Estados do Brasil.
Com relação ao sexo, 110 (53,7%) eram do masculino e 95 (46,3%) do feminino.
A idade variou de 13 a 29 anos, com média de 19 anos. O peso variou de 44 a 100 quilos, com média de 67,2 quilos. Quanto à altura, variou de 1,52 metros a 2,00 metros, com média de 1,75 metros.
O lado dominante foi o direito em 182 (88,8%) nadadores e o esquerdo em 23 (11,2%).
O tempo médio de prática da natação por atleta foi de 12 anos, variando de 1 a 22 anos. A metragem semanal média foi de 46.819, com mínima de 12.000 e máxima de 76.000 metros.
Os dados referentes aos 205 nadadores brasileiros de elite foram submetidos a análise estatística. A queixa de dor pregressa e atual no ombro foi correlacionada com a faixa etária, sexo, peso, altura, tempo de prática do esporte, metra-gem do treinamento semanal e estilo da natação (livre, costas, peito, borboleta e o medley).
RESULTADOS
Após a computação geral dos dados, obtiveram-se 39 (19,02%) nadadores com dor durante a realização da competição, enquanto que 166 (80,98%) não apresentavam queixas dolorosas atuais nos ombros.
Quando questionados sobre a presença de dor pregressa nos ombros, 130 (63,41%) nadadores responderam afirmativamente e 75 (39,59%) atletas não apresentaram queixas dolorosas relacionadas aos ombros durante a sua vida esportiva (gráfico 1).


Segundo a análise estatística, não foi significante a correlação da dor no ombro com a faixa etária, sexo, peso, altura, tempo de prática do esporte, metragem do treinamento semanal.
Com relação à incidência de dor no ombro e o estilo da natação, ocorreu uma significância estatística entre a dor atual no ombro e o estilo de nado denominado borboleta.
DISCUSSÃO
No consultório do traumatologista do esporte, a queixa de dor no ombro de nadadores é bastante freqüente. Na literatura nacional e internacional, existem poucos relatos que determinam o perfil do nadador, principalmente do brasileiro.
Concordamos com McMaster & Troup(9) que afirmam a importância de diferenciar os quadros de dores pregressas e atuais da cintura escapular. Nosso estudo demonstrou incidência de 19,02% de dor atual no ombro, comparada a 63,41% de dor pregressa.
O Troféu Brasil é o maior e principal evento nacional da natação; a incidência de cerca de 1/5 de quadro álgico no ombro durante a competição pode explicar alguns rendimentos esportivos inferiores, bem como a dificuldade para se estabelecer um tratamento efetivo que possibilite ao atleta competir sem a presença de dor.
Segundo McMaster & Troup(9), a incidência de dor no om-bro aumentaria com o tempo de prática da natação; nosso estudo discorda dessa afirmação, não existindo significância estatística entre dor no ombro e tempo de prática do esporte.
Ciullo & Guiso(4) afirmaram que cerca de 80% dos nadadores com dor no ombro eram especialistas em nado livre, enquanto nosso estudo apresentou incidência de 18,04% de dor no ombro nos especialistas em nado crawl.
Nossos achados são compatíveis com a literatura com relação a incidência de dor pregressa no ombro(1,3,4,6,9).
Não foram encontrados relatos anteriores que associassem a dor no ombro com vários fatores que podem influenciar no aumento ou diminuição do aparecimento da dor no ombro do nadador.
Segundo nosso estudo, apesar de ser um esporte com gran-des benefícios do ponto de vista da fisiologia esportiva, sem traumatismo direto e realizado num meio sem impacto, existe incidência significativa de dor no ombro, que deve ser melhor estudada e mais valorizada.
A traumatologia esportiva está em evolução bastante rápida, porém existem poucos estudos epidemiológicos que demonstram a realidade do esporte nacional. Acreditamos que somente com o melhor entendimento das lesões do atleta brasileiro poderemos efetuar tratamento mais efetivo e possibilitar ao mesmo melhor rendimento na prática esportiva.
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