Trabalho realizado pela equipe de Ortopedia e Traumatologia do Hospital Unimed, da cooperativa de trabalho médico Unimed Betim - Belo Horizonte (MG) - Brasil.
1. Médico Ortopedista e Traumatologista do Hospital Unimed Betim e Hospital Geral Governador Israel Pinheiro - IPSEMG - Belo Horizonte (MG) - Brasil.
2. Médico Ortopedista e Traumatologista do Hospital Unimed Betim - Belo Horizonte (MG) - Brasil.
3. Acadêmico do oitavo período da Faculdade de Medicina de Barbacena - Barbacena (MG) - Brasil.
Endereço para correspondência: Jamil José Saliba, Rua Raul Saraiva Ribeiro, 633, Guarujá - 32610-310 - Betim, MG. Tels.: (31) 3531-3482 e (31) 9163- 9386; fax: (31) 3531-2214. E-mail: gust96@terra.com.br

INTRODUÇÃO

A retenção de gás intra-ósseo é observada em várias doenças, como osteomielite, osteonecrose, acunhamento de corpo vertebral por trauma, neoplasia ou tuberculose e nos casos pós-cirúrgicos imediatos(1). Raramente, é atribuída a uma lesão benigna conhecida como pneumatocisto intra-ósseo, descrita no osso ilíaco e sacro, com ou sem comunicação com articulações adjacentes. O termo "pneumatocisto intra-ósseo" foi utilizado pela primeira vez por Ramirez et al para caracterizar cistos ósseos preenchidos por gás e detectados na articulação sacroilíaca(2).

Essa condição é mais freqüentemente encontrada em pacientes entre 20 e 50 anos de idade nos ossos ilíaco e sacro, adjacente às articulações sacroilíacas e raramente nas vértebras, úmero, clavícula e escápula(3-6). Embora a coleção de gases em discos intervertebrais degenerados, conhecida como fenômeno de vacuum, seja comum, as coleções de gases in-tra-ósseos são mais raras(1).

O pneumatocisto intra-ósseo, devido a sua raridade, é entidade pouco conhecida, sendo usualmente achado casual, não necessitando de tratamento.

O presente trabalho descreve um caso de pneumatocisto intra-ósseo identificado casualmente no osso ilíaco direito em um paciente de 13 anos de idade.

RELATO DO CASO
Paciente V.K.D., 13 anos de idade, sexo masculino, estudante, compareceu em agosto de 2002 ao Setor de Ortopedia do Hospital Unimed, da Cooperativa de Trabalho Médico Unimed Betim, com queixa de dor na coluna lombar havia aproximadamente um ano, em fincada, periódica, localizada, de média intensidade, somente quando se levantava.

Ao exame físico o paciente apresentou limitação de movimentos da coluna lombar pela dor, postura ativa, curvaturas da coluna fisiológicas, ausência de espasmos musculares paravertebrais, movimentos amplos da coluna cervical e lombar, músculos eutróficos e eutônicos com força muscular preservada contra gravidade e resistência; reflexos pate-lares e aquileus presentes e simétricos; sinal de Patrick bilateral negativo e coxofemorais com movimentos amplos e indolores.



O paciente foi encaminhado ao setor de Radiologia para a realização de exame complementar (radiografia). Os resultados do estudo radiográfico das regiões lombossacra e pélvica, realizado em 22 de agosto de 2002, revelaram presença de imagem lítica, circunscrita, no osso ilíaco, junto à articulação sacroilíaca direita, medindo cerca de 1,7 x 1,0cm, e espinha bífida em S1. A hipótese diagnóstica inicial foi de cisto ósseo simples (figura 1).

O estudo radiográfico foi complementado por tomografia computadorizada (TC), sendo utilizada a técnica de cortes axiais e coronais com 2mm, 3mm e 5mm de espessura, orientados por radiografia digital, sem a administração endovenosa de contraste iodado. As imagens evidenciaram lesão lítica homogênea, de limites bem definidos, na medula do osso ilíaco, junto à articulação sacroilíaca direita, preservada a cortical, não determinando solução de continuidade com a articulação, medindo 1,7 x 1,1cm e preenchida por ar (densidade -919UH). Essa imagem foi considerada como compatível com pneumatocisto intra-ósseo do ilíaco direito (figura 2).

