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Trabalho realizado no Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre (RS), Brasil.
1. Cirurgião do Quadril do Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre (RS), Brasil.
2. Doutor em Cirurgia pela Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre - FFFCMPA - Porto Alegre (RS), Brasil; Cirurgião do Quadril do Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre (RS), Brasil.
3. Cirurgião do Quadril do Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre (RS), Brasil.
Endereço para correspondência: Marcus Vinicius Crestani, Rua Eça de Queiroz, 797/303, Bairro Petrópolis - 90670-020 - Porto Alegre (RS) - Brasil. Tel.: (51) 3331-8071 ou (51) 9933-5703. E-mail: mvcrest@gmail.com

INTRODUÇÃO

A osteoartrose do quadril possui etiologia multifatorial em que a genética e as alterações mecânicas são consideradas as mais importantes(1-6). Classicamente, ela é dividida em primária, cujos exatos mecanismos não seriam esclarecidos e, portanto, considerada idiopática; e secundária, cujas causas podem ser facilmente determinadas. Por muito tempo acreditou-se que a osteoartrose do quadril resultaria de cargas axiais excessivas e mal distribuídas ou incongruentes sobre a cartilagem e osso subcondral(7-8). Em contraste a esse conceito, sabese que é mais comum encontrarem-se áreas de degeneração articular nas regiões ântero-superior e periférica do acetábulo do que simplesmente nas áreas de carga(7-9). Recentemente, diversos estudos têm sugerido que muitos desses casos considerados idiopáticos são causados por impacto femoroacetabular (IFA)(10-13). O impacto femoroacetabular pode ocorrer com amplitudes fisiológicas numa articulação com alterações morfológicas, ou com amplitudes suprafisiológicas numa articulação normal(14). Essas alterações morfológicas do quadril levam ao contato anormal entre a extremidade proximal do fêmur e a margem acetabular. O surgimento de lesões do labrum e da cartilagem acetabular iniciarão a doença degenerativa do quadril(15), especialmente num grupo mais jovem de pacientes(3).

Esta revisão tem como objetivo trazer à discussão uma das causas potenciais da osteoartrose do quadril que, até recentemente, era interpretada como variações da normalidade. Os autores acreditam que o diagnóstico precoce e o tratamento adequado poderão evitar ou desacelerar a progressão para a osteoartrose.

 

ETIOPATOGENIA E CLASSIFICAÇÃO

Alterações morfológicas femorais estão relacionadas à assimetria cervicocefálica, mais comumente ântero-superior, promovem um impacto metafisário femoroacetabular. Algumas dessas condições já foram descritas nos casos de epifisiólise proximal(16) (figura 1) e de fraturas de colo com consolidação em retroversão(17). Podem também ser reconhecidas nas deformidades residuais da doença de Legg-Calvé-Perthes ou ainda em casos de osteotomias femorais.

 


Figura 1 - Radiografia AP da articulação coxofemoral E apresentando proeminência da junção cefalocervical na sua porção ântero- superior, secundária à epifisiólise femoral proximal, característica do impacto tipo came

 

 



Figura 2 - Radiografia AP da pelve e radiografia coxofemoral D com retroversão acetabular. Cross-over sign.

 


Figura 3 - Radiografia AP da pelve apresentando impacto tipo pincer secundário a coxa profunda

 


Figura 4 - a-c) Apresentação esquemática do mecanismo de impacto tipo came. A seqüência mostra a porção não-esférica da cabeça femoral entrando em contato com a borda do acetábulo, durante a flexão do quadril. d) O contato causa abrasão de fora para dentro da cartilagem da porção ântero-superior do acetábulo. e) avulsão do labrum e do osso subcondral, que finalmente progredirá para a degeneração da articulação.

 


Figura 5 - Distribuição das lesões da cartilagem acetabular no impacto tipo came. As áreas em tons acinzentados representam os locais mais comuns de lesão quanto à profundidade.

