INTRODUÇÃO

A indicação de cirurgia artroscópica em pacientes acima de 40 anos é discutível, principalmente nos casos de artrose sintomática do joelho. A dor e a incapacidade funcional seriam decorrentes das alterações ao nível da cartilagem articular e dos meniscos, levando a morbidade significante(10,11, 18,27). O papel da lesão meniscal, como fonte de sintomas, no entanto, é questionado, interrogando-se a validade de sua ressecção e se este procedimento aliviaria os sintomas do paciente(13,24).

Smillie(24), em 3.000 meniscectomias, notou que 50% das lesões meniscais ocorriam em pacientes com idade média de 43 anos e que essas lesões apresentavam-se de forma horizontal, ou seja, paralelas à superfície articular da tíbia. As lesões longitudinais, na maioria das vezes, eram resultantes de atividades atléticas e ocorriam em uma fibrocartilagem normal sem evidências de degeneração, sendo vistas em 36% dos pacientes, com idade média de 31 anos.

Jones(13) demonstrou que a meniscectomia medial poderia retardar a progressão da artrose e do varismo do joelho em pacientes idosos; porém, já no início do século surgiu a idéia da meniscectomia parcial nesse grupo de pacientes(1,8,17).

Estudos biomecânicos mais recentes demonstraram que a preservação e a cura da lesão meniscal seriam de fundamental importância para a função da articulação(5,9,14,15,19,20,23,27). O alinhamento do membro teria, também, relação direta com os bons resultados(10,11).

No paciente idoso, com alterações degenerativas mínimas e com sintomas tais como derrame articular, bloqueios e falseios do joelho, cria-se um dilema: seriam esses sintomas devidos à lesão meniscal ou às lesões degenerativas? A meniscectomia diminuiria a sintomatologia(17,21)?

Este trabalho tem como objetivo demonstrar a eficácia da artroscopia do joelho em pacientes acima de 40 anos, discutir a indicação desse procedimento nesta faixa etária e mostrar se o alinhamento do membro seria um fator de bom prognóstico no resultado.

MATERIAL E MÉTODOS

Foram levantados os prontuários de 96 pacientes, em faixa etária acima de 40 anos, submetidos a cirurgia artroscópica do joelho, entre março de 1988 e dezembro de 1996. Nenhum dos pacientes, para ser incluído no estudo, poderia ter sido submetido a intervenções cirúrgicas prévias no joelho (meniscectomias, osteotomias, drenagem de infecção osteoarticular e/ou outros). Nos pacientes com desvio de eixo, a indicação de artroscopia isolada, sem associar-se a osteotomia, ocorreu nos casos sem pinçamento articular radiológico, no apoio monopodálico.

Avaliaram-se, então, 71 pacientes, 41 do sexo masculino (57,7%) e 30 do feminino (42,3%). Trinta e oito joelhos eram do lado direito e 33, do esquerdo.

Quanto à faixa etária, 33 pacientes (46,5%) tinham entre 40 e 50 anos (grupo I), 11 (15,5%) entre 51 e 60 anos (grupo II), 22 (31,0%) entre 61 e 70 anos (grupo III) e 5 (7,0%) entre 71 e 80 anos (grupo IV). O tempo de seguimento mínimo foi de 10 meses e o máximo, de 9 anos e 6 meses, com seguimento médio de 3 anos e 11 meses (gráfico 1).

Achados pré-operatórios - A dor foi a principal queixa em 60 pacientes (84,5%) dos casos. Onze pacientes (15,5%) apresentaram história de falseio, bloqueio, entorse ou derrame articular. Vinte e seis pacientes (36,6%) descreviam uma causa traumática para os sintomas, enquanto 45 (63,4%) não relatavam traumatismo prévio.

O tempo do início dos sintomas até a data da cirurgia foi avaliado, observando-se que 22 pacientes (30,9%) foram operados entre 0 e 3 meses do início dos sintomas, 13 (18,3%) entre 3 e 6 meses, 18 (25,4%) entre 6 e 12 meses e 18 (25,4%) acima de 12 meses.

Dezesseis pacientes (22,5%) foram submetidos a infiltração intra-articular antes do procedimento e isto não foi critério de exclusão.

