A participação de atletas em esportes competitivos nos mais variados níveis tem ganho um número cada vez maior de adeptos em todas as faixas etárias. Este fato tem sido relacionado ao aumento do número e dos tipos de lesões músculo-esqueléticas encontradas.
O atletismo abrange uma ampla variedade de eventos de características biomecânicas diversas, o que propicia o surgimento de lesões comuns e algumas vezes específicas a cada modalidade. Muitos estudos revelam que entre 17 e 65% dos atletas praticantes de atletismo apresentaram lesões músculo-esquelética durante a prática do atletismo(1-3).

O presente estudo objetiva avaliar a freqüência relativa da dor na prática desse esporte, assim como descrever as características, distribuição, localização, gravidade e comportamento das lesões músculo-esqueléticas relatadas pelos atletas durante o treinamento do atletismo.
MATERIAL E MÉTODO
Foram avaliados 103 atletas competidores de atletismo, com idade média de 23 ± 5 anos (22 a 38 anos), sendo 34 (33,0%) do sexo feminino e 69 (67,0%) do masculino (gráfico 1), sendo 38 brancos (36,9%) e 65 não brancos (63,1%). O tempo médio de treinamento do atletismo foi de 7 ± 5 anos (11 a 22 anos).
As características individuais dos atletas estão descritas na tabela 1.
A distribuição dos atletas por modalidade, como mostra a tabela 2, indica que as provas de velocidade e barreiras foram os eventos mais representativos.
Os atletas foram entrevistados pelos pesquisadores através de questionário preestabelecido, abrangendo informações sobre o primeiro esporte praticado (gráfico 2), as características do treinamento do atletismo, elaboração (tabela 3), acompanhamento do treinador (tabela 4), freqüência, acompanhamento nutricional e médico (tabela 5).


As lesões músculo-esqueléticas foram definidas como resultantes do treinamento ou competição dentro das modalidades do atletismo, e suficientes para provocar alterações no treinamento, tais como freqüência, forma, intensidade e duração por período igual ou superior a uma semana. Esta definição foi baseada naquela usada por Lysholm e Wiklander (1987)(3) e Bennell e Crossley (1996)(1). Informações adicionais foram incluídas a respeito das características específicas das lesões, como mecanismo de lesão, seja durante o treinamento ou competição, localização anatômica, métodos de tratamento, tempo de afastamento do treinamento e presença da dor associada ou não à lesão.
RESULTADOS
Dos 103 atletas avaliados, 78 (75,7%) relataram lesões, sendo 54 homens (69,2%) e 24 mulheres (30,8%), enquanto que 25 atletas (24,3%), sendo 15 homens (60,0%) e 10 mulheres (40,0%), não relataram episódios de lesões no atletismo. A distribuição das lesões quanto à raça se comportou da seguinte maneira: 49 atletas não brancos (62,8%) e 29 atletas brancos (37,2%) apresentaram lesões, enquanto que 16 atletas não brancos (64,0%) e nove atletas bran-cos (36,0%) não apresentaram lesões.

O segmento anatômico mais freqüentemente acometido por lesões foi a coxa (53,3%), seguido pelo joelho (17,5%), tronco e membros superiores (11,7%), tornozelo e pé (9,1%) e perna (8,3%). A localização das lesões expressas em percentagem do total de lesões é identificada no gráfico 4.
As lesões musculotendíneas foram as mais predominantemente encontradas, com a seguinte distribuição percentual conforme os grupos musculares: músculos isquiotibiais (60,4%), músculo quadríceps (19,8%), músculos adutores da coxa (4,4%), músculos da perna (5,5%), músculos dos membros superiores (6,6%) e músculos do tronco (3,3%). Houve diferença estatística significante quanto à presença de lesões musculares isquiotibiais e a modalidade de velocidade e barreiras, sendo menos freqüente nas demais modalidades do atletismo (P < 0,05).


As lesões músculo-esqueléticas foram mais encontradas nas provas de velocidade e barreiras (43,3%), seguidas pelas provas de saltos (30,8%), arremessos e lançamentos (13,3%), meio-fundo (7,5%) e fundo (5,0%), conforme a tabela 2.
A coxa foi o local de maior acometimento de lesões entre velocistas e barreiristas (82,7%), saltadores (32,4%) e corredores de meio-fundo (44,3%). O tronco e os membros superiores foram os locais mais acometidos de lesões entre os atletas arremessadores (50,0%), enquanto o joelho foi a região mais acometida entre os corredores de fun-do (66,7%). A distribuição das lesões por região anatômica entre as modalidades foi expressa no gráfico 7.
O tempo de afastamento dos atletas do treinamento em decorrência das lesões se comportou conforme a tabela 6.
As associações entre o sexo dos atletas, a raça e a presença de dor ou lesão não foram estatisticamente significantes (P < 0,05). A associação entre a idade do atleta e a presença de dor não foi estatisticamente significante, assim como a relação entre o acompanhamento do treinamento do atleta pelo treinador e a presença de lesões (P < 0,05).