 

Alterações morfológicas acetabulares estão relacionadas à continência e à cobertura da cabeça femoral e incluem: retroversão acetabular (figura 2), protrusão acetabular (figura 3), coxa profunda e deformidades residuais pós-traumáticas. A retroversão acetabular pode ocorrer de maneira isolada(18) ou pertencer a um complexo de deformidades do desenvolvimento acetabular(19) - uma parede ântero-lateral proeminente cria um obstáculo para a flexão e rotação medial. A retroversão pode estar localizada na porção superior do acetábulo ou em toda sua extensão(20-21). Nos casos de protrusão acetabular ou coxa profunda, o impacto ocorre por relativo aumento da profundidade, que contém não somente a cabeça femoral, mas também parte do colo.

Segundo os mecanismos e os padrões das lesões condrais e labrais, podemos dividir o IFA em dois tipos principais: came e pincer (figura 4). As lesões ocorrem pela entrada forçada de uma porção não esférica da cabeça femoral, no acetábulo, especialmente durante a flexão(3,9-10,12,22). A abrasão ocorre de fora para dentro na porção ântero-superior da cartilagem acetabular, podendo resultar na avulsão do labrum e do osso subcondral (figura 5). Isso promoverá a propulsão da cabeça femoral posterior e inferiormente. O termo came ou cam provém da mecânica e está relacionado à transformação de um movimento circular em um linear, graças à presença de saliências ou reentrâncias, como no virabrequim de motor. É mais comum em homens, entre a segunda e terceira décadas, que mantêm atividades físicas regulares. Foi descrito em ca-sos de consolidação viciosa de fratura do colo do fêmur(17), epifisiólise femoral proximal(23-24) e doença de Legg-Calvé-Perthes(25-26). O tipo pincer ocorre como um contato linear entre a margem acetabular e a junção cervicocefálica (figura 6). A repetição leva à degeneração do labrum, formação de ganglion intra-substância, ossificação da margem acetabular e aprofundamento do acetábulo. O impacto deve-se basicamente a anormalidades acetabulares, como na protrusão ou na retroversão. As lesões condrais são circunferenciais (figura 7). São mais comuns em mulheres após a terceira ou quarta décadas.

Raramente, esses dois tipos ocorrem isoladamente, sendo mais comum a sua combinação.

Dessa forma, é possível afirmar que o padrão das lesões da cartilagem acetabular e do labrum depende da morfologia da articulação do quadril(27).

O labrum possui diversas funções fisiológicas, entre as quais a de melhorar a estabilidade da articulação por meio da manutenção da pressão negativa intra-articular(28). Estudos recentes de Ferguson et al mostraram que o labrum apresenta uma função seladora da articulação do quadril, protegendo a cartilagem articular(29-30).

 


Figura 6 - a-b) Apresentação esquemática do mecanismo de impacto tipo pincer. Ocorre um contato linear entre a borda acetabular e a junção cefalocervical. c-d) A primeira estrutura a ser comprometida é o labrum e, com o impacto persistente, ocorrem as lesões condrais, incluindo a porção póstero-inferior.

 


Figura 7 - Distribuição das lesões da cartilagem no impacto tipo pincer. As áreas em tons acinzentados representam os locais mais comuns de lesão quanto à profundidade.

 

Não há dúvidas de que as lesões labrais são causa de dor no quadril e que, comumente, estão acompanhando a displasia (2,13,31-33). É recente, no entanto, atribuir como causa de lesões labrais o impacto femoroacetabular(34-37).

Considerando a presença concomitante de lesões labrais com as lesões da cartilagem acetabular, diversos autores propuseram que aquelas são possivelmente lesões precursoras de osteoartrose precoce do quadril(2,15,38). O importante é salientar que as lesões do labrum são apenas parte do processo patológico, sendo secundárias ao impacto. Isso poderia explicar os maus resultados do desbridamento artroscópico isolado dessas lesões, negligenciando a sua causa(2,31).

QUADRO CLÍNICO E DIAGNÓSTICO CLÍNICO

O impacto femoroacetabular afeta principalmente adultos na segunda e terceira décadas da vida, ativos, que tipicamente apresentam dor no quadril e região inguinal, sem história de trauma precipitante. É característico o sinal em "C": o paciente demonstra a localização da dor em torno do quadril (figura 8). A dor é exacerbada com atividade física e quando os pacientes permanecem sentados por longos períodos. Eles apresentam algum grau de restrição da mobilidade do quadril, principalmente em flexão, rotação interna e adução.

