A osteomielite na coluna vertebral vem sendo relatada des-de 1895, quando Hahn(12) apresentou 661 pacientes com tal patologia.
A infecção da coluna vertebral pode causar sérias complicações, como o comprometimento do suporte postural e alteração da função de proteção da medula espinhal(14). As principais etiologias são de origem granulomatosa, sendo a tuberculose a principal representante desse grupo; ou piogênica, principalmente através do Staphylococcus aureus(14), que atinge a coluna vertebral, na maioria das vezes por via hematogênica.
A localização das lesões pode variar por toda a coluna, sendo mais freqüente na coluna lombar, torácica e menos comum na cervical(4).
Procuramos neste trabalho discutir a relação da osteomielite da coluna vertebral com os processos infecciosos do trato urinário, através do relato de um caso de osteomielite da coluna vertebral cervical cujo agente etiológico foi a bactéria Escherichia coli.
DESCRIÇÃO DO CASO CLÍNICO
O paciente S.J.A., 60 anos de idade, foi atendido no hospital, em outubro de 1997, com queixa de diminuição de sensibilidade e força muscular nos membros superiores e inferiores. Relatou que dois meses antes esteve em tratamento de infecção do trato urinário em outro hospital e que no fim dessa internação começou a sentir dor na região cervical, que inicialmente era irradiada para os membros superiores, evoluindo progressivamente com hipoestesia e parestesia dos membros superiores e inferiores, até intensa diminuição da movimentação dos membros.
Na admissão o paciente encontrava-se em bom estado geral, notando-se alterações no exame neurológico, com diminuição da sensibilidade e motricidade nos membros superiores referentes ao metâmero de C6, havendo acometimento assimétrico dos membros inferiores. Os exames laboratoriais mostravam hemoglobina de 10,6g/dl; hematócrito de 32%; leucograma com 9.000 leucócitos (84% segmentados, 12% linfócitos e 4% monócitos) e VHS de 103mm; as hemoculturas colhidas não mostraram crescimento bacteriano.
O estudo radiográfico (figs. 1 e 2) e o tomográfico revelaram imagens de lesões ósseas na vértebra C6 compatíveis com osteomielite. A ressonância magnética demonstrou que, além da lesão óssea, havia compressão da medula espinhal na mesma região (figs. 3 e 4).
Realizamos biópsia aberta da vértebra C6, retirando fragmentos ósseos, que foram submetidos a cultura e antibiograma, que revelou a presença de colônias de Escherichia coli, sensível a cefalotina, ceftazidima, imipenem, cloranfenicol e ciprofloxacina.
O paciente foi submetido ao tratamento com cefalotina, com recuperação completa das funções neurológicas sensitivas e motoras, após três meses de tratamento.


DISCUSSÃO
A osteomielite acomete com maior freqüência o segmento lombar da coluna vertebral(10), sendo encontrada em pacientes com idades que variam de 2 a 79 anos(14). Os sintomas e sinais são determinados pela virulência do agente infectante e resistência imunológica do paciente(14); os sintomas iniciais geralmente incluem dor nas costas, febre ou sepse(14).
Os exames laboratoriais podem incluir a leucocitose e elevação do VHS, conforme evidenciado no caso descrito. As hemoculturas podem evidenciar o agente etiológico, o que ficaria comprometido após a utilização de antibióticos(10), con-forme nossa observação.
As alterações radiográficas mais precoces são o decréscimo do espaço intervertebral, seguido de rarefação dos corpos vertebrais adjacentes(10); a tomografia pode demonstrar a extensão total da lesão óssea e a ressonância magnética tem importância no estudo da invasão do canal vertebral. As radiografias demonstram as lesões ósseas 10 a 14 dias após o início da doença, sendo o corpo vertebral acometido antes do disco vertebral(1). O diagnóstico diferencial deve incluir trauma, espondilodiscite estéril e tumor primário ou metastático(14).
A patogênese da osteomielite da coluna vertebral, na maioria dos casos, é causada por via hematogênica(12), podendo ocorrer por inoculação direta ou extensão de infecção adja-(3,5-7,9,13). O agente etiológico mais comum é o Staphylococcus aureus(8), mas outros agentes, como Escherichia coli, Proteus, Pseudomonas, Streptococcus haemoliticus(4,10-12,14,15) e Eikenella corredans(10), foram descritos.