O derrame articular, no pré-operatório, esteve presente em 51 pacientes (71,8%).

Em 21 pacientes (29,6%) havia desvio em varo dos joelhos, 10 (14,1%) apresentavam valgismo e 40 (56,3%) tinham eixo normal (gráfico 2).

No exame clínico o teste de McMurray foi positivo em 65 pacientes (91,5%) e o teste de Apley em 62 (87,3%). A dor à palpação da interlinha medial esteve presente em 65 pacientes (91,5%).

Achados peroperatórios - As lesões do menisco medial foram encontradas em 63 pacientes (88,7%) e destas, 74,6% eram degenerativas e as outras mostravam-se como flaps ou em alça de balde. As lesões do menisco lateral foram encontradas em 22 pacientes (31,0%). A presença de lesão condral foi vista em 35 pacientes (49,3%). Em 6 pacientes (8,5%) foi visibilizado um corpo livre articular e 5 (7%) apresentavam lesão do ligamento cruzado anterior.

Em 16 pacientes foi necessário fazer infiltração intra-arti-cular pós-operatória, 1 paciente evoluiu para a osteotomia tibial de valgização e 2 para artroplastia total do joelho.


Um sistema de pontuação clínica, baseado em Yang & Nisonson(27), foi usado para avaliar a dor, a função e a amplitude dos movimentos. Os achados clínicos eram pontuados (tabela 1) e graduados em excelentes, bons, regulares e maus.

 

RESULTADOS

Na análise dos resultados, foram observados 46,5% de excelentes (33 pacientes), 15,4% de bons (11), 26,8% de regulares (19) e 11,3% de maus (8).


Ao avaliar os pacientes por faixa etária, pôde-se notar que, dos 33 do grupo I, 22 (66,7%) apresentaram excelentes resultados, 5 (15,2%) tiveram bons, 5 (15,1%) regulares e 1  apresentou mau resultado (gráfico 3).


Dos 11 pacientes do grupo II, 3 (27,3%) mostraram excelentes resultados; 3 (27,3%), bons; 4 (36,3%), regulares; e 1(9,1%) mau resultado (gráfico 4).

Dos 22 pacientes do grupo III, 7 (31,8%) apresentaram excelentes resultados, 3 (13,6%) bons, 8 (36,4%) regulares e 4 (18,2%) maus resultados (gráfico 5).

Nos pacientes do grupo IV, houve 1 excelente (20,0%), 2 regulares (40,0%) e 2 maus (40,0%) resultados (gráfico 6).

Ao avaliar os pacientes com relação ao tempo de início dos sintomas e a época do tratamento cirúrgico, pôde-se observar que nos 22 operados entre 0 e 3 meses do início dos sintomas houve 15 resultados excelentes (68,2%) e 7 regula-res (31,8%). Nos 13 pacientes operados entre 3 e 6 meses do início dos sintomas, houve 6 resultados excelentes (46,1%), 1 bom (7,7%), 3 regulares (23,1%) e 3 maus (23,1%). Nos 18 pacientes operados entre 6 e 12 meses do início dos sintomas, 6 (33,3%) tiveram excelentes resultados, 5 (27,8%) bons, 6 (33,3%) regulares e 1 (5,6%) mau resultado. Nos 18 pacientes operados após 12 meses do início dos sintomas, 9 (50,0%) apresentaram excelentes resultados, 3 (16,7%) bons, 2 (11,1%) regulares e 4 (22,2%) maus resultados.

Ao avaliar se sua presença no exame inicial influenciaria nos resultados, pôde-se observar que nos 51 pacientes com derrame articular houve 21 (41,2%) com resultados excelentes, 8 (15,7%) com bons, 16 (31,4%) com regulares e 6 (11,7%) com maus resultados. Nos 20 pacientes sem derrame articular, 12 (60%) tiveram excelentes resultados, 3 (15,0%) apresentaram bons resultados, 3 (15,0%) regulares e 2 (10,0%) maus resultados.

