INTRODUÇÃO

O osteoma osteóide é uma neoplasia óssea rara, que foi denominada pela primeira vez com este nome por Jaffe(10), em 1935. A maioria dos trabalhos encontrados na literatura limita-se a descrições isoladas de casos entre a metade da lª década até a 3ª (2,11,12) , em uma proporção de 1,7: 1 do sexo masculino para o feminino(1).

O sintoma dor está presente na quase totalidade dos casos, podendo ocorrer outros sinais, como claudicação, alterações musculares (hipotrofias), que simulam às vezes patologia neurológica primária(15,19). A média de duração dos sintomas até o diagnóstico definitivo, em geral, é alta pela dificuldade diagnóstica(1,14,15,19).

O objetivo do presente trabalho é o de apresentar dois casos, que na evolução clinics foram diagnosticados como patologias do joelho e que, no final, eram casos de osteoma osteóide acometendo o fêmur.

APRESENTAÇÃO DOS CASOS

Caso 1 - D.S.H., 16 anos e sete meses, sexo feminino, apresentava dor no joelho direito, há um ano e quatro meses, na face ântero-lateral, com discreta limitação dos movimentos; ao raio X inicial, verificava-se cabeça da fíbula alta, aplanamento do côndilo tibial lateral e discreto aumento da interlinha articular lateral; o diagnóstico de suspeita feito foi de menisco discóide e foi tratada na ocasião com antiinflamatórios não hormonais e fisioterapia; como não apresentasse melhora, foi submetida, em janeiro de 1989, a artroscopia do joelho direito, que revelou ser normal. Permaneceu com o mesmo quadro clínico por alguns meses, quando começou a referir irradiação da dor para o terço proximal do fêmur; radiografando-se o quadril e o terço proximal do fêmur, visua-lizou-se imagem radioluscente de aproximadamente l,5 centímetro, localizada ao nível do trocanter maior (fig. 1). Na tomografia axial computadorizada, visualizava-se perfeitamente o nicho (fig. 2). O mapeamento ósseo na ocasião mostrou-se hipercaptante naquela localização (fig. 3). Em setembro de 1991, foi feita ressecção cirúrgica da lesão, com diagnóstico anatomopatológico de osteoma osteóide; houve desaparecimento da sintomatologia dolorosa, permanecendo assintomática no seguimento de 15 meses.

Caso 2- M.A.B., 21 anos e seis meses, sexo masculino, apresentava dor no joelho direito há sete meses, com aumento de volume do joelho e pequeno derrame articular; foi tratado na ocasião com imobilização gessada e antiinflamatórios não hormonais por uma semana, seguidos de reabilitação fisioterápica; persistiu o quadro clínico de edema, apresentando ao exame físico atrofia do quadríceps, dor e crepitação parapatelar ântero-súpero-medial à extensão do joelho; o diagnóstico de suspeita foi de plica sinovial patológica com sinovite do joelho. Em abril de 1987, foi submetido a ressecção cirúrgica da plica, com o diagnóstico anatomopatológico de plica sinovial com degeneração mixóide do tecido conjuntivo abaixo do revestimento sinovial. Pemaneceu com o mesmo quadro clínico por um ano, quando foi vista ao raio X imagem radioluscente, subperiosteal ao nível da cortical posterior do terço distal do fêmur (fig. 4). O mapeamento ósseo na ocasião mostrou-se hipercaptante naquela localização (fig. 5). Em junho de 1988, foi feita ressecção da lesão (fig. 6), com o diagnóstico anatomopatológico de osteoma osteóide; houve desaparecimento da sintomatologia dolorosa, permanecendo assintomático no seguimento de 41 meses.

DISCUSSÃO

O osteoma osteóide é um tumor ósseo primário benigno formador de tecido osteóide, que se manifesta clinicamente, em quase todos os casos, como lesão óssea solitária; e classificado pelo estadiamento de Enneking(3) como benigno latente (B1) ou benigno ativo (B2).

É conhecido com esta denominação há pouco mais de 50 anos, apresentando muitos aspectos controvertidos e interessantes para estudo.

A variedade de quadros clínicos e localizações que o osteoma osteóide costuma apresentar, bem como a dificuldade em seu diagnóstico, aguça o interesse de todos os ortopedistas e deve ser lembrado sempre como diagnóstico diferencial de várias patologias.

A lesão não excede a um centímetro; ao exame anatomopatológico, há aparecimento de tecido osteóide. trabéculas de osso malformado e um substrato de tecido conjuntivo osteogênico vascularizado. Alguns autores(9,15), dão ênfase aos sintomas e sinais que podem levar ao diagnóstico errôneo da patologia primária, como atrofia muscular, hiporreflexia, alterações da sensibilidade, fraqueza muscular e inclusive sinais de compressão radicular, podendo simular doença neurológica como hérnia distal com sinal de Lasègue positivo.

Outros autores(6,17), descrevem outros casos de osteoma osteóide com evolução longa, apresentando encurtamento importante do membro inferior, deforrnidade em flexo da articulação e osteoartrose precoce, acreditando serem alterações secundárias à hiperemia.

