INTRODUÇÃO

O osteoma osteóide (OO) é um tumor benigno do osso, descrito pela primeira vez por Jaffe, em 1935(7).

É mais freqüente no sexo masculino na faixa etária das segunda e terceira décadas da vida, sendo raro em pessoas com idade mais avançada(1-4,8,10,11).

As metáfises dos ossos longos são mais comumente afetadas. No pé, a localização mais freqüente é nos ossos do tarso(8-11).

O OO resolve-se espontaneamente após vários anos, quando seu nicho é gradualmente preenchido com osso denso.

Com a área lítica completamente preenchida, há a cessação da dor(6,9).

Clinicamente, o OO caracteriza-se por dor noturna localizada, aumento de volume localizado quando em áreas superficiais e por boa resposta analgésica aos salicilatos(1,3,4,8,10).

Os sinais radiográficos mais comuns são compostos por um nicho, circundado por osso denso, freqüentemente radiolúcido e com, em média, 0,5cm de diâmetro(1,4). Edeiken & Hodes(4) classificaram o OO em três tipos: o OO cortical é o clássico; o OO esponjoso, encontrado no colo do fêmur, cor-pos vertebrais e nos ossos do tarso, entre estes, mais freqüentemente no tálus(10,11), calcâneo e no cubóide, havendo, também, relatos de OO nas falanges(5); o OO subperióstico, que pode ocorrer no colo do tálus(11), com uma imagem de massa arredondada de tecidos moles, determinando atrofia óssea por compressão e reabsorção óssea irregular. Pode afetar as articulações próximas, causando sinovite e derrame articular.

Na tomografia computadorizada (TC), obtém-se a localização exata do nicho tumoral(2,3,6,8-11).

No exame anatomopatológico o nicho do OO é um foco de tecido ostéoide circunscrito ou não por osso denso, com tecido osteoblástico muito vascularizado. Contém fibras nervosas amielínicas do sistema nervoso autônomo que acompanham os vasos sanguíneos na zona fibrosa periférica ao nicho. As variações de pressão vascular seriam a causa da dor localizada(1,4).

RELATO DO CASO

E.C.M., 26 anos, do sexo masculino. Queixava-se de dor no antepé direito localizada no colo do primeiro metatarsal, de início insidioso, sem história de trauma, há aproximadamente três anos, piorando de intensidade há mais ou menos um ano. Dor principalmente à noite, aliviada com o uso de analgésicos à base de ácido acetilsalicílico. Ao exame físico notava-se discreto aumento de volume localizado na região do 1/3 distal do primeiro metatarsal (fig. 1), sem alteração de temperatura local e sem hiperemia. Havia dor à palpação e a marcha era em atitude antálgica, com o apoio na borda lateral do pé afetado.

O exame radiográfico mostrou espessamento da camada cortical dorsomedial do colo do primeiro metatarsal direito. A TC evidenciou o nicho do tumor, circundado por osso denso (figs. 2 e 3).

O paciente foi submetido a tratamento operatório de curetagem ampla do nicho do tumor sob bloqueio anestésico regional e isquemia da extremidade do membro por compressão com faixa de Esmarch aplicada na panturrilha.

O exame anatomopatológico confirmou o diagnóstico e por imagem do osteoma osteóide (fig. 4).

A dor cessou a partir do dia do tratamento operatório. Não houve complicação clínica decorrente do ato operatório.

DISCUSSÃO

Os tumores ósseos malignos são raros no pé(9). Entre os tumores benignos no esqueleto, o OO aparece em freqüência de 11%. Shereff et al.(10), numa revisão de dez casos opera-dos entre 1945 e 1983, encontraram um de OO no primeiro metatarsal.

A queixa de dor noturna localizada e a história de resultado analgésico satisfatório com o uso de salicilatos remetem de imediato à suspeita diagnóstica de osteoma osteóide. A localização na região do antepé, mais precisamente no primeiro metatarsal, é infreqüente(2,10), mesmo que nenhum osso esteja a salvo dessa patologia(4,9).

A falta de outros sinais clínicos locais afastou outras hipóteses diagnósticas imediatas, como: infecção, abscesso, sinovite, bursite(2,6,8).

O exame radiográfico simples não evidenciou o nicho ca-racterístico(10), mas foi suficiente para diagnóstico diferencial de osteomielite e abscesso de Brodie, que são as hipóteses diagnósticas que acompanham a do OO(2,6,8).

Na TC ficou evidente o nicho tumoral circundado por osso denso e demo-nos por satisfeitos quanto a exames complementares(2,3,6,8-11).

A via de acesso foi no 1/3 distal da borda medial do primeiro metatarsal, sem abertura da cápsula articular. A zona do tumor apresentava coloração mais escurecida do que o osso normal da diáfise (fig. 5). Inicialmente, foi feita perfuração da cortical com instrumento pontiagudo (punção), seguida de curetagem ampla da região (fig. 6). O osso curetado tinha consistência intermediária entre osso denso e esponjoso.

No pós-operatório não foi utilizada imobilização gessada. O paciente foi orientado a não apoiar o membro operado por dez dias, seguido de apoio parcial por mais dez dias com o auxílio de muletas e apoio total a partir de então.

Houve cessação dos sintomas a partir do dia do ato operatório.

CONCLUSÕES

Este trabalho tem por objetivo lembrar o diagnóstico do OO e a localização infreqüente deste tumor.

REFERÊNCIAS

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Croci, A.T., Camargo, O.P., Campos Fº, R. et al: Osteoma osteóide: estudo baseado em quarenta e um casos. Rev Bras Ortop 25: 349-353, 1990.

David, A., Rios, A.R., Tarragô, R.P. et al: Excisão de osteoma osteóide por trefina orientada pela tomografia computadorizada. Avaliação preliminar. Rev Bras Ortop 32: 396-400, 1997.

Edeiken, J. & Hodes, P.J.: Diagnóstico radiológico de las enfermedades de los huesos, Buenos Aires, Panamericana, 1997.

Freiberger, R.H., Loitman, B.S., Helpern, M. et al: Osteoid osteoma: a report of 80 cases. Am J Roentgenol 82: 194-205, 1959.

Greenfield, G.B. & Arrington, J.A.: Imaging of bone tumors. A multimodality approach. Osteoma osteoid, Philadelphia, J.B. Lippincott, 1990. p. 170-176.

Jaffe, H.L.: "Osteoid osteoma". A benign osteoblastic tumor composed of osteoid and atipical bone. Arch Surg 31: 709-728, 1935.

Kronbauer, F.L., Ortiz, R., Kronbauer, A.L. et al: Osteoma osteóide no osso ilíaco: relato de caso. Rev Bras Ortop 32: 985-988, 1997.

Mann, R. & Coughlin, M.: Surgery of F & A. Tumors and metabolic diseases of the foot, St. Louis, Mosby, 1992. Vol. 2, p. 1007-1008.

Shereff, M.J., Cullivan, W.T. & Johnson, K.A.: Osteoid osteoma of the foot. J Bone Joint Surg [Am] 65: 638-641, 1983.

Shih-Youeng Chuang, M.D. et al: Osteoid osteoma in the talar neck: a report of two cases. Foot Ankle Int 19: 44-47, 1998.