ACMP, masculino, 32 anos, foi vítima de acidente de trabalho, em que teve seu pé direito atingido por uma esteira rolante de uma máquina de asfaltamento. Foi atendido no pronto-socorro apresentando ferimento extenso em faces dorsal e medial do pé, onde havia desluvamento do tornozelo ao antepé de aproximadamente 12cm.
Foram realizadas radiografias em incidências ânteroposterior e perfil, nas quais se evidenciou luxação dorsal do navicular, sem outras lesões ósseas associadas (fig. 1). Foi então levado ao centro cirúrgico e submetido a limpeza mecânico-cirúrgica, com desbridamento, redução e fixação ao tálus utilizando fio liso de Kirschner (fig. 2). O controle radiográfico transoperatório mostrou redução satisfatória e clinicamente encontrava-se estável. Colocada imobilização suro-podálica. Ficou internado em enfermaria por dez dias, com curativos diários e antibioticoterapia venosa (cefazolina e gentamicina), recebendo alta sem sinais clínicos de infecção. Persistiu com imobilização e sem carga por seis semanas, quando foi retirado o fio metálico (fig. 3). A seguir, iniciou-se tratamento fisioterápico com duração de quatro semanas.
Após 18 meses do trauma, o paciente apresenta extensa cicatriz em face dorsomedial do pé direito e pequena limitação (aproximadamente 10º) de dorsoflexão e flexão plantar, porém sem repercussões significativas na marcha. Encontra-se clinicamente sem dor, com retorno às suas atividades habituais e satisfeito com o resultado final.
DISCUSSÃO
O caso relatado é uma entidade rara, com apenas 12 ca-sos encontrados descritos na literatura, sendo dois dorsais(1-6). Dhillon e Nagi acreditam que essa lesão não ocorre isoladamente; é necessário que tenha alguma alteração na coluna lateral do pé(1). O mecanismo de trauma ainda é incerto, sendo necessárias forças em sentidos diferentes, traduzindo um mecanismo complexo. Em alguns casos há outra lesão associada, como fratura do cubóide, fraturas de metatarsianos, cunhas ou lesões cápsulo-ligamentares(1-6). O caso em questão não apresentou lesão associada da coluna lateral do pé. Todos os casos foram tratados com redução cruenta e fixação. A redução é conseguida facilmente, porém sua estabilidade só é garantida por fixação interna(3). A necrose avascular é uma complicação descrita, pois em lesões mais graves a única estrutura que permanece inserida no navicular é parte do tendão do tibial posterior, causando portanto diminuição do suprimento sanguíneo(1). Subluxação residual também pode ocorrer, caso não haja redução anatômica ou o material de síntese seja retirado precocemente, podendo levar a uma artrose talonavicular e navículo-cuneiforme(3). Não encontramos essas complicações no caso, até o momento.


CONCLUSÃO
Concluímos que através de dados da literatura e o obtido no caso, a redução e fixação com fio de Kirschner é o melhor tratamento para a luxação do navicular, fornecendo bom resultado funcional ao pé.
Dhillon M.S., Nagi O.N.: Total dislocation of the navicular: are they ever isolated injuries? J Bone Joint Surg [Br] 81: 881-885, 1999.
Dixon J.H.: Letter to the editor. Injury 10: 251, 1979.
Freund K.G.: Isolated dislocation of tarsal navicular. Injury 20: 117-118, 1989.
Grabski R.S.: Total dorsal dislocation of navicular bone. Chir Narzodow Rucku Ortop 59: 308-312, 1994.
Pathria M.N. et al: Isolated dislocation of tarsal navicular: a case report. Foot Ankle 9: 146-149, 1988.
Berman S.: Complete dislocation of the tarsal scaphoid. JAMA 83: 181183, 1924.