 


Figura 8 - Sinal em "C". O paciente demonstra o local dos sintomas no terço proximal da coxa.

 

O teste de impacto é realizado com o paciente em posição supina, por meio da rotação medial com flexão passiva do quadril até 90o e adução, para a avaliação do impacto anterior (figura 9) e pela extensão com rotação lateral, para a avaliação do impacto posterior (figura 10).

 



Figura 9 - O teste de impacto é realizado com o paciente em decúbito dorsal através da flexão até 90o, rotação interna e adução passivas do quadril

 


Figura 10 - Extensão e rotação externa do quadril para o teste de impacto posterior

 

DIAGNÓSTICO POR IMAGEM

A investigação radiográfica permanece como a melhor técnica para avaliação inicial dos pacientes com suspeita de IFA: inclui as incidências ântero-posterior (AP) da pelve, com as coxofemorais em rotação interna e com apoio; coxofemoral lateral; lateral, conhecida como cross-table(39), e o falso perfil.

A radiografia em AP da pelve pode trazer informações, como a presença de deformidade da extremidade proximal do fêmur, alterações na versão acetabular, displasia, coxa vara, coxa valga, protrusão acetabular e coxa profunda(40). Avaliação mais detalhada pode revelar a presença de herniation pits, considerado um achado altamente sugestivo de impacto(3) e que consiste em lesão arredondada radioluzente com halo esclerótico localizada na porção ântero-lateral do colo femoral. É importante, para a avaliação mais precisa dos parâmetros radiográficos, que o cóccix esteja centrado com a sínfise púbica a uma distância de 1-2cm3. Na retroversão acetabular há o cruzamento das bordas anterior e posterior, facilmente detectadas na radiografia em AP, o sinal do cruzamento.

 

 

As incidências laterais são usadas especificamente para a quantificação do offset da porção ântero-lateral na junção cefalocervical femoral(22) e para verificar a esfericidade da cabeça femoral. Meyer et al concluíram que as incidências de Dunn com 45o e 90o e a lateral cross-table são as mais precisas para essa avaliação(41). O offset na incidência cross-table é medido utilizando o método descrito por Eijer et al(39).

A incidência em falso perfil, Lequesne e Sèze, permite a visibilização de um eventual excesso de cobertura pelo acetábulo, o qual pode contribuir para o impacto tipo pincer (22) (figura 11).

A ressonância magnética é comumente utilizada na avaliação desses pacientes com dor no quadril, principalmente quando os exames radiográficos estão normais(40). A artrorressonância elevou a qualidade diagnóstica nesses casos e vem-se tornando o exame padrão na investigação do impacto femo-roacetabular(40,42). Ela propicia informações adicionais quanto à presença de uma cabeça femoral não esférica, à integridade do labrum acetabular(43-45), à anatomia da junção da cabeça e colo femorais, ou offset, à deterioração da cartilagem aceta-bular(20) e à existência de herniation pits e ossificações da borda acetabular(38,40). O impacto tipo came pode ser caracterizado por uma tríade composta de anormalidade morfológica da junção cefalocervical femoral, anormalidade da cartilagem ân-tero-superior e lesão labral ântero-superior(46). Leunig et al utilizaram a artrorressonância para diferenciar displasia e IFA, concluindo que as lesões labrais são comuns em ambas as afecções, mas que a hipertrofia labral e a formação de ganglion são tipicamente encontradas nos pacientes com displasia.

 

TRATAMENTO

As opções de tratamento do impacto incluem: o tratamento conservador, a osteocondroplastia femoral e acetabular, a artroscopia e a osteotomia periacetabular(47). O tratamento inicial mais apropriado desses pacientes consiste na modificação das atividades físicas, em evitar excessivos movimentos da articulação e na utilização de antiinflamatórios. Fisioterapia para melhorar a amplitude de movimento não traz benefícios e ainda pode piorar o quadro clínico. O tratamento conservador pode trazer alívio apenas temporário em alguns pacientes.