A conduta terapêutica adotada, foi a observação, com controles periódicos por meio de estudo por imagem conforme a literatura preconiza.

 

O estudo radiográfico de controle realizado em 17 de fevereiro de 2002 revelou ilíacos sem alterações radiográficas visíveis, exceção feita à presença de espinha bífida em S1 (figura 3).

Estudo tomográfico realizado em 17 de fevereiro de 2004 das articulações utilizando a mesma técnica anteriormente citada demonstrou a presença de área focal lítica bem circunscrita na margem ilíaca da articulação sacroilíaca direita, sem solução de continuidade óssea com a articulação, preenchida por material com densidade de partes moles com focos de calcificação de permeio, medindo aproximadamente 1,9 x 0,8cm (figura 4).

A evolução do caso confirma a conduta preconizada na literatura e adotada pela equipe médica.

DISCUSSÃO
O pneumatocisto intra-ósseo é condição rara, benigna, caracterizada por uma lesão cística, comunicante ou não-comu-nicante com articulação adjacente ao osso ilíaco ou sacro, preenchida por gás, geralmente nitrogênio, sendo usualmente um achado casual ao RX ou TC(3-12). Outras localizações do pneumatocisto intra-ósseo - vértebras, úmero ou clavícula - são muito raras e poucos casos isolados foram descritos pela literatura(1,7-12). A lesão, nos estudos radiográficos, apresentase como área justaarticular luzente e com fino halo escleróti-(1,5). As imagens na tomografia computadorizada são típicas, uma vez que confirmam o conteúdo gasoso dessas lesões e descartam a necessidade de maiores investigações(1,4,7). Na ressonância magnética (RM) a lesão apresenta-se acentuadamente hipointensa em T1 e T2 e que não se impregna pelo contraste(1,7).

As imagens da TC e RM podem progressivamente demonstrar mudança na densidade do conteúdo do cisto, indicando a troca de gases por fluido ou tecido de granulação(1,7). No acompanhamento tomográfico do presente caso, após 18 meses observou-se o preenchimento da lesão por material com densidade de partes moles com calcificação de permeio.

A etiologia dessa lesão ainda não é muito bem esclarecida. Existem algumas sugestões, como processos degenerativos, traumas de repetição, nódulos de Schmorl's e remanescentes da notocorda(12-14). O mecanismo de acúmulo de gás também é incerto, mas a pressão negativa no interior da lesão, devido a algum processo também incerto, é supostamente a causa da liberação de nitrogênio dos tecidos moles que cercam a lesão.



Na evolução natural do pneumatocisto intra-ósseo é esperada a troca do conteúdo gasoso por fluido ou tecido de granulação, cujo tempo é impreciso (semanas, meses ou anos), porém sem possibilidades de agravamento ou malignização da lesão, o que preconiza o tratamento não invasivo dessa afecção(1,7).

O diagnostico diferencial de lesões com formação de gás intra-ósseo inclui osteomielite, osteonecrose, acunhamento de corpo vertebral por trauma, neoplasia, tuberculose e feridas operatórias(7).


A lesão descrita neste relato foi achado acidental, identificado no ilíaco em estudo radiográfico e tomográfico em paciente de 13 anos de idade com dor na coluna lombar com duração de um ano, e corresponde a um caso de pneumatocisto intra-ósseo, faixa etária atípica, não mencionada na litera-tura pertinente, em pesquisa a que procedemos.

O pneumatocisto intra-ósseo é lesão benigna, sendo as características da TC, em conjunto com a falta de sintomas específicos, dados importantes para o seu diagnóstico, evitando assim desnecessários procedimentos invasivos.


REFERÊNCIAS

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