INTRODUÇÃO

A resposta do osso ao trauma consiste de uma seqüência ordenada e bem diferenciada de eventos, que resulta na cicatrização do tecido lesado de forma bastante semelhante à sua estrutura inicial(1-3). Embora em condições normais a maioria das fraturas não apresente problemas de consolidação, existem algumas situações em que o processo de reparo pode ser acelerado, assegurando rápido retorno da função músculo-esquelética(4-7). Diante desta perspectiva, o conhecimento de métodos que estimulem a consolidação de fratura adquire considerável importância(7,8).

Recentemente, alguns estudos têm sido conduzidos com o objetivo de verificar o papel do laser (light amplification by stimulated emission of radiation) de baixa energia (LBE) no processo de consolidação de fratura(9-13). Os resultados, no entanto, são controversos. Barushka et al(9), em 1995, investigaram o efeito do LBE (hélio-neônio [He-Ne]) sobre o reparo ósseo em tíbias de ratos, usando métodos bioquímicos e análise histomorfométrica do calo. Observaram que nos animais irradiados com o laser He-Ne ocorreu mudança na relação osteoblastos:osteoclastos e acúmulo mais rápido de matriz osteóide no local da lesão provocada. Yaakobi et al(13), em 1996, estudaram o efeito do laser He-Ne no reparo do osso cortical de tíbias de ratos através de métodos bioquímicos e radioativos. Concluíram que o processo de reparo ósseo cortical em tíbias de ratos é marcadamente acelerado pela irradiação com este tipo de laser. No entanto, David et al(10), em 1996, mostraram que o uso do laser He-Ne não estimulou a consolidação de fratura de tíbias de ratos. Estes autores estudaram o calo ósseo radiográfica, histológica e biomecanicamente, e seus resultados divergiram dos achados de Barushka et al e Yaakobi et al(9,13).

O objetivo dos autores com o presente estudo foi observar bioquímica e histologicamente os efeitos do laser He-Ne sobre o processo de consolidação de fraturas fechadas e não imobilizadas de tíbias de ratos.

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados 39 ratos da linhagem Wistar (Rattus norvegicus albinus), adultos, fêmeas, pesando em média 300 gramas. Os animais foram divididos aleatoriamente em dois grupos, denominados A e B, e tiveram sua tíbia direita fraturada manualmente, de forma fechada, na região diafisária média, sob anestesia geral inalatória (éter)(14, 15). As fraturas não foram imobilizadas e os animais não sofreram restrição quanto à mobilidade. Os animais foram mantidos em local apropriado, colocados em gaiolas adequadas e receberam água e ração padrão ad libitum. O grupo A (laser He-Ne) foi constituído de 21 animais e o grupo B (sham), de 18 animais.

No dia seguinte ao da realização das fraturas, iniciou-se protocolo terapêutico com o laser He-Ne. Foi utilizado um aparelho emissor hélio-neon KC 609 V R (Kroman, São Paulo), com 10mW de potência contínua, 670nm de comprimento de onda (visível em vermelho) e 5mm2 de diâmetro de irradiação. Cada animal do grupo A recebeu irradiação do laser com 6J de densidade de energia radiante, durante dois minutos, com aplicação do tipo de contato, sobre o foco de fratura. As sessões foram realizadas de dois em dois dias. A escolha deste esquema baseou-se em estudos previamente realizados(10,12). O grupo B (grupo sham) foi estudado segundo a mesma metodologia do grupo A, à exceção do uso do laser He-Ne. Para que fossem controladas possíveis diferenças devidas a este fato, todos os animais do grupo sham foram manipulados como se estivessem recebendo o tratamento, estando o aparelho de laser desligado (0J).

Os animais foram dessangrados por punção cardíaca(16) nas 2ª, 3ª e 5ª semanas após a produção das fraturas. Fo-ram colhidas amostras de sangue em quantidade suficiente para realização de estudo bioquímico, com dosagens de fosfatase alcalina, cálcio e fósforo. Além disso, os ratos tiveram suas tíbias direitas dissecadas, limpas de seu envoltório muscular, preservando-se a integridade do calo ósseo, e estudadas histologicamente, através de microscopia de luz. As tíbias fraturadas foram fixadas em solução tamponada de paraformaldeído, descalcificadas em líquido de Perini, incluídas em parafina e coradas pelas técnicas de hematoxilina e eosina (H/E) e tricrômico de Mas-son. A avaliação histológica foi realizada sempre pelo mesmo pesquisador, de forma aleatória e cega.

Os resultados dos exames laboratoriais foram analisados estatisticamente utilizando-se o teste t de Student, com nível de significância a = 0,05(17).

RESULTADOS

A análise histológica do calo não demonstrou alterações qualitativas e quantitativas capazes de diferenciar os grupos entre si. Com duas semanas de fratura havia a presença de peças cartilaginosas e de osso imaturo recém-forma-do, com predomínio ainda de células mesenquimais. Trabéculas ósseas melhor definidas passaram a ser observadas entre a segunda e a terceira semanas após as fraturas, sem diferença entre os grupos. A união entre as extremidades ósseas fraturadas tornou-se bastante evidente na quinta semana, embora não fosse possível notar qualquer efeito de remodelação neste período. Em ambos os grupos as trabéculas ósseas neoformadas eram de aspecto grosseiro e irregular; não foi observada a presença de osteócitos.

