INTRODUÇÃO

Radiografias simples dos pés, com carga, nas incidências ântero-posterior, lateral e oblíqua, demonstraram lesão lítica, arredondada, com margens pouco definidas, medindo cerca de 2cm de diâmetro, no navicular esquerdo, classificada de acordo com o estadiamento proposto por Madewell et al(1) como tipo 1B (figura 1).

O paciente foi submetido a biópsia incisional da lesão no navicular esquerdo para estudo anatomopatológico. Macroscopicamente, o tecido apresentava, predominantemente, coloração brancacenta, com alguns pequenos fragmentos branco-acinzentados. Microscopicamente, observou-se lesão constituída pela proliferação de condroblastos imersos em matriz condróide, com algumas células exibindo núcleos aumentados de volume e, por vezes, bilobulados; foram observadas, ainda, células gigantes multinucleadas do tipo osteoclasto. O diagnóstico foi de condroblastoma (figura 2).

O tratamento definitivo consistiu de curetagem ampla da lesão e preenchimento do defeito com auto-enxerto obtido da crista ilíaca, modelado em bloco. Não houve complicações intra ou pós-operatórias. Foi aplicada órtese suropodálica por oito semanas. Descarga parcial do peso foi permitida na sexta semana pós-operatória. O paciente foi acompanhado clínica e radiograficamente por seis e 12 semanas e por seis e 12 meses. Após esse período, as consultas ambulatoriais ocorreram uma vez por ano. Sete anos depois da ressecção tumoral, não há sinais de recidiva da lesão. Exames por imagem mostram relação talonavicular normal, sem evidências de osteoartrite degenerativa ou osteonecrose (figura 3).

Utilizando-se os critérios propostos pela American Orthopaedic Foot and Ankle Society (AOFAS(2)) para o tornozelo e o retropé, o paciente obteve 100 pontos em um total de 100.

COMENTÁRIOS

O condroblastoma ósseo é condição tumoral benigna, rara, de linhagem condrogênica(3,4,5). Corresponde a menos de 1% de todas as lesões tumorais benignas do osso(6,7). Acomete, geralmente, as epífises dos ossos longos e a relação homem:mulher é de cerca de 2:1(4,5,6,7,8,9). No entanto, sua manifestação nos ossos do pé é extremamente inco-(2,10,11,12,13,14,15,16,17). A incidência nos ossos do tarso varia de 3% a 16%, com maior afinidade pelo calcâneo e pelo (6,7,10,11,12,13,17). Dor e edema locais são os sintomas mais freqüentes referidos pelos pacientes(2,8,18). O início pode ser insidioso, variando desde poucas semanas a muitos anos de evolução(11,15).

No presente caso, o paciente apresentava dor crônica e de leve intensidade durante a marcha, o que o fez procurar atendimento médico. O exame físico pouco acrescentou na investigação diagnóstica, mostrando apenas aumento de volume local e dor à palpação de características bastante inespecíficas. Somente através dos exames radiográficos em três incidências foi que pudemos observar a lesão lítica no navicular esquerdo. O exame anatomopatológico confirmou o diagnóstico de condroblastoma. Microscopicamente, observou-se grande proliferação de condroblastos em meio da abundante matriz cartilaginosa e algumas células gigantes tipo osteoclastos. Utilizando o estadiamento proposto por Madewell et al(1), classificamos a lesão como tipo 1-B (margens com perda da continuidade cortical), denotando um tumor com limitada capacidade de remodelação. Fink et al(11) demonstraram o valor terapêutico e prognóstico do estadiamento de Madewell et al.

Embora muitas formas de tratamento venham sendo pro-(3,6,7), a curetagem ampla da lesão seguida de autoenxertia óssea pareceu-nos uma boa opção no caso ora relatado. Aproximadamente, 90% dos casos evoluem satisfatoriamente com esse tipo de tratamento(6). Recidivas, quando as há, ocorrem, em geral, nos primeiros três anos depois do tratamento inicial(6). Após sete anos do tratamento definitivo, o paciente apresenta resultados oncológico e funcional satisfatórios, tendo obtido pontuação máxima na última avaliação com os critérios propostos pela AOFAS(2).

REFERÊNCIA

1. Madewell J.E., Ragsdale B.D., Sweet D.E.: Radiologic and pathologic analysis of solitary bone lesions. Part I: internal margins. Radiol Clin North Am 19: 715-748, 1981.

2. Kitaoka H.B., Alexander I.J., Adelaar R.S., Nunley J.A., Myerson M.S., Sanders M.: Clinical rating systems for the ankle-hindfoot, midfoot, hallux, and lesser toes. Foot Ankle Int 15: 349-353, 1994.

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