A ruptura do tendão de Aquiles, patologia relativamente freqüente, pode apresentar dificuldades diagnósticas(l3,15,16) pelos meios propedêuticos habituais(1,2,6,9).
De fato, o teste de Thompson(14-16), que consiste na compressão manual ântero-lateral da panturrilha com desencadeamento da flexão plantar do pé, utilizado na investigação daquelas rupturas, pode apresentar resultado falsamente negativo(5,13,16).
Exames subsidiários como a ultra-sonografia, a tomografia computadorizada e a ressonância eletromagnética são decisivos(4,8,10-12,17), mas, freqüenternente, não se encontram ao alcance do especialista e oneram o tratamento. Copeland (3) desenvolveu método simples e barato para ser acrescentado ao arsenal propedêutico das rupturas aquileanas. Baseia-se na tomada da pressão da panturrilha com o pé em flexão plantar e dorsoflexão passivas.
Em condições normais, a dorsoflexão do pé faz com que o tendão de Aquiles tracione os músculos gastrocsóleos para baixo, onde deve estar colocado o manguito do esfigmomanômetro, deslocando mais ar para o pneumático e, portanto, aumentando a pressão no seu interior, a qual é registrada no aparelho. Nos casos de ruptura do tendão de Aquiles, essa variação de pressão, decorrente da dorsoflexão do pé, deixa de existir.
Estudando o comportamento da pressão da panturrilha no pós-operatório das rupturas aquileanas, Copeland(3) observou que com dois meses alcança 20mmHg e, no décimo, eleva-se para 35mmHg, sendo que nos casos-controles esse valor é de 40mmHg.
Dessa forma, o autor concluiu que seu método, além de contribuir para o diagnóstico daquelas lesões, também serve para avaliar sua evolução pós-cirúrgica.
Em nosso serviço, de março de 1985 a janeiro de 1992, tivemos alguns casos de ruptura de tendão de Aquiles opera-dos pela técnica de Vulpius(7), dos quais dez há mais de dois anos.
Achamos que uma reavaliação destes, através dos meios classicamente utilizados para verificação da integridade funcional aquileana e do método de Copeland, poderiam contribuir para melhor definir quanto ao emprego desse método no estudo dos resultados com maior tempo de evolução e da terapêutica cirúrgica daquelas rupturas.
MATERIAL E MÉTODO
Nosso material constitui-se de 40 indivíduos do sexo masculino, dos quais 30 são do grupo-controle e dez foram submetidos há mais de dois anos a tratamento cirúrgico de ruptura unilateral do tendão de Aquiles.
Nos pacientes, a idade variou de 28 a 62 anos (média: 41 anos) e, nos casos-controles, de 24 a 49 anos (média: 34 anos), sendo esses distribuídos em três grupos etários (24-29,30-37 e 38-49 anos) com dez indivíduos cada.
Em todos foi realizado bilateralmente o teste da pressão da panturrilha conforme preconizado por Copeland(3): posicionado o indivíduo em decúbito ventral, flexiona-se em 90 graus o joelho do lado a ser examinado e instala-se na extremidade superior dessa perna um manguito do esfigmomanômetro que será insuflado até a pressão de 100mmHg, estando o pé em flexão plantar, seguindo-se a sua dorsoflexão suave e verificação do diferencial da pressão (fig. 1).
Esses procedimentos foram realizados sempre com o mesmo aparelho de pressão de coluna de mercúrio marca Oftec, modelo 983, e pelo mesmo examinador.
Na avaliação clínica dos pacientes verificou-se: 1 ) quanto ao retorno às atividades normais e esportivas; 2) se necessitava de algum tipo especial de calçado; 3) se havia alteração da força muscular e do grau de mobilidade articular comparativamente ao lado oposto; 4) presença de dor; 5) algum comprometimento da marcha, principalmente em sua impulsão na última fase do passo.
De acordo com esses critérios, os resultados foram classificados em satisfatórios e insatisfatórios.
RESULTADOS
Na tabela 1 observam-se os valores obtidos no grupocontrole com o teste da pressão da panturrilha, distribuídos por faixas etárias (24-29, 30-37 e 38-49 anos) e separados em lados direito e esquerdo.

A tabela 2 mostra os valores encontrados bilateralmente com o mesmo teste, nos dez pacientes submetidos há mais de dois anos a tratamento cirúrgico de ruptura unilateral do tendão de Aquiles, assinalando-se com um asterisco os clinicamente considerados insatisfatórios.
Em ambas as tabelas, os valores corresponde à oscilação da pressão da panturrilha, a partir de 100mmHg.


DISCUSSÃO
Nossos resultados para os casos-controles e para os membros inferiores normais contralaterais à ruptura do tendão de Aquiles mostram que a variação de pressão da panturrilha após a dorsoflexão do pé é superior à verificada por Copeland(3). Tal discrepância poderia estar relacionada à execução técnica da dorsoflexão, bem como a peculiaridades das amostras utilizadas nas duas pesquisas. Uma dessas peculiaridades poderia ser a idade, pois em nosso grupo-controle verificamos que a variação da pressão da panturrilha tende a reduzir-se com o avançar da idade. Seja qual for a explicação, esse fato sugere que ao se aplicar o teste de Copeland em um membro com suspeita de ruptura aquileana ou para acompanhamento da recuperação funcional, o padrão de normalidade deve ser aquele que se obtém no membro contralateral ao lesado.
Comparando-se os valores do teste de Copeland nos membros submetidos a tenoplastia (técnica de Vulpius)(7) há mais de dois anos, com os dos seus contralaterais, observamos que nos lados operados a pressão da panturrilha aumentou durante a dorsoflexão do pé até no máximo 10mmHg a menos que no membro oposto, quando a recuperação funcional foi considerada clinicamente satisfatória. Essa variação entre a pressão da panturrilha no lado normal e operado com boa recuperação funcional está de acordo com o que foi verificado em nosso grupo-controle entre lado direito e esquerdo, de 10mmHg. Os dois casos com resultados insatisfatórios mostraram que a pressão na panturrilha do membro operado foi de 15 e 20mmHg menor que no lado são. Esses dados sugerem que o teste de Copeland nos permite detectar deficiências do tratamento cirúrgico.
Finalizando, podemos dizer que o teste da pressão da panturrilha, por ser de fácil aplicação, baixo custo e fornecer resultados quantitativos, é útil para o diagnóstico das rupturas do tendão de Aquiles e suas avaliações pós-operatórias.
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