Os dados da análise laboratorial encontram-se nas tabelas 1, 2 e 3. Não houve perda de nenhuma amostra de sangue colhida, tendo sido dosados fosfatase alcalina, cálcio e fósforo. Utilizando-se o teste t de Student com nível de significância de 5%, não foi possível encontrar diferença estatisticamente significativa entre os resultados dos grupos estudados (p > a = 0,05).

DISCUSSÃO

As aplicações do laser na medicina têm aumentado nos últimos anos. Desde sua concepção, na década de 60, di-versos tipos de aparelhos com diferentes fontes de luz vêm sendo estudados, tendo como princípios as reações fototérmicas e fotoablativas do laser com os tecidos(18-20). Mester et al(21) foram os primeiros a demonstrar as possíveis aplicações clínicas dos efeitos atérmicos da luz do laser nos mais variados tecidos. Estes autores observaram que o uso de intensidades relativamente baixas (menores que 500mW) é capaz de modular determinados processos biológicos, em especial a fotobioestimulação do processo de cicatrização tissular(22). Estudos posteriores utilizando lasers de baixa energia confirmaram os achados de Mester et al(9,11-13,21-28).

O laser He-Ne é um dos tipos de LBE mais usados atualmente. Tem como meio ativo o gás neônio, apresentando quatro importantes comprimentos de onda(28). Seu mecanismo de ação baseia-se na excitação em cadeia dos átomos de neônio e de hélio, provocada pela colisão com uma descarga de elétrons(29). Este fenômeno produz uma luz visível e vermelha que penetra nos tecidos sem divergência até 0,9mm abaixo da pele. Acredita-se que aproximadamente mais da metade de sua energia seja absorvida pelas estruturas aí localizadas(28).

Neste estudo utilizou-se o laser He-Ne com o objetivo de observar seus efeitos sobre o processo de consolidação de fratura. A exemplo de experimentos anteriores(14,15,30), os autores produziram fraturas fechadas e não imobilizadas em tíbias de ratos Wistar. Foi usado um aparelho emissor com 10mW de potência contínua, 670nm de comprimento de onda (visível em vermelho) e 5mm2 de diâmetro de irradiação. A técnica utilizada foi a de contato, irradian-do-se o laser em ângulo de 90 graus, com 6J de densidade de energia radiante, durante dois minutos, de dois em dois dias. Esta metodologia foi previamente descrita por David et al(10) e por Trelles e Mayayo(12) em investigações semelhantes. Veçoso(31) sugeriu esquema de tratamento similar em seres humanos.

Os resultados foram avaliados com testes bioquímicos e microscopia de luz. Yaakobi et al(13) e Barushka e Oron(32) demonstraram elevação significativa da fosfatase alcalina em ratos submetidos ao tratamento com laser He-Ne. Indiretamente, estes autores atribuíram tal fato à presença de maior população de células de linhagem osteogênica no calo ósseo. Sabe-se que a fosfatase alcalina é um bom marcador da formação óssea. Entretanto, outras condições, além do processo de consolidação de fratura, podem levar à elevação desta enzima. Estudos utilizando a fosfatase alcalina específica do osso ou proteínas não-colágenas, como ostocalcina (bone Gla-protein) e osteopontina, certamente seriam mais úteis em experimentos sobre o processo de reparo ósseo. Em nosso estudo, embora não tenhamos dosado a fosfatase alcalina específica do osso, não observamos diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos. Além disso, não ocorreu perda de nenhum animal durante toda a parte experimental do projeto, o que indiretamente parece assegurar que os cobaias empregados eram sadios.

A dosagem de cálcio foi realizada com o intuito de observar o comportamento deste íon durante as diferentes fases do processo de consolidação avaliadas nesta pesquisa e sua íntima relação de equilíbrio com o fosfato. Barushka e Oron mostraram aumento do íon cálcio no calo de animais irradiados com este LBE(32). No presente estudo não houve diferença estatisticamente significativa nas dosagens de cálcio e fosfato nos dois grupos utilizados. Histologicamente, realizou-se análise quantitativa e qualitativa do tecido neoformado nas 2ª, 3ª e 5ª semanas após a produção das fraturas. Estas datas correspondem, respectivamente, às fases fibrocartilaginosa, cartilaginosa e de ossificação com osso imaturo, segundo modificação proposta por Giordano et al(14) para a descrição original das fases do processo de consolidação de fratura de tíbia de ratos feita por Udupa e Prasad(30) em 1963. Dessa forma, foi possível estudar o processo de reparo ósseo na vigência ou não do laser.

Os resultados obtidos neste trabalho foram incapazes de evidenciar aceleração do processo de osteogênese em animais submetidos à terapia com laser. As avaliações laboratorial e histológica não demonstraram diferenças entre os grupos A e B. David et al(10), através de estudos radiográfico, histológico e biomecânico, obtiveram achados idênticos. Contrariamente, outros experimentos mostraram ação de estímulo ao mecanismo de reparo ósseo com o uso de LBE(9,11-13,31). Apesar disso, a escassa literatura e a falta de estudos moleculares acerca deste assunto não permitem a indicação dos lasers de baixa energia como método auxiliar no tratamento das fraturas(8,33).

Concluímos que, nas condições estudadas, o laser He-Ne não acelera o processo de consolidação óssea em fraturas fechadas e não imobilizadas de tíbias de ratos Wistar.

AGRADECIMENTOS

Aos Professores Radovan Borojevic e Katia Arcanjo (Departamento de Histologia e Embriologia), Maria de Fátima Carvalho Pereira (Serviço de Patologia Clínica).

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