Apresentamos um caso de calcinose tumoral originando síndrome do túnel do carpo. Esta não é uma patologia rara, porém não observamos relato semelhante que tivesse sido causado pelo tumor citado.
A calcinose tumoral freqüentemente e assintomática, predominando na superfície extensora e justarticular.
O primeiro relato de calcificação ectópica foi feito por Giard(8), em 1898. Em 1899, Duret (5) relatou um ca-so de calcificação ectópica nos cotovelos e nádegas de uma paciente do sexo feminino com 17 anos.
Rothstein & West(13), em 1936, relataram 39 casos em pacientes acima de 15 anos. Desse grupo, 32 foram classificados como calcinose universal e sete, como calcinose circunscrita.
Inclan (11), em 1943, publica três casos e denomina a lesão de calcinose tumoral. Nesse mesmo artigo, ele diferencia a patologia de miosite ossificante, calcinose universal, calcinose circunscrita e calcificação metastática.
Posteriormente, houve outros relatos de casos, entre eles o de Apak(1), que, em 1958, fez uma revisão da literatura, coletou e estudou 15 casos, sendo um deles de sua clínica. A partir desse estudo, o autor lançou a hipótese da lesão se iniciar por uma deposição de colesterol na bursa, tendão, músculo ou periósteo de uma grande articulação. Esse depósito evoluiria para calcificação local, seguida de necrose tecidual e formação granulomatosa.
Em 1981, Bostrom(4), em Cincinati, confirmou que uma percentagem de seus pacientes com calcinose tumoral apresentava hiperfosfatemia. Em 1983, Feldman (6) relata caso de calcinose tumoral em criança aos 18 meses de idade. No mesmo ano, Knowles (12) relata sete ca-sos. Em 1985, Viegas(14) relata um caso de calcinose tumoral em paciente do sexo feminino com 17 anos de ida-de e acometimento bilateral das mãos.
Em 1988, Garcia(7) relata caso de criança do sexo feminino, com sete anos de idade, com calcinose tumoral nos cotovelos direito e esquerdo.

Entre as diversas causas de calcificação ectópica citamos: esclerodermia(10), hiperparatiroidismo primário(3), hiperparatiroidismo secundário(3), hipervitaminose(3), pseu-do-hipoparatiroidismo e pseudo-hiperparatiroidismo(3), doença por depósito de pirofosfato de cálcio (pseudogota) (3) e calcinose tumoral(2).
Na revisão bibliográfica realizada, não encontramos nenhum caso descrito de calcinose tumoral causando compresão do nervo mediano ao nível do túnel do carpo.
RELATO DO CASO
E. S., sexo feminino, 52 anos, branca, casada, apo-sentada, natural do Rio de Janeiro, procurou nosso serviço com queixa de dor e parestesia nos 1°, 2°, 3° e 4° quirodáctilos esquerdos que vinha aumentando progressivamente desde que surgiu há cinco anos. Já havia passado por vários serviços, tendo sido diagnosticada sinovite de pusho e tratada com tala de gesso e antiinflamatório, sem obter melhora.
Ao exame físico, apresentava sinal de Tinel positivo ao nível da prega de flexão do punho esquerdo e sinal de Phalen positivo, sem atrofia de musculatura tenar.
Os exames radiológicos realizados do punho nas incidências em AP e perfil apresentavam imagem radiopaca mal definida superposta ao grande osso, que passou despercebida.
As radiografias de abdômen simples não evidenciaram calcificações renais. A radiografia dos pulmões mostrou nódulo calcificado no pulmão esquerdo e gânglios calcificados ipsilaterais no hilo pulmonar.

