a Departamento de Ortopedia, Santa Casa de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
b Serviço de Ortopedia e Traumatologia, Hospital Israelita Albert Einstein, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), São Paulo, SP,Brasil
c Instituto de Ortopedia, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil
d Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), São Paulo, SP, Brasil


Introdução

A osteoartrose é caracterizada por dor e disfunção arti-cular progressiva decorrentes de destruição da cartilageme do osso subcondral e ocorrem redução do espaçoarticular, inflamação/sinovite e formação de osteófitosperiarticulares.1-4Dentre as grandes articulações, a do joe-lho é a mais afetada, resulta em déficit funcional em 10% dosindivíduos acima de 55 anos e em 25% em casos de doençaavançada.5Atualmente não existem estudos epidemiológicosno Brasil que elucidem com precisão a prevalência da oste-oartrose ou os gastos públicos relacionados com a doença.Tendo em vista o aumento importante da expectativa de vidada população brasileira e o aumento da proporção de idosos,deve ser considerada de interesse em saúde pública.

Existem várias opções de tratamento conservador para aosteoartrose. Dentre elas estão redução do peso, fisioterapia,exercícios físicos e dispositivos extra-articulares para assis-tência à função. As opções de terapia farmacológica (anal-gésicos comuns, opioides, anti-inflamatórios não esteroidais,corticoides) são voltadas para o alívio da dor. Glicosaminas,diacerina e ácido hialurônico são drogas conhecidas comomodificadores da história natural da doença, que promovemmelhoria da função e da dor em curto prazo. Contudo, maisestudos são necessários para elucidação da eficiência das dro-gas para evitar a progressão da doença. Ainda não existemedicamento eficaz para mudar o curso da doença.

O líquido sinovial é composto, entre outros elementos, depolissacarídeos que contêm glicosamina e ácido glicurônicoe de ácido hialurônico, que é considerado uma molécula-chave na biomecânica articular. O ácido hialurônico éum biopolímero formado pelo ácido glucurônico e a N--acetilglicosamina. De textura viscosa, existe no líquidosinovial, no humor vítreo e no tecido conjuntivo colágeno denumerosos organismos e é uma importante glicosaminogli-cana (GAG) na constituição da articulação. Essa molécula éa única GAG não sulfatada. Tem a capacidade de se asso-ciar a proteínas para formar agregados moleculares, mas nãoforma proteoglicanos. Na articulação afetada pela osteoar-trose, ocorre redução da concentração e do peso molecular doácido hialurônico no líquido sinovial, o que altera suas pro-priedades, diminuiu sua viscosidade, reduzi a capacidade deabsorção de choque e lubrificação e leva ao dano da cartilageme ao aumento dos sintomas.

Acredita-se que o mecanismo de ação do ácido hialurônicona articulação está relacionado com a inibição de media-dores inflamatórios e enzimas condrodegenerativas, o quereduz a degradação da cartilagem e aumenta a produção dematriz cartilaginosa.7,14As preparações de ácido hialurônico para uso intra-articular podem ser divididas ainda entre asde baixo e de alto peso molecular. De acordo com algunsestudos, há vantagens em relação ao uso da apresentaçãode alto peso molecular.7,8Apesar dos possíveis benefícios daviscossuplementação, seu uso ainda permanece controverso.

A presente revisão tem como objetivo avaliar as evi-dências atuais que apoiem ou contraindiquem o uso deviscossuplementação intra-articular com ácido hialurônico notratamento da osteoartrose do joelho.

Materiais e métodos

Foi feita uma revisão da literatura nos bancos de dadosMedline, Pubmed, Cochrane Controlled Trial Register eCochrane Databases Systematic Reviews (Cochrane Library).A pesquisa usou como palavras-chaves viscosupplementation,hyaluronic acid, osteoarthritis, randomised, review e meta-analysis.Foram incluídos apenas estudos definidos com alta qualidadede evidências (Nível A - segundo Oxford Centre for EvidenceBased Medicine),15como revisões sistemáticas, metaná-lises e ensaios clínicos controlados randomizados (ECR).A população de interesse incluiu pacientes com osteoartrosesintomática do joelho em tratamento não cirúrgico paraosteoartrose dolorosa.