Acreditamos que o trato urinário, de acordo com o caso clínico apresentado, pode ser a fonte do processo infeccio-(2). Outros autores relatam a associação de infecção da coluna vertebral cervical e trato urinário, principalmente após instrumentação, como relatado por Henson & Conventry(12), Willey & Trueta(16), Jones (1971) e Kemp (1973)(10).
CONCLUSÕES
O diagnóstico da osteomielite da coluna vertebral deve ser realizado através da história clínica e exame físico, auxiliado pelos exames laboratoriais (leucograma e VHS) e hemoculturas, sendo fundamental a descoberta do agente etiológico através de biópsia do segmento acometido para cultura e antibiograma.
Apesar de o Staphylococcus aureus ser o principal agente etiológico, devemos considerar a Escherichia coli no diagnóstico diferencial de osteomielite da coluna vertebral, sendo importante descobrir possíveis focos infecciosos, como o trato urinário, conforme o caso relatado.
O tratamento com antibiótico adequado demonstrou a regressão do processo infeccioso, inclusive com melhora do quadro neurológico.
1. Adatepe, M.H., Powel, O.M., Isaacs, G.H. et al: Hematogenicus pyogenic vertebral osteomyelitis: diagnostic value of radionuecledi bone imaging. Nucl Med 27: 1680, 1986.
2. Albanese, A.S., Coren, A.B., Weinten, M.P. et al: Ultrasonography for urinary tract evolution in patients with congenital spine anomalies. Clin Orthop 228: 302-306, 1988.
3. Alison, S.S. & Susan, I.B.: Infectious and inflammatory process of the spine. Radiol Clin North Am 29: 809, 1991.
4. Ambrose, G.B., Alpert, M. & Neer, C.S.: Vertebral osteomyelitis, a diagnostic problem. JAMA 197: 619, 1966.
5. Baltz, M.S., Tate, D.E. & Glaser, J.A.: Lumbar facet joint infection associated with epidural and paraspinal abscess. Clin Orthop 339: 109112, 1997.
6. Bonetti, C.L.: "Infecção da coluna vertebral", in Barros, T.E.P. & Basile, R. (eds.):Coluna vertebral, diagnóstico e tratamento das principais patologias, São Paulo, Sarvier, 1997.
7. Byrd, B.F., Weiner, M.H. & McGee, Z.A.: Aspergillus spine epidural abscess. JAMA 248: 3138-3139, 1982.
8. Collert, S.: Osteomyelitis of the spine. Acta Orthop 48: 283-290, 1977.
9. Cristy, J.P.: Complications of combat casualities with combined injuries of bone and bowel. Surgery 71: 270-274, 1972.
10. Digby, J.M. & Kesler, J.B.: Pyogenic non-tuberculosis spinal infection, an analysis of thirty cases. J Bone Joint Surg [Br] 61: 47, 1979.
11. Fang, D., Cheung, K.M., Dos Remédios, I.D. et al: Pyogenic vertebral osteomyelitis treatment by anterior spinal debridement and fusion. J Spinal Disord 7: 173-180, 1994.
12. Henson, S.W. & Conventry, M.B.: Osteomyelitis of the vertebrae as the result of infection of urinary tract. Surg Gynecol Obstet 102: 207, 1956.
13. Levi, A.D., Dickiman, C.A. & Sonntag, V.K.: Management of postoperative infections after spinal instrumentation. J Neurosurg 86: 97759780, 1997.
14. Ogilvie, J.W.: "Vertebral osteomyelitis, scoliosis and other spinal deformities", in Moe's textbook of scoliosis and other spinal deformities, Winter, Bradford, 1995. p. 556.
15. Silverthorn, K.G. & Gillespie, W.J.: Pyogenic spinal osteomyelitis: a review of 61 cases. N Z Med J 62-65, 1986.
16. Willey, A.M. & Trueta, J.: The vascular anatomy of the spine and its relationship to pyogenic vertebral osteomyelitis. J Bone Joint Surg [Br] 41: 769-809, 1959.