Na avaliação da presença ou não de desvio de eixo do joelho, pôde-se observar que nos 40 joelhos alinhados, 24 (60,0%) apresentaram excelentes resultados, 5 (12,5%) bons, 6 (15,0%) regulares e 5 (12,5%) maus resultados. Nos 19 casos de varo do joelho, observaram-se 9 resultados excelentes (47,3%), 2 bons (10,6%), 7 regulares (36,8%) e 1 mau resultado (5,3%). Nos 12 casos de valgo do joelho, puderam observar-se 3 excelentes resultados (25,0%), 3 bons (25,0%), 6 regulares (50,0%) e nenhum mau resultado (gráfico 7).

Uma paciente do grupo III apresentou, como complicação, trombose venosa profunda.

DISCUSSÃO

As lesões meniscais são freqüentes em pacientes acima dos 40 anos(11). Há evidências de que a lesão meniscal possa ser um processo fisiológico da idade(1).

Não existe, com isso, consenso sobre o tratamento a ser realizado e se a artroscopia é um método útil nesses pacien-(25). A preservação do menisco ou sua ressecção mínima é, porém, defendida como a mais correta(5). A simples lavagem do joelho é também considerada uma forma de tratamento(4). Aceita-se que as alterações degenerativas no joelho pioram os resultados do tratamento artroscópico(3,11).

No presente estudo, buscou-se avaliar um grupo de pacientes submetidos a cirurgia artroscópica, para o tratamento da lesão meniscal.

Como a faixa etária desses pacientes era muito heterogênea, procurou-se dividi-los em grupos relacionados com sua faixa etária (grupos I, II, III, IV) e observar se a idade seria importante nos resultados.

Assim, ao desprezar o fator idade, globalmente, obtive-ram-se 61,9% de resultados excelentes e bons e 38,1% de resultados regulares e maus. Esses dados são inferiores aos apresentados por Camanho(2) em um período de seguimento menor que 3 anos, mas comparáveis aos de Yang & Nison-(27), que apresentaram 64,8% de resultados excelentes e bons, e aos de Lotke et al.(16) (63%).

Ao avaliar os grupos de acordo com as faixas etárias, pôdese observar que, no grupo I, 81,9% dos casos apresentavam resultados excelentes e bons e 18,1%, resultados regulares e maus; no grupo II, 54,6% mostravam resultados excelentes e bons e 45,4%, resultados regulares e maus; no grupo III, 45,6% tinham resultados excelentes e bons e 54,4%, resultados regulares e maus; e no grupo IV, 20,0% exibiam resultados excelentes e bons e 80,0%, resultados regulares e maus.

Pode-se, então, afirmar, que o fator idade é estatisticamente importante nos resultados, pois os pacientes do grupo I evoluíram melhor que os dos grupos II, III e IV e que os pacientes do grupo IV foram os que apresentaram os piores resultados.

Dos pacientes que necessitaram outros procedimentos (duas artroplastias totais e uma osteotomia), um estava no grupo I, um no grupo II e um no grupo III e foram de antemão considerados maus resultados.

Ao comparar os resultados com relação ao tempo de início dos sintomas e o tratamento cirúrgico, não se evidenciou diferença estatisticamente significante entre os grupos estudados, apesar de haver piores resultados no grupo operado entre 3 e 6 meses (53,8% de resultados excelentes e bons, contra 68,2% nos operados entre 0 e 3 meses, 61,1% nos operados entre 6 e 12 meses e 66,7% nos operados após 12 meses). Esses achados discordam daqueles de Johnson et al.(12) e Gear(7), mas estão de acordo com os de Fahmy et al.(6).

Ao comparar os resultados com relação ao alinhamento do membro, observaram-se melhores resultados no grupo com alinhamento normal (72,5% de resultados excelentes e bons), quando comparados com os desvios em varo (57,9% de resultados excelentes e bons) e com os desvios em valgo (50,0% de resultados excelentes e bons). Isso está de acordo com os achados de Salisburg et al.(21), que chegam a contra-indicar a artroscopia quando existe desvio em varo do joelho.

CONCLUSÃO

A avaliação deste grupo de 71 pacientes acima de 40 anos, submetido à artroscopia do joelho, permite as seguintes conclusões:

1) Os melhores resultados ocorreram no grupo de pacientes mais jovens.

2) Os desvios de eixo são fatores de mau prognóstico no resultado.

3) O tempo decorrido entre o início dos sintomas e a época da cirurgia não pareceu influenciar os resultados.

 

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