Critérios de inclusão dos artigos:

- Revisões sistemáticas ou metanálises de ensaios clínicosrandomizados que avaliam o uso da viscossuplementaçãointrarticular para o tratamento de osteoartrose no joelho emhumanos;

- Ensaios clínicos randomizados (ECR) controlados que com-param o uso de viscossuplementação com placebo ououtro medicamento, adequadamente desenhados e queincluam pelo menos 100 pacientes em cada intervenção(viscossuplementação, viscossuplementação e placebo).

Critérios de exclusão dos artigos

- Estudos em animais;

- Estudos com menos de 100 pacientes em cada braço deintervenção.

Resultados

Dos 239 estudos potencialmente elegíveis pesquisados naMedline e no Pubmed (palavras-chaves: viscosupplementationAND hyaluronic acid), apenas 13 preencheram os critérios deinclusão. Desses, seis eram ensaios clínicos randomizados,cinco revisões sistemáticas e duas metanálises. Os resumos e

comentários dos estudos avaliados estão inseridos nos tabelas1 e 2.16-28

Discussão

A osteoartrose é a forma mais comum de artrite em pacienteacima de 50 anos e o joelho está entre as articulações maiscomumente acometidas. Por ser uma articulação de carga, aalteração da sua biomecânica leva a importante morbidade elimitação funcional.6Com o aumento da expectativa de vidada população brasileira, a osteoartrose tende a se tornar umproblema de saúde pública. Não há no Brasil estudo direcio-nado a avaliar a prevalência da osteoartrose nem os gastospúblicos envolvidos no seu tratamento.6Nos Estados Unidos,a venda de medicamentos para o tratamento da doença movi-mentou US$ 760 milhões em 2004.

As opções de terapia farmacológica para gonartrose dis-poníveis atualmente visam a promover o alívio da dor e amelhoria funcional. Ainda não existem medicamentos dis-poníveis no mercado que comprovadamente influenciem naprogressão da doença.

Em indivíduos com osteoartrose, o ácido hialurônico nolíquido sinovial sofre redução na sua concentração e no seupeso molecular, o que leva a perda da viscosidade e, conseq-uentemente, das funções de lubrificação e absorção de choque,o que contribui para a progressão da degeneração articular eativação das vias inflamatórias.13,30A viscossuplementaçãocom ácido hialurônico foi desenvolvida para promover umalívio mais duradouro da dor, recuperação funcional e pararetardar a progressão da doença.17Diferentes mecanismostêm sido propostos para justificar o seu efeito, tais comoo estímulo para produção de ácido hialurônico endógeno, asupressão da degradação da matriz cartilaginosa e a supres-são da resposta inflamatória a interleucina-1. Para aumentarainda mais a sua viscosidade e diminuir o clearance articular,foram criados compostos de ácido hialurônico quimicamentemodificados para ter um peso molecular mais alto (cerca de23x107daltons) assim como uma meia-vida maior, o que teori-camente aumentaria o potencial e a duração do seu efeito.

Navarro-Sarabia et al.,17em um ensaio clínico randomi-zado controlado, multicêntrico, com 40 meses de seguimento,denominado The Amelia Project, avaliaram 306 pacientes commais de 45 anos com osteoartrose do joelho (grau II e III deKellgren-Lawrence com espaço articular mínimo de 2 mm).Foram feitos quatro ciclos de injeção intra-articular de ácidohialurônico ou placebo. Os pacientes foram avaliados quantoà melhoria clínica e funcional e quanto aos efeitos colaterais.Os autores concluíram que o tratamento é seguro e que houvemelhoria sintomatológica e funcional significativa em relaçãoao grupo controle, com efeito mantido mesmo após um anoda última aplicação.

Chevalier et al.16avaliaram 253 pacientes com osteoar-trose primária sintomática de joelho com mais de 40 anosem um estudo multicêntrico, randomizado e duplo cego, com26 semanas de seguimento. Os pacientes receberam umaúnica aplicação de um composto de alto peso molecular(Hylan G-F 20) ou placebo. A segurança do tratamento e

a repercussão clínica (WOMAC index) foram avaliadas e osautores concluíram que o tratamento é seguro e que houvemelhoria clínica significativa nos pacientes submetidos aviscossuplementação.

