1. Professor Titular da Disciplina de Ortopedia e Traumatologia, PUC-SP; Chefe do Serviço de Cirurgia da Mão da Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba, SP.
2. Assistente do Serviço de Cirurgia da Mão da Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba, SP.
3. Ex-Médico Residente do Serviço de Cirurgia da Mão da Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba, SP.
Endereço para correspondência (Correspondence to): Wilson Modesto de Oliveira Jr., Rua Cláudio Manoel da Costa, 212 - 18030-210 - Sorocaba, SP. Tel./fax: (15) 232-4028.
O canal fibrósseo triangular localizado na face palmar e ulnar da região do punho, chamado de canal de Guyon, recebeu este nome em homenagem ao cirurgião urologista francês Jean Casenir Felix Guyon - o primeiro a descrevê-lo, em 1861(1).
Possui de 4 a 4,5cm de comprimento, iniciando-se na borda proximal do ligamento carpal e terminando no arco fibroso dos músculos hipotenares. É formado medialmente pelo osso pisiforme, lateralmente pelo hâmulo do hamato, seu teto pelo ligamento piso-hamato e músculo palmar curto. Seu conteúdo são o nervo, as veias e a artéria ulnar(2).
A causa mais freqüente de compressão do nervo ulnar nesse ponto são os cistos sinoviais(3,4). A compressão causada por um aneurisma verdadeiro da artéria ulnar é raramente descrita na literatura(5).
O objetivo deste relato é apresentar um caso de compressão do nervo ulnar no canal de Guyon por aneurisma verdadeiro e documentado por fotografias. Sua contribuição é apresentar um caso raro de compressão e mostrar a conduta tomada pelos autores, já que a literatura não é unânime a esse respeito.
RELATO DO CASO
Jovem, do sexo masculino, de 14 anos de idade, procurou atendimento. Contou aparecimento de inchaço em mão direita, aproximadamente seis meses antes, com piora havia duas semanas, quando apareceram diminuição de temperatura e palidez de quarto e quinto dedos. Não houve relato de trauma. Ao exame físico do paciente foi encontrada tumoração de aproximadamente 2cm em eminência hipotênar, com dor local ao toque, acompanhada de parestesia dolorosa do dedo mínimo e face ulnar do anular direitos. Ao exame foi detectado o fenômeno de Raynaud. O teste de Allen mostrou-se positivo.
O ato operatório para descompressão do nervo foi realizado com a abertura do canal de Guyon. Encontrou-se aneurisma verdadeiro (fusiforme) da artéria ulnar no canal (figura 1). Esse aneurisma, com medidas de 1,5 x 1,2 x 1,0cm, comprimia o nervo ulnar. O conteúdo do canal era formado somente por esse aneurisma e pelo nervo ulnar (figura 2).
Realizou-se através de técnica microcirúrgica a anastomose término-terminal da artéria ulnar. Não houve necessidade de enxertia para a reconstrução.
O paciente evoluiu sem intercorrências, com remissão total do quadro clínico, e o teste de Allen tornou-se negativo.
DISCUSSÃO
Os aneurismas são classificados em duas categorias histológicas. Os aneurismas saculares (ou falsos) comumente resultam de lesão penetrante na parede do vaso. Não possuem nem tecido elástico, nem tecido muscular em sua parede.

Os aneurismas fusiformes (ou verdadeiros) são conseqüentes a trauma não penetrante, por um episódio único ou após traumas repetidos. A reconstrução arterial por técnica microcirúrgica por anastomose término-terminal ou interposição de enxerto venoso tem sido recomendada(6,7). Essa técnica permite reconstruir o fluxo arterial original e prevenir complicações futuras, caso a artéria radial venha a ser comprometida. Podem, entretanto, ocorrer a oclusão da anastomose ou a recorrência do aneurisma(6); assim, alguns autores recorrem à simples ressecção do aneurisma e ligadura da ar-téria(8,9). Optou-se pela reconstrução arterial por anastomose término-terminal, em que não foi necessário o uso de enxerto. Os autores acreditam que é essa a conduta a ser adotada quando os cotos arteriais permitem e os benefícios se justificam. Acreditam também que preservar a artéria ulnar é importante na abordagem do aneurisma. O encontro do fenômeno de Raynaud justifica-se pelo fato de que a inervação simpática dos três últimos dedos é fornecida pelo nervo ulnar.
2. Pardini A.G.: "Cirurgia da mão". In: Lesões não traumáticas. Rio de Janeiro, Medsi, p. 337-359, 1990.
3. Seddon H.J.: Carpal ganglion as a cause of paralysis of the deep branch of the ulnar nerve. J Bone Joint Surg [Br] 34: 386-390, 1952.
4. Kuschner S.H., Gelbermann R.H., Jennings C.: Ulnar nerve compression at the wrist. J Hand Surg 7: 137-139, 1982.
5. Yoshii S., Ikeda K., Murakami H.: Ulnar nerve compression secondary to ulnar artery true aneurysm at Guyon's canal. J Neurosurg Sci 43: 295-297, 1999.
6. Kalisman M., Laborde K., Wolff T.W.: Ulnar nerve compression secondary to ulnar artery false aneurism at Guyon's canal. J Hand Surg 7: 137-139, 1982.
7. Harris Jr. E.J., Taylor Jr. L.M., Edwards J.M., Mills J.L., Porter J.M.: Surgical treatment of distal ulnar artery aneurysm. Am J Surg 159: 527-530, 1990.
8. Axe M.J., McClain E.J.: Complete involvement of the ulnar nerve secondary to an ulnar artery aneurysm. Am J Sports Med 14: 178-180, 1986.
9. Kay P.R., Abraham J.S., Davies D.R.A., Bertfield H.: Ulnar artery aneurysms after injury mimicking acute infection in the hand. Injury 19: 402-404, 1988.