A condromatose sinovial é uma patogenia infreqüente, geralmente monoarticular, caracterizada pela formação metaplásica de múltiplos nódulos de tecido cartilaginoso dentro do tecido conectivo da membrana das articulações, bainhas e bursas. Alguns ou numerosos nódulos tornam-se pediculados e são liberados para o interior da articulação, permanecendo como corpos livres nutridos pelo líquido sinovial, podendo aumentar seu tamanho.
A condromatose sinovial diferencia-se da osteocondromatose por não apresentar sempre a calcificação seguida de ossificação e, portanto, nem sempre todos os casos são visíveis radiograficamente.
Jaffe(2) estabelece que a presença de cartilagem metaplásica intra-sinovial é imperativa para o diagnóstico, independendo do tamanho ou forma dos corpos livres.
Milgram(4) afirma que o diagnóstico é positivo quando a membrana sinovial não está ativa no momento da cirurgia e se encontra um número superior a quatro corpos livres. Caracteriza em três fases a doença: 1) intra-sinovial isolada - sem corpos livres; 2) intra-sinovial com corpos livres; 3) corpos livres isolados - sem atividade sinovial.
Schajowicz(7) considera que a presença de múltiplos cor-pos livres intra-articulares, independentemente se de causa degenerativa, neuropática, osteocondrite dissecante ou outras, já é suficiente para caracterizar o quadro, podendo em estágio mais tardio apresentar a metaplasia condróide sinovial.
Segundo a literatura(7), a articulação mais acometida é o joelho, seguido pelo tornozelo, quadril, cotovelo, pé e, mais raramente, ombro e mãos. São referidos casos de bilateralidade e, excepcionalmente, o comprometimento de outras articulações, concomitantemente.
RELATO DO CASO
Paciente do sexo masculino, 67 anos, compareceu ao ambulatório de joelho do Hospital Universitário de Nova Iguaçu em agosto de 1996 queixando-se de dor em joelho esquerdo, seguida de crepitação e bloqueio de instalação lenta e gradual; relata episódio prévio de sinovite com derrame articular, tratado em outro serviço com artrocentese sem apresentar recidiva do quadro. Ao exame clínico observamos bloqueio de flexão, permitindo o movimento até cerca de 60º e extensão livre; apresentava crepitação durante os movimentos e à palpação conseguíamos identificar a presença de nodulações de tamanho variado e consistência endurecida.
Procedemos à avaliação radiológica de rotina com incidências em AP, perfil e axiais comparativas e observamos a presença de numerosos corpos livres articulares calcificados de aspecto lobulado e de tamanho variado, principalmente ao nível do fundo de saco suprapatelar (fig. 1).
O paciente foi então encaminhado para tratamento cirúrgico, quando se efetuou a ressecção de todos os corpos livres, os quais não se apresentavam aderidos a qualquer estrutura, facilitando a retirada através de pequena incisão lateral de aproximadamente 5cm. Os oito nódulos retirados apresentavam aspecto lobulado de cor branco-acinzentada, mediam de 0,8 a 2,3cm (fig. 3). Não observamos espessamento ou qualquer outra alteração aparente na membrana sinovial.

O material obtido foi submetido à análise histopatológica, em que obtivemos o seguinte laudo:
- Tecido cartilaginoso com alterações hialinas e focos de calcificação compatível com o diagnóstico de condromatose sinovial;
- Ausência de sinais de malignidade.
DISCUSSÃO
Apesar de muitos autores darem preferência à sinovectomia como tratamento de eleição para a condromatose sinovial, preferimos a simples retirada dos corpos livres articulares, pois estes não apresentavam intimidade com a sinovial e, portanto, nesses casos temos, segundo Jeffreys(3) e Mil-gram(4), alta incidência de cura.
A degeneração sarcomatosa, apesar de rara, é descrita por alguns autores. Dunn et al.(1) apresentam condrossarcoma secundário a condromatose sinovial; já Mullins(6) e Milgram & Addison(5) referem em sua série ausência de metástases em acompanhamento de três anos.
Nosso paciente, após o tratamento cirúrgico, referiu importante melhora não só da dor como da mobilidade, apresentando regressão do bloqueio de flexão, podendo efetuar os movimentos sem a crepitação anterior.

Manteremos revisões periódicas semestrais nesse paciente para observar sua evolução quanto à recidiva da lesão e à degeneração sarcomatosa.
1. Dunn, E.J., McGravan, M.H., Nelson, P. et al: Synovial chondrosarcoma: report of a case. J Bone Joint Surg [Am] 56: 811-813, 1974.
2. Jaffe, H.L.: Tumors and tumorous conditions of the bones and joints, Philadelphia, Lea & Febiger, 1958.
Jeffreys, H.L.: Synovial condromatosis. J Bone Joint Surg [Br] 49: 530534, 1967.
Milgram, J.W.: Synovial chondromatosis. A histopathological study of thirty cases. J Bone Joint Surg [Am] 59: 792-780, 1977.
Milgran, J.W. & Addison, R.G.: Synovial chondromatosis of the knee with possible chondrosarcomatous degeneration. J Bone Joint Surg [Am]
58: 264-268, 1976.
Mullins, F.: Chondrosarcoma following synovial chondromatosis. Cancer 18: 1180-1188, 1965.
Schajowicz, F.: Tumores de huesos y articulaciones. Chondromatosis synovial. 533-544.