Assim como no estudo citado anteriormente, em umestudo randomizado e multicêntrico, Raynauld et al.19ava-liaram, por um ano, 255 pacientes que receberam ácidohialurônico de alto peso molecular ou placebo. Os autoresencontraram uma diferença significativa (maior do que 20%no escore Womac) entre os grupos, o que demonstra bene-fícios com a viscossuplementação. Outros ECR que usaramácido hialurônico de alto peso molecular listados na tabela 1também concluem que houve melhoria clínica significativa.

Considerando o peso molecular do ácido hialurônico a serusado, dois estudos compararam o uso de ácido hialurônicoe alto e baixo peso molecular para o tratamento da osteoar-trose. Segundo Raman et al.,20o uso do ácido hialurônico dealto peso (Hylan G-F 20) tem a vantagem de um efeito maisduradouro, mas com eficácia clínica e tolerabilidade seme-lhante às outras apresentações. Jüni et al.21concluíram, emseu ensaio clínico que comparou três apresentações do ácidohialurônico para o tratamento da osteoartrose do joelho, quenão há diferença significativa determinada pelo diferente pesomolecular do ácido hialurônico.

Bellamy et al.,26em uma revisão sistemática de 76 estu-dos de qualidade mediana, chegaram à conclusão de que aviscossuplentação é segura e leva a melhoria clínica e funci-onal significativa quando comparada com o placebo. Referemainda que o efeito é mais duradouro em relação ao uso intra--articular de corticosteroides. Muitos estudos inclusos nessarevisão não tinham delineamento adequado.

Aggarwal e Sempowski,22após revisão de cinco sériesde casos e de 13 ECRs, concluíram que o uso deviscossuplementação para osteoartrose de joelho de leve amoderada intensidade, sintomática, com ácido hialurônico dealto peso molecular demonstra benefícios significativos emrelação à melhoria clínica e quanto à durabilidade do efeito.Demonstram ainda uma boa tolerabilidade ao tratamentoe, que, quando comparado com o uso de corticoide intra--articular, apresenta pico de ação mais tardio e efeito maisduradouro. Miller et al.27analisaram o efeito e a segurançada viscossuplementação em pacientes com osteoartrose do joelho e totalizaram uma amostra de 4.866 indivíduos em29 ECRs. Foram excluídos estudos com delineamentos inade-quados ou com amostras insuficientes. Os autores concluíramque a viscossuplementação é eficaz na melhoria clínica e fun-cional, além de segura.

Rutjes et al.,28em uma metanálise, avaliaram 89 estudos e12.667 participantes com osteoartrose do joelho. A conclusãodos autores foi devido à falta de evidências de melhoria clínicae funcional significativa, além do potencial risco de efeitosadversos graves, a viscossuplementação deve ser desencora-jada no tratamento da gonartrose.

Segundo o Guideline de 2013 para tratamento da oste-oartrose do joelho23da American Academy of OrthopaedicSurgeons (AAOS), após uma metanálise que envolveu 14 ECRs,há forte evidência para não recomendar o uso de ácidohialurônico intra-articular, porque todos os estudos compara-tivos com grupo controle mostraram uma incerteza quanto àaplicação clínica e prática do tratamento. Cinco dos sete estu-dos avaliados, sobre peso molecular, apresentavam pacientesque talvez não representassem a condição geral da populaçãocom osteoartrose de joelho. Essa metanálise foi criticada peloestudo de Miller et al.27devido à confusão na análise dos dadose quanto ao uso de compostos não aprovados nos EstadosUnidos.

Considerações finais

O padrão do tratamento da osteoartrose com o uso de ácidohialurônico é extremamente variável entre os estudos. Hádiferenças nas preparações usadas, no número de aplicações,na dose injetada por aplicação e na quantidade de ciclos, alémda diferença de tempo entre eles. O perfil dos pacientes anali-sados em cada estudo também varia, alterna pacientes jovenscom artrose leve com pacientes idosos com artrose grave. Osparâmetros para análise de melhoria clínica e funcional tam-bém mudam entre os estudos. Muitos não dispõem de grupocontrole e ainda há carência de estudos que comparem aviscossuplementação com outros tratamentos. A maioria dosestudos tem qualidade ruim e delineamentos inadequados.

Conclusão

Diante das evidências existentes atualmente, ainda não existeuma base sólida para indicação ou até mesmo contraindicaçãodo uso de viscossuplementação intra-articular com ácido hia-lurônico ou seus derivados no tratamento da osteoartrosesintomática do joelho.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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