Houve diferença estatística significante na associação entre a idade do atleta e presença de lesões, com o predomínio das lesões ocorrendo em idade superior ou igual a 20 anos.
A associação entre a raça e a presença de lesões não foi estatisticamente significante (P < 0,05).
O acompanhamento do treinamento do atleta pelo treinador não apresentou relação estatisticamente significante com o surgimento de lesões.
O tempo de afastamento dos treinamento em decorrência das lesões foi descrito na tabela 6.
A dor foi relato freqüente em 79,0% dos atletas nos treinamentos e competições (gráfico 5) e foi distribuída anatomicamente conforme o gráfico 6.
DISCUSSÃO
A prevalência das lesões músculo-esqueléticas neste estudo (75,7%) revelou-se concordante com os estudos de Lysholm e Wiklander (65%) em 1987(3) e de D'Souza (61%)(2) em 1994, embora não tenhamos utilizado o mesmo período de tempo.
A presença do treinador durante os treinamentos também foi observada neste estudo. Dentre os atletas que se diziam acompanhados integralmente durante os treinamentos, 70,7% apresentaram lesões, o que difere dos 40,4% observados por D'Souza (1994)(2). Os atletas acompanhados parte do treino ou não acompanhados pelo treinador apresentaram índices de lesões de 87,1% e 75,0%, respectivamente. Não houve diferença estatística significante entre os grupos estudados.

As queixas de dor durante os treinamentos ou competições foram muito freqüentes: 79,0% dos atletas estudados, com predomínio dos membros inferiores (75,5%), o que de certa forma coincide com a localização anatômica mais freqüente da totalidade das lesões relatadas (88,2%).
As lesões dos membros superiores e tronco estiveram mais representadas no grupo de atletas arremessadores (50,0%), em virtude do grau de solicitação elevado a que estes atletas são submetidos durante os complexos e vigorosos movimentos de arremesso.
Na amostra estudada, a idade variou entre 15 e 38 anos e assim como Bennell (1996)(1,4) e D'Souza (1994)(2), o número de lesões aumentou nos atletas mais velhos, embora alguns autores não tenham encontrado alterações na prevalência de lesões com a idade(2).
As lesões da musculatura isquiotibial, representadas neste estudo como 60,4% das lesões musculotendíneas, são consideradas por muitos autores como o grupo de lesões mais freqüentes e debilitantes da prática esportiva, sobretudo no atletismo, em que a solicitação constante deste grupo muscular durante a corrida de velocidade e salto, situações que requerem grande velocidade, aceleração e força pode culminar com o aparecimento de lesões, quer sejam agudas ou crônicas (overuse).
A prolongada atividade dos músculos isquiotibiais reflete a importância destes músculos para a corrida. A tensão na unidade musculotendínea está relacionada a dois grandes fatores: o comprimento do músculo (componente passivo) e a sua atividade contrátil (componente ativo). A acentuação destes componentes durante a corrida e salto pode causar tamanha tensão na unidade miotendínea, que culmina com o aparecimento dos mais variados graus de lesões. Muito se tem estudado a respeito dos fatores predisponentes e desencadeantes das lesões, como a anatomia biarticular deste grupo muscular, a proporção aumentada de fibras do tipo II, o desbalanço de forças em relação ao músculo quadríceps, inadequado "aquecimento" e "alongamento" muscular, além das deficiências de flexibilidade e coordenação neuromuscular. Acrescentemos o fato de que as lesões isquiotibiais, por gerarem dor associada à perda de força e coordenação, retardam de maneira importante o retorno ao treinamento específico, além do que apresentam alta taxa de recorrência.
CONCLUSÃO
Este estudo permitiu avaliar o comportamento dos atletas frente a algumas características das modalidades do atletismo, que permitem considerá-lo um esporte de risco elevado para o surgimento de lesões.
Bennell K.L., Crossley K.: Musculoskeletal injuries in track and field: incidence, distribution and risk factors. Aust J Sci Med Sport 28: 69-75, 1996.
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