O diagnóstico inicial por vezes é difícil e feito tardiamente (1,7) e muitas vezes só é possível pelo mapeamento ós-seo(8), notadamente no esqueleto axial; a dor é o sintoma principal e relacionada fundamentalmente com a mudança de pressão sanguínea no nicho e irritação direta das fibras nervosas no foco de esclerose óssea(4); em outras ocasiões, pode estar relacionada a fenômenos à distância sobre articulações vizinhas com sinovites inespecíficas(1,13).

Para ser feito o diagnóstico, requer-se apurada história clínica e alto índice de suspeita clínica; Swee et al (18) relatam que em 75% das radiografias as lesões mostravam-se típicas e de fácil diagnóstico; em 17%, as radiografias apresenta-vam-se com alterações, porém não típicas; e, em 8%, as radiografias eram normais.

Nos casos apresentados, a dor ao nível do joelho era referida, o que levou a outros diagnósticos na suspeita clínica; no primeiro caso, como havia associação com outros sinais radiográficos ao nível do joelho, por isso houve suspeita de menisco discóide; so na evolução clínica, posteriormente, houve localização da dor ao nível do terço proximal do fêmur. No segundo caso, além da dor, havia aumento de volume ao nível do joelho e pequeno derrame articularo que, pode ser explicado pela sinovite reacional inespecífica(1,13). O mapeamento ósseo, nos dois casos, mostrou-se positivo e de grande valia para a suspeita clínica. O tratamento definitivo, realizado com ressecção no nicho e de parte do osso esclerótico, é o preconizado e quando bem realizado leva à cura total do processo. Nos dois casos, foi feito esse procedimento, com regressão total do quadro clínico durante toda a evolução.

REFERÊNCIAS

1. Croci, A. T., Camargo, O.P, Campos F°, R & Oliveira, N.R.B.: Osteoma osteóide: estudo baseado em 41 casos. Rev Bras Ortop 25: 349-353, 1990.

2. Dahlin, D.C.: Bone Tumors, Springfield, Thomas, 1957. p. 50-57.

3. Enneking, W.F.: Musculo skeletal tumor surgery, New York, Churchill Livingstone, 1983.

4. Esquerdo, J., Fernandez, C.F. & Gomar, F.: Pain in osteoid osteoma: histological facts, Acta Orthop Stand 47: 520-524, 1976.

5. Freiberger, R. H., Loitnan, B. D., Helpem, M. &Thompson, T. C.: Osteoid osteoma; a report on 80 cases. Am J Roentgenol 82: 194-205, 1959.

6. Giustra, P.E. & FrEiberger, R.H.: Severe growth disturbance with osteoidosteoma: a report of two cases involving the femoral neck. Radiology 96:285-288, 1970,

7. Goldberg, V.M, & Jacobs, B.: Osteoid osteoma of the hip in children.Clin Orthop 106: 41-47, 1975.

8. Gore, D.R. & Mueller, H.A,: Osteoid osteoma of the spinc with locali-zation aided by 99mTc - polyphosphate bone scan. Clin Orthop 113: 132-134, 1975.

9. Halperin, N., Gadoth, N., Reif, R. & Axer, A.: Osteoid osteoma of theproximal femur simolating spinal root compression. Clin Orthop 162: 191-194, 1982.

10. Jaffe, H.L: Osteoid osteoma: a benign osteoblastic tumor composed ofosteoid andatypical bone. Arch Surg 3l: 709-728, 1935.

11. Jaffe, H.L.: Osteoid osteoma of bone. Radiology 45: 3l9-334, 1945.

12. McLellan, D.I. & Wilson, F.C.: Osteoid osteoma of spine: a review ofthe literature and report of six new cases. J Bone Joint Surg 49: 111- 121, 1967.

13. Mesquite, K.C., Castro, M.G., Hemais, P.M. & Lemos, C.: Osteoma os-teóide do colo do fêmur; manifestações clínicas de artrite antes das alte- rações ósseas. Radiol Bras 11: 29-32, 1978.

14. Moberg, E.: The natural course of osteoid ostcoma. J Bone Joint Surg 33:166-170, 1951.

15. Rushton, J.G., Mulder, D.W,, & Lipscomb, P.R.: Neurologic symptomswith osteoid osteoma. Neurology 5: 794-797, 1955.

16. Schajowics, F. & Lemos, C.: Osteoid osteoma and osteoblastoma; closelyrelated entities of osteoblastic derivation. Acta Orthop Scand 4l: 272- 291, 1970.

17. Snarr, J.W., Abell, M.R, & Martel, W.: Lymphollicular synovitis withosteoidosteoma. RadioIogy 106: 557-560, 1973.

18. Swee, R.G., McLeod, R.A. & Beabout, J.W.: Osteoid osteoma; detection,diagnosis and localization. Radiology 130: 117-123, 1979.

19. Young, H.H.: Non neurological lesions simulating protruded interver-tebral disk. JAMA 148: 1101-1105, 1952.