Existem fatores que podem alterar a marcha normal da consolidação óssea, protelando-a ou impedindo-a de completar-se, e produzindo, respectivamente, retarde de consolidação e pseudartrose. O distúrbio mais grave na consolidação das fraturas e a pseudartrose, caracterizada como sendo o último estágio da anomalia de consolidação.
Há muito tempo, tenta-se reproduzir pseudartrose em animais, com o objetivo não apenas de estudala, mas também de se proporem métodos de tratamento(l,3,4,7) . Entretanto, foram Judet & col.(4) os primeiros a estudarem sistematicamente a influência de possíveis fatores etiológicos nas anomalias de consolidação observadas no homem, tentando reproduzi-las em animais de laboratórios. Após quatro meses da operação inicial, obtiveram pseudartrose e estudaram-na principalmente do ponto de vista da vascularização.
Rodriguez Fuentes(5), realizando a ressecção óssea de 3mm na região metáfiso-diafisária distal do rádio de cães, obteve pseudartrose em 95% dos animais, aos três meses da cirurgia. Santos Neto & Volpon(6) obtiveram anomalias de consolidação em 86% dos animais, utilizando a mesma técnica sete meses após o ato operatório.
A respeito do período em que os autores de trabalhos experimentais passam a considerar uma anomalia de consolidação como sendo uma pseudartrose, idealizouse o presente estudo, cujo objetivo é avaliar radiológica e histologicamente as diferentes fases da evolução do reparo ósseo e de suas anomalias, em condições experimentais bem controladas.
MATERIAL E MÉTODOS
Foram utilizados 27 cães adultos, mestiços, de ambos os sexos, com peso corporal inicial entre 8 e 12kg. Os animais foram operados sob condições assépticas de rotina. A osteotomia foi realizada na transição diáfisometafisária do rádio esquerdo, segundo a técnica utilizada por Rodriguez Fuentes(5). A anestesia era realizada com tiobarbiturato etil sódico, na dose de 30mg/kg de peso corporal, injetado por via endovenosa. No local demarcado, realizava-se uma osteotomia transversa simples (grupo A), empregando-se para isso uma serra circular de 0,8mm de espessura e 20mm de diâmetro. Nos animais do grupo B, a técnica operatória era idêntica a do grupo anterior, com a diferença de que a osteotomia do rádio era feita em dois níveis; pela remoção de um cilindro ósseo do rádio, produziu-se uma falha óssea de 3mm de comprimento (fig. 1). Não houve, no período pós-operatório, a preocupação em fazer curativos, imobilização e retirar as suturas.
Os animais foram divididos em dois grupos, conforme o tipo de osteotomia realizado, a saber: grupo A - osteotomia linear simples (19 animais); grupo B - osteotomia em dois níveis, com remoção de um cilindro ósseo de 3mm de comprimento (oito animais).
Estes tiveram seus antebraços radiografados no pósoperatório imediato e aos três meses. Já aos seis meses, 24 animais foram radiografados, sendo 17 do grupo A e sete do grupo B; três animais foram utilizados para estudo histológico aos três meses.
Na leitura das radiografias, atentou-se para as imagens compatíveis com a formação do calo ósseo ou com possíveis anomalias de consolidação.
Foram estudados oito espécimes de rádios osteotomizados, dos grupos A e B, com três e seis meses. de observação pós-operatória, e que houvessem evoluído tan--to para um quadro radiográfico típico de consolidação óssea, como de pseudartrose.
Para obtenção dos espécimes, os animais eram sacrificados e os segmentos de osso removidos, fixados em solução aquosa de formol a 10% por um período de 48 horas. Em seguida, eram mergulhados em líquido de Bouin por duas semanas, para fixação e descalcificação e depois em ácido tricloroacético a 10%, por mais duas semanas, para que a descalcificação fosse completada. Em ambas as fases de descalcificação, era usada eletrólise, segundo a técnica descrita por Gonçalves & Olivério(2)
Após a descalcificação, a peça era processada para o estudo histológico. Cortes longitudinais seriados de sete micrômetros de espessura eram corados pela hemato-xilina-eosina, pelo azul de alcian-fuesina e pelo tricrômico de Masson, examinados ao microscópio óptico e fotografados.
Os parâmetros avaliados foram o restabelecimento ou não da continuidade das corticais e do trabeculado medular.




RESULTADOS
Do ponto de vista radiológico, observou-se que, no grupo A (osteotomia linear simples), foi possível for-mar três subgrupos, conforme a evolução do reparo ósseo (tabela 1). No grupo B (ressecção de um cilindro ósseo de 3mm), os achados permitiram distinguir dois subgrupos, conforme a evolução do reparo ósseo (tabela 2).
Do ponto de vista histológico, nos animais do subgrupo A1, observou-se aos três meses que a falha óssea havia sido reparada e o trabeculado totalmente reconstituído; notava-se também reconstituição do periósteo (fig. 3). Aos seis meses, havia ocorrido remodelação óssea completa.
Nos animais do subgrupo A2, observou-se aos três meses que a linha da osteotomia estava preenchida por fibrocartilagem com áreas esparsas de cartilagem cercadas de osso jovem (ossificação endocondral). Aos seis meses, observava-se completa ossificação do tecido interposto na osteotomia evidenciando consolidação óssea (fig. 4).



No único animal do subgrupo A3 que apresentou pseudartrose hipertrófica seis meses após a cirurgia, no-tou-se grande quantidade de tecido cartilaginoso no local da osteotomia, com presença de fendas transversais em sua parte central e proliferação óssea periférica e central, dando os aspectos clássicos da "pata de elefante" e obliteração medular (fig. 5).



No animal do subgrupo B1, aos seis meses, e nos do subgrupo B2, avaliados aos três meses e aos seis meses, não foram observadas diferenças significativas em relação aos animais do subgrupo A1 e A3, no que se refere ao aspecto histológico.

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
No presente estudo, observou-se, no grupo A (osteotomia simples), que o que parecia ter franca pseudartrose aos três meses (subgrupo A2) mostrava-se consolidada aos seis meses; esse fato revela que o modelo de osteotomia simples não é adequado para obtenção de pseudartrose.
Já no grupo B (ressecção de cilindro ósseo), o que parecia ser retarde de consolidação ou pseudartrose aos três meses evoluiu para franca pseudartrose, radiográfica e histologicamente comprovada, aos seis meses. Este é, então, um modelo adequado para obtenção de pseudartrose e o período de seis meses seria suficiente para que essa anomalia de consolidação se caracterizasse.
A caracterização das anomalias de consolidação, neste estudo, foi feita por meio de radiografias e de estudo histológico dos espécimes. Este último confirma o primeiro e, principalmente, exprime a situação como definitiva, segundo parâmetros da literatura concernente. Se ao exame radiográfico era difícil distinguir retarde de consolidação e pseudartrose, ao exame histológico foi possível definir uma e outra situação. Assim, tanto a consolidação e a remodelação, como o retarde de consolidação e a pseudartrose, mostravam aspectos histológicos inconfundíveis.
Através da análise dos achados radiográficos (tabelas 1 e 2) e histológicos, é válido concluir que, em primeiro lugar, o prazo de três meses não é suficiente para definir a situação de uma anomalia de consolidação óssea, já que mudanças importantes podem ocorrer num período mais longo. Em segundo lugar, o modelo do grupo A não é adequado para obtenção de pseudartrose, considerando-se a baixa freqüência obtida (6%), aos seis meses. Entretanto, é apropriado para obtenção de retarde de consolidação aos três meses (52,9%). Finalmente, a alta freqüência de pseudartrose no grupo B, aos seis meses (85,8%), torna o modelo de ressecção de um cilindro ósseo adequado para o propósito experimental, principalmente se for levado em consideração que, nos espécimes desse grupo, o aspecto histológico, mais que o radiográfico, era de franca pseudartrose hipertrófica. Des-sa forma, pode-se observar que o estudo histológico contribuiu, aos três meses, especialmente na definição dos subgrupos, pois demonstrou que vários casos que pareciam ser de pseudartrose franca tratavam-se, na realidade, de retarde de consolidação caminhando para a consolidação aos seis meses.
A ressecção de um cilindro ósseo, no grupo B, pare-ce ter desempenhado papel preponderante na consistência com que a pseudartrose foi produzida.
Gonçalves, R.P. & Olivério, L.C.: EIectrical decalcification of bone. Mikroskopie 20: 154, 1965.
Judet, J..A. & Judet, R.: L'ostéogénésis et les retards de consolidation et des pseudarthoses des os longs, in VIII Congrés de la Société Internationale