INTRODUÇÃO

Metástases no esqueleto ocorrem mais que as neoplasias primárias, principalmente em adultos e idosos(10,12,18,20), sen-do que as primeiras manifestações clínicas podem a elas es-tar relacionadas(3,6,16). Qualquer tumor pode causar metástases para os ossos, estando os carcinomas responsáveis por (3,10,16-18). Radiologicamente, essas metástases são mais comumente líticas, ou blásticas, existindo também apresentações combinadas(3,10,18).

É relativamente comum não se conseguir determinar a origem das metástases ósseas e isso é mais freqüente em pacientes do sexo masculino e idades em torno de 60 anos. Nos casos de adenocarcinomas, somente em 20% dos casos en-contram-se as sedes primárias(6,17).

O pé é um local pouco comum de neoplasias ósseas primárias e metastáticas(5). Sua região posterior, em especial o calcâneo, é onde mais isso acontece(5). No talo é raro ocorrerem lesões tumorais, existindo na literatura somente alguns relatos (1,2,4,5,7-9,11,13-15,19,21). Essa baixa incidência e a possibilidade de simular outras doenças têm ocasionado erros diagnósticos e condutas terapêuticas inapropriadas(5).

Devido ao exposto e após revisarmos a literatura, pare-ceu-nos adequado relatar um caso de metástase única de adenocarcinoma de talo, cuja origem é desconhecida.

RELATO DO CASO

Paciente CDS, branco, do sexo masculino, com 65 anos de idade, lavrador, tabagista, etilista e natural de Frutal-MG, procurou o Ambulatório da FMTM (Uberaba, MG) em 11/8/ 95, com queixa de dor e edema no tornozelo direito havia ± 1 ano. Não informava antecedente traumático e os sintomas pioravam com a deambulação. Recebera tratamento em outro serviço com analgésicos e termoterapia, sem melhora do quadro. Nos últimos 3 meses, o paciente disse ter emagrecido aproximadamente 12kg e que a dor em seu tornozelo piorou bastante.

Ao exame físico geral, apresentava-se desidratado, com mucosas hipocoradas e palidez cutânea, e no tornozelo direito verificou-se aumento de volume, dor e limitação global dos movimentos.

Como exames subsidiários iniciais, realizaram-se radiografias simples do tornozelo afetado nas incidências ânteroposterior e perfil, hemograma completo e exame de urina tipo I.

Nas radiografias evidenciou-se imagem osteolítica difusa no talo, com neoformação óssea mal delimitada (fig. 1). O hemograma e o exame de urina eram normais, assim como os níveis de antígeno prostático específico.

No retorno do paciente, após a apresentação desses exames, solicitamos cintilografia óssea (Tc99), radiografia de tórax e tomografia computadorizada da região acometida.

Na cintilografia, foi verificada hipercaptação de contraste no talo direito (fig. 2) e a tomografia computadorizada mostrou osteólise do mesmo osso e comprometimento da articulação subtalar (fig. 3).

Em 18/10/95, foi realizada biópsia cirúrgica com retirada de pequeno fragmento ósseo. O laudo anatomopatológico foi de adenocarcinoma mucíparo metastático (fig. 4). Com esse diagnóstico, está indicada como tratamento a radioterapia local, que foi proposta. Do mesmo modo, propusemos o aprofundamento na busca da origem do tumor. O paciente não aceitou e solicitou alta. Temos conhecimento de seu óbito em agosto de 1996.

DISCUSSÃO

A característica principal deste nosso caso é sua localização. No talo são raras tanto as neoplasias primárias quanto as metastáticas. Em revisão da literatura, verificamos, real-mente, que poucos casos estão descritos (quadro 1)(1,2,4,5,7-9,11, 13, 15,19,21) e somente o relatado por Wu & Guise(21) é de um adenocarcinoma metastático.

Conforme o que é mais comum encontrar-se nos tumores acometendo ossos, nosso caso também era de metástase. As lesões líticas com maior freqüência são as verificadas nas metástases ósseas(3); igualmente foi a que tivemos.

Metástases ósseas de origem desconhecida não são raras (3-4%)(17), principalmente as de carcinomas(3,10,16-18). Em nos-so paciente, também não foi possível identificar a sede primária do tumor. Para que isso ocorra menos, Jesus-Garcia et al.(6) e Rougraff et al.(17) propuseram protocolos a serem seguidos. Ambos dão importância à anamnese e ao exame físico apurados e sugerem que, seqüencialmente, sejam realizados exames laboratoriais, radiografia simples do tórax, ul-tra-sonografia de abdome e pelve, tomografia computadorizada de tórax, abdome e pelve e biópsia óssea com estudo histológico e histoquímico. Dessa forma aumenta-se a possibilidade de determinar o local primário do tumor.

A história clínica deve ser sempre valorizada. No caso aqui relatado, um paciente de 65 anos, tabagista, etilista e com grave comprometimento do estado geral, queixando-se de dor e edema crônico de origem não traumática no tornozelo, havia quase um ano, foi anteriormente tratado, em outro serviço, sem qualquer investigação diagnóstica. É inaceitável que isso ocorra, sendo o correto se basear em um protoco-(6,17), como aliás foi o nosso procedimento.

Como se tratava, histologicamente, de adenocarcinoma mucíparo metastático, lembraríamos como sedes primárias os pulmões e o trato gastrintestinal, por serem freqüentes nesses sítios. Entretanto, não nos foi possível determinar o sítio primitivo.

O tratamento proposto, não aceito, além da não continuidade da investigação da sede primária do tumor, se por um lado poderia ter aliviado a sintomatologia do tornozelo, por outro iria agredir e debilitar o paciente. Sem que pudéssemos acompanhar sua evolução, soubemos que faleceu dez meses após o diagnóstico.

REFERÊNCIAS

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