INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, com o aparecimento de novos materiais protéticos(24,27), diferentes tipos de prótese(9,15), técnicas de abordagem(12) e cimentação adequada(16), houve grande avanço nas cirurgias de artroplastia do quadril.

Dentre as hemiartroplastias do quadril, a prótese do tipo bipolar é indicada no tratamento das fraturas do colo femo-(1,5,20,25,26), das pseudartroses do colo do fêmur(4), das osteoartroses primárias do quadril(14,22), das necroses da cabeça femoral(6) e da anemia falciforme(23). Entretanto, algumas complicações são relatadas na utilização desse tipo de prótese, como luxação(7), soltura asséptica(18,19), osteólise acetabu-lar(3), falência do polietileno(13), metalose(17) e, principalmente, a perda da mobilidade entre os componentes interprotéti-cos(8), transformando-a em bloco unipolar.

O objetivo do trabalho foi avaliar a amplitude dos movimentos da articulação do quadril e analisar as variações angulares encontradas em pacientes submetidos à hemiartroplastia com prótese do tipo bipolar.

CASUÍSTICA E MÉTODOS

Foram reavaliados 14 pacientes, com fratura do colo femoral, submetidos à hemiartroplastia do quadril com prótese do tipo bipolar. Desses, 11 (79%) eram do sexo feminino e 3 (21%) do masculino. A idade variou de 48 a 87 anos, com média de 72 anos. O lado esquerdo foi acometido em 12 (86%) pacientes e o lado direito em 2 (14%). O tempo de seguimento variou de 46 a 88 meses, com média de 68 meses.

Utilizamos a classificação de Garden para fraturas do colo do fêmur(10), sendo 9 (64%) de grau III e 5 (36%) de grau IV. Em todos os pacientes, a via de acesso foi a lateral direta(12), com cimentação do componente femoral.

Todas as próteses foram fornecidas pela mesma empresa (Baumer S/A).

A amplitude dos movimentos do quadril e as variações angulares foram medidas através do estudo das radiografias em posição neutra, abdução e adução máximas.

Foi obtido um ângulo a, através de uma reta passando pela base da cúpula de titânio e outra pelo eixo do colo da prótese (fig. 1). Esse ângulo serviu para observar as variações angulares interprotéticas, ou seja, cabeça metálica e cúpula de polietileno.

O ângulo ß foi medido por uma reta passando pela linha iliisquiática e outra da base da cúpula metálica (fig. 2), mostrando as variações angulares entre a cúpula e a superfície articular do acetábulo.

Esses ângulos foram aferidos através de radiografias obtidas em abdução e adução máximas e comparados com a posição neutra.

O ângulo cervicodiafisário foi encontrado através de uma reta passando pelo centro da cúpula metálica e outra no eixo longo da prótese (fig. 3).

RESULTADOS

As características gerais, como idade, sexo, lado acometido e tempo de seguimento dos pacientes avaliados, estão na tabela 1.

Na tabela 2 encontram-se valores de a e ß em posição neutra, abdução, adução, as variações totais e o ângulo cervicodiafisário.

O ângulo a, na incidência ântero-posterior, variou de 50 a 100º, com média de 74º. As variações angulares encontradas quando em abdução máxima foram de 0 a 17º, com média de 8º e, em adução, de 0 a 28º, com média de 8º2'.

O ângulo ß variou de 13 a 58º, com média de 35º2', na incidência ântero-posterior. As variações angulares quando em abdução máxima foram de 0 a 21º, com média de 8º5' e, em adução, de 0 a 28º, com média de 11º5'.

A variação angular total de a (articulação interprotética), medida pela abdução e adução máximas, foi de 2 a 32º, com média de 16º3'.

A variação angular total de ß (cúpula de titânio/superfície acetabular), medida pela abdução e adução máximas, foi de 4 a 49º, com média de 20º.

O ângulo cervicodiafisário variou de 97 a 160º, com média de 125º.

Os casos 1 e 8 não apresentaram variação significativa do ângulo a (4 e 2º).

Os casos 2, 11 e 14 não apresentaram variação do ângulo ß acima de 10º (8º, 4º e 8º). DISCUSSÃO

A prótese do tipo bipolar surgiu com a perspectiva de artroplastia de baixa fricção(2,11), projetada para ter movimentos interprotéticos.

Inicialmente, foi bastante difundida; entretanto, com o pas-sar do tempo, recebeu diversas críticas devido a diferentes complicações, principalmente quanto à falência da mobilidade interprotética(8).

Na tentativa de observar a movimentação desse tipo de prótese, avaliamos as medidas de três diferentes ângulos das radiografias, nas posições ântero-posterior, abdução e adução máximas de 14 pacientes com fraturas do colo femoral tratados por hemiartroplastia do tipo bipolar. Dessa forma, foi possível avaliar a mobilidade interprotética e da cúpula de titânio/superfície articular do acetábulo. A abordagem operatória foi por acesso lateral direto(12), com cimentação do componente femoral em todos os casos.

Não foram observadas luxações interprotéticas, soltura do componente femoral e protrusão acetabular.

O ângulo a (interprotético), em toda sua amplitude (abdu-ção/adução), em dois (14%) casos (1 e 8), ficou em 4 e 2º; portanto, evidenciava o sistema metal/polietileno travado. Nesses dois casos, os ângulos cervicodiafisários foram de 120 e 124º, valores próximos ao normal de 128º(21). Os movimentos do quadril nesses casos foram compensados por boa amplitude em ß (cúpula de titânio/acetábulo), que foi de 49 e 42º. Esse efeito foi confirmado em análise inversa, em que as maiores variações de a, casos 7 e 14, que ficaram em 26 e 32º, apresentaram variações menores em ß (12 e 8º).

O ângulo ß não apresentou variação significativa em três casos (2, 11 e 14), com 8º, 4º e 8º.

O caso 2, além de ter pouca movimentação em ß (8º), também apresentou variação em a de 10º, evidenciando pouca mobilidade articular, com o ângulo cervicodiafisário de 110º.

Observando as variações angulares de a, ß e o cervicodiafisário, acreditamos que a prótese do tipo bipolar utilizada permitiu boa movimentação na maioria dos casos durante o período analisado.

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