A persistência dos sintomas e a presença de lesões labrais ou condrais podem ser indicações de tratamento cirúrgico. Este tem como objetivo principal facilitar a amplitude de movimentos do quadril por meio da diminuição do impacto entre a extremidade proximal do fêmur e a borda do acetábulo. À luxação cirúrgica tem sido atribuídos os casos de osteonecrose iatrogênica da cabeça femoral(48); no entanto, diver-sos estudos têm provado que o procedimento pode ser realizado com segurança, desde que a vascularização da cabeça femoral, pela artéria circunflexa femoral medial, seja preserva-(12,49). A luxação cirúrgica do quadril é realizada com o paciente em decúbito lateral, através de abordagem lateral ou posterior e osteotomia trocantérica. Essa abordagem permite 360o de visão para o fêmur e para o acetábulo. Após a capsulotomia do quadril, realizam-se manobras em flexão e rotação interna para verificação da presença de lesão labral e sua associação com impacto.

No caso de cobertura acetabular anterior aumentada, co-mum nos casos de retroversão acetabular, o tratamento é realizado pela ressecção osteoplástica da borda ântero-superior do acetábulo. Nesses casos, o labrum deve ser mobilizado, limitando a sua excisão à área comprometida. Após a osteoplastia, o labrum deve ser refixado ao acetábulo para preservar a sua função seladora do líquido sinovial da articulação do quadril.

Nos pacientes com IFA e retroversão acetabular(50), deficiência de parede posterior ou deficiência de cobertura posterior, pode-se realizar a osteotomia periacetabular.

Se o impacto estiver associado às alterações morfológicas da extremidade proximal do fêmur, como a não esfericidade da cabeça ou a diminuição do offset na junção da cabeça e do colo femoral, o tratamento é realizado pela osteoplastia excisional (figuras 12 e 13), não maior que 30% do quadrante ântero-lateral, devido ao risco de fratura.

A cirurgia artroscópica pode ser realizada com o paciente em decúbito lateral ou supino(51). Há a necessidade de mesa de tração e de intensificador de imagens. A cirurgia artroscópica permite o exame dos compartimentos central e periférico. O compartimento central inclui o labrum e as estruturas localizadas medialmente, enquanto o periférico abrange as estruturas laterais ao labrum e intracapsulares, incluindo a cabeça femoral, o colo e cápsula(40). A artroscopia permite realizar o desbridamento de lesões labrais e da cartilagem(52) e facilita a técnica de microfraturas para áreas com exposição do osso subcondral(53). Após artroscopia do compartimento central libera-se a tração para avaliação do periférico(40). Nenhum exame de imagem, incluindo a artrorressonância com gadolínio, é inteiramente sensível ou específico para o diag-momento, a visibilização direta e sua reinserção por meio da nóstico de lesões labrais e condrais(40,54). luxação cirúrgica são o método mais efetivo.

 


Figura 12 - a-c) Fotografias do intra-operatório de osteoplastia femoral proximal: a) Não esfericidade da junção cefalocervical. b) Ressecção da deformidade com osteótomo. c) Aspecto após a ressecção.

 

 


Figura 13 - a) Radiografia AP coxofemoral D apresentando impacto tipo came secundário à diminuição do offset na junção cefalocervical. b) Aspecto radiográfico após luxação cirúrgica da articulação coxofemoral e osteoplastia femoral proximal para restituição do offset.

 

Melhoramentos na técnica e instrumentação tornaram a ar-O tratamento cirúrgico do impacto femoroacetabular apretroscopia do quadril um meio efetivo de diagnosticar e tratar senta bons resultados em pacientes com alterações degenerauma variedade de problemas intra e extra-articulares(55). No tivas precoces do quadril. Estudos a longo prazo são necessáentanto, o conhecimento da fisiologia do labrum acetabular rios para determinar quando tais tratamentos previnem a exige que esta estrutura seja preservada em sua forma. Até o progressão da osteoartrose do quadril(40).

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