INTRODUÇÃO
A hipersensibilidade ao látex é um emergente problema de saúde que pode resultar em significativas morbidade e mortalidade. Pacientes com spina bifida, paralisia cerebral e malformações geniturinárias congênitas(8,10,23,25), que são submetidos a múltiplos procedimentos cirúrgicos ao longo de sua vida, bem como profissionais da saúde e trabalhadores das indústrias que manipulam a substância(7,11), parecem ser mais vulneráveis ao desenvolvimento da sensiblização.

Prof. Regente da Disc. de Ortop. e Traumatol. da Fac. de Med. da PUCRS; Chefe do Serv. de Ortop. e Traumatol. do Hosp. São Lucas da PUCRS.

Prof. Assist. da Disc. de Ortop. e Traumatol. da Fac. de Med. da PUCRS; Assist. do Serv. de Ortop. e Traumatol. do Hosp. São Lucas da PUCRS.

Acadêmica da Fac. de Med. da PUCRS.

O látex é derivado da planta Hevea brasiliensis, composta de nucleotídeos, lipídios, proteínas e co-fatores(21) contendo de 2 a 3% de material protéico livre residual, que provavelmente é responsável pela antigenicidade.

Os cirurgiões em geral e os anestesistas devem estar conscientes desse risco, das medidas diagnósticas, profiláticas e do tratamento da anafilaxia instalada. O uso de ambientes cirúrgicos desprovidos do alérgeno deve ser considerado sempre que interviermos em pacientes sabidamente sensíveis à substância ou em grupos de risco, como no caso da mielomeningocele.

DISCUSSÃO
Em 1979, Nutter descreveu hipersensibilidade ao látex produzida por luvas cirúrgicas, cujas manifestações variaram desde dermatite de contato até verdadeira anafilaxia sis-têmica(18). A hipersensibilidade ao látex é causada por exposições múltiplas aos alérgenos contidos nesse material decorrentes de seu contato com as superfícies mucosas do paciente, o que costuma ocorrer em estudos radiológicos com cateter, uso continuado de sondagem vesical e repetidos procedimentos cirúrgicos, situações estas rotineiras em casos com mielomeningocele, paralisia cerebral e malformações do trato geniturinário. A gravidade da reação alérgica está intima-mente relacionada à intensidade e ao local da exposição aos antígenos do látex.

Há evidências de que existe relação entre os sistemas imunológico e nervoso(3,19), resultando em maior sensibilização ao látex em pacientes com distúrbios neurológicos, como no caso da mielomeningocele(4). Nessa situação, encontramos incidência de 18 a 40% de reações alérgicas a esse material, que ocorrem preferencialmente em crianças após o 4º ano de vida. Por isso, supõe-se que a reação se desenvolva gradativamente através das sucessivas exposições ao alérgeno(6).

Os indivíduos alérgicos ao látex parecem ser sensíveis a múltiplos agentes; o quadro clínico depende da intensidade da reação(5) e é diferente em crianças e adultos. Embora os sintomas atópicos sejam comuns aos dois grupos, eles apresentam diferente história natural. A IgE específica, cujos níveis circulantes não podem ser relacionados com a intensidade da reação, é mais facilmente detectada na infância do que em pacientes adultos(8,14-16,22).

As reações alérgicas são freqüentemente causadas por balões e luvas de borracha(2,3), visto que estes contêm talco ou similar em sua superfície que funciona como veículo de liberação das proteínas do látex, além do fato de esses materiais entrarem quase sempre em contato direto com as mucosas do paciente.

Clinicamente, as reações alérgicas são subdivididas em quatro grupos, de acordo com a intensidade da reação(12).

Tipo I – Reações não sistêmicas, urticária de contato ou erupções cutâneas com prurido.

Tipo II – Reações sistêmicas suaves, incluídas as manifestações do grupo I, somadas a uma ou mais características tais como: angioedema, broncoespasmos suaves ou dor abdominal.

Tipo III – Reações sistêmicas moderadas: manifestações dos grupos anteriores somadas a uma ou mais características, tais como: edema de laringe, broncoespasmo grave.

Tipo IV – Reações sistêmicas graves (anafilaxia): comprometimento cardiovascular (hipotensão e arritmia), respiratório (cianose) ou do SNC (perda de consciência, síncope).

As reações anafiláticas durante a anestesia geral apresen-tam-se sem pródromos; por isso, o reconhecimento precoce dos sintomas e a profilaxia são essenciais para evitar problemas catastróficos. A sintomatologia costuma aparecer após cinco a 30 minutos do início do procedimento, podendo este prazo estender-se até por quatro horas(8). Eventos cutâneos, respiratórios e circulatórios são secundários a vasodilatação periférica (aumento da permeabilidade vascular e diminuição do volume intravascular), a qual é resultado de rápida liberação de histamina e de outros agentes vasoativos.

A FDA(6) recomenda que todos os pacientes sejam questionados a respeito de alergias prévias ao látex, particular-mente os com mielomeningocele e os demais pertencentes aos grupos de risco, além de preconizar o uso de ambiente desprovido desse material nos casos suspeitos.

De acordo com a Task Force on Allergic Reactions to Latex of the American Academy of Allergy and Immunology, as reações ao látex podem ser evitadas ou controladas se algumas recomendações forem seguidas, dentre as quais se in-cluem(26):

• Todas as pessoas de alto risco devem ser identificadas. Isso inclui crianças com mielomeningocele, paralisia cerebral e malformações do trato geniturinário(17) bem como to-dos os que usam materiais de látex regularmente, tais como profissionais da saúde e trabalhadores envolvidos com a manufatura de produtos que contenham borracha natural.

O teste diagnóstico (IgE específica) deve ser oferecido a todos os pacientes de alto risco.

Todos os pacientes com mielomeningocele e os que tenham história clínica pregressa de alergia devem ser protegidos por ambiente totalmente desprovido de produtos com esse material quando submetidos a procedimentos cirúrgicos. Além disso, a medicação prévia com anti-histamínicos (antagonistas H1) e esteróides deve ser aconselhada.

Deve ser observada cuidadosamente a história clínica de sensibilização ao látex em todos os pacientes, independentemente de pertencerem ou não a grupos de risco.

Testes diagnósticos de rotina não são recomendados para pacientes de baixo risco sem história clínica de alergia(10).

Pacientes alérgicos ao látex devem ser identificados e orientados sobre a natureza desta alergia e sobre o tratamento de emergência da crise instalada, de modo que eles próprios possam medicar-se com adrenalina injetável(20).

CONCLUSÕES
Recentemente, tem aumentado no mundo a incidência de alergia ao látex; é estimado que, na população em geral, um em cada 3.000 pacientes apresenta hipersensibilidade a esse material(1).

Pessoas que tenham tido exposições repetida aos produtos do látex, seja por trabalharem diretamente com esse material ou por se submeterem a vários procedimentos cirúrgicos nos quais se usa a substância (os com mielomeningocele, paralisia cerebral e malformações geniturinárias congênitas), são enquadradas como pertencentes a grupo de alto risco no desenvolvimento de reações de hipersensibilidade ao látex.

A reação anafilática ocorre a partir do contato do alérgeno contido no látex com as múltiplas superfícies mucosas do paciente, tanto as expostas naturalmente (oral, retal, nasal, ocular e outras), quanto as transoperatórias (pleura e peritônio). Qualquer paciente sensibilizado ao látex pode ter reação significativa se a dose do antígeno é alta ou se a rota de entrada promove exposição sistêmica.

Os sinais gerais da reação alérgica transoperatória incluem rubor da pele, urticária, hipotensão arterial, taqui ou bradicardia, obstrução respiratória e borncoespasmo(13). Uma vez que surja a suspeita de alergia ao látex, o uso profilático de medicamentos pré-anestésicos e de ambiente desprovido deste material deve ser considerado, o que exclui luvas, acessórios e materiais anestésicos manufaturados com látex, pois estes podem desencadear reação de hipersensibilidade por contato direto ou por dispersão aérea(24).

Quando utilizadas luvas contendo látex, estas devem ser manipuladas fora da sala cirúrgica, além de ser lavadas com água corrente antes do uso, pois, neste último caso, acreditase que grande parte dos antígenos será removida(24).

A anafilaxia transoperatória envolve alterações sistêmicas que poderão ser fatais se não forem prontamente percebidas e tratadas. Por essa razão, é imprescindível que os cirurgiões e anestesistas estejam sempre alerta para as possíveis alterações decorrentes dessa patologia.

REFERÊNCIAS

1. Banta, J.V., Bonanni, C. & Prebluda, J.: Latex anaphylaxis during spinal surgery in children with myelomeningocele. Dev Med Child Neurol 35: 543-548, 1993.

2. Baur, X.: Latex-specific proteins causing immediate-type cutaneous, nasal, bronchial, and systemic reaction. J Allergy Clin Immunol 89: 759- 768, 1992.

3. Beezhold, D. & Beck, W.C.: Surgical glove powders bind latex anti- gens. Arch Surg 127: 1354-1357, 1992.

4. Bienenstock, J., MacQuenn, G., Sistini, P. et al: Mast cell/nerve interac- tions in vitro and in vivo. Am Rev Respir Dis 143: 555-558, 1991.

5. Carrillo, T., Cuevas, M., Munoz, T. et al: Contact urticaria and rhinitis from latex surgical gloves. Contact Dermatitis 15: 69-72, 1986.

6. Food and Drug Administration: Allergic responses to latex-containing medical devices. Health Watch 11: 5, 1991.

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9. Kelly, K.J., Kurup, V., Reijula, K.E. et al: The diagnosis of natural rub- ber latex allergy. J Allergy Clin Immunol 93: 813-816, 1994.

10. Kelly, K., Sitlock, M. & Davis, J.P.: Anaphylactic reactions during ge- neral anesthesia among pediatric patients. MMWR 40: 437-443, 1991.

11. Kleinhaus, D.: Contact urticaria to rubber gloves. Contact Dermatitis

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26. Task Force on Allergic Reaction to Latex: Committee report. J Allergy Clin Immunol 92: 16-18, 1993.

Rev Bras Ortop _ Vol. 32, Nº 2 – Fevereiro, 1997