A história patológica pregressa da paciente revelou infecções urinária c parasitária já tratadas, metaplasia epidermóide na vagina, sífilis secundária, dermatofitose e onicomicose.
Os exames laboratoriais, na época do atendimento, mostraram: glicose, 100mg/dl; uréia, 14mg/dl; creatinina, 0,7mg/dl; sódio, 139mEq/l; potássio, 3,4mEq/l; proteínas totais, 7,6g/dl; albumina, 3,9g/dl; ácido úrico, 4,5mg/dl; cálcio, 9,5mg/dl; fósforo, 4,5mg/dl; fosfatase alcalina, 29U/l; VHS, 5mm/lh. O EAS (urina) apresentou cristais de oxalato de cálcio,
Diante do quadro clínico apresentado e dos exames laboratoriais sem alterações, foi solicitada radiografia na incidência de túnel do carpo para o punho em questão, tendo sido, então, evidenciada uma calcificação local (fig. 1).
Diante do novo dado obtido com a incidência do túnel do carpo, o diagnóstico foi feito e a paciente submetida a tratamento cirúrgico, com exérese da calcificação local (figs. 2 c 3). Durante o ato cirúrgico, não se observou comunicação da massa com os ossos adjacentes, estando a mesma aderida a estruturas periarticulares, sem comprometimento das bainhas tendinosas. Chamou a atenção o fato de estar localizado na superfície flexora e não na extensora, que é mais comum.
O material retirado foi enviado para exame histopatológico no laboratório CLAP (Claudio Lemos Anatomia Patológica), sendo diagnosticada calcinose tumoral (fig. 4).

Após a cirurgia, a paciente apresentou regressão total da sintomatologia, com excelente recuperação funcional. Durante os três anos de acompanhamento pós-operatório, a paciente nào teve recidiva da sintomatologia, nem de calcificação local.
CONCLUSÃO
No caso apresentado, a incidência radiológica para o túnel do carpo foi elucidativa para a visualização do fator mecânico que causava a compressão do nervo mediano ao nível do carpo, não se fazendo necessária a realização de outros exames complementares sofisticados e onerosos.
A incidência radiológica em questão é um exame simples, que pode ser realizado em qualquer serviço de radiologia e que comumente não faz parte da rotina dos ortopedistas.
Barton, D.L. & Reenes, R. J.: Tumoral calcinosis: report of threecases and review of the literature. J Bone Joint Surg [Am] 86: 351-358, 1961.
Bishop, A. F., Destovet, J. M., Murphy, W.A. & Gilula, L. A.: Tu-moral calcinosis: case report and review. Skeletal Radiol 8: 269-274, 1982.
Bostrom, B.: Tumoral calcinosis in an infant.Am J Dis Child 135: 246-247, 1981.
Duret, M.: Tumeurs multiples et singulaires des bourses sereuses.Bull Mem Soc Anat Paris 74: 725-731, 1899.
Feldman, R., Lewis, H., Greenspan, A. & Steiner, G.: Tumoralcalcinosis in an infant: a case report. Bull Hosp Jt Dis Orthop Inst 43: 78-83, 1983.
Garcia, E. B., Tapias, J.B. & Oliveira, J.R.: Calcinose tumoral:relato de um caso. Rev Bras Ortop 23:243-244, 1988.
Giard, A.: Sur la calcification hibernale. C R Soc Biol 10: l013- 10 15, 1898.
Gilliland, B.: Pseudogota, in Harrison & col.:Harrison medicina interna, 6ª ed, Rio de Janeiro, 1983, p. 2216-2218.
Gilliland. B.: Esclerodermia difusa, in Harrison & col.: Harrisonmedicina interna, 6ª ed, Rio de Janeiro, 1983. p. 2225-2229.
Inclan, A., Leon, P. & Camejo, M.G.: Tumoral calcinosis.JAMA 121:490-495, 1943.
Knowles, S. & col.: Tumoral calcinosis.Br J Surg 70: 105-107, 1983.
Rothstein, J.L. & West, S.: Calcinosis universalis and calcinosiscircumscripta in infancy and in childhood: 3 cases of calcinosis universalis, with review of literature. Am J Dis Child 52: 368-422, 1936.
Viegas, S. F., Evans, E. B., Calhoun, J., Eng, M. & Goodwiller, S. E.: Tumoral calcinosis: a case report and review of literature.J Hand Surg 10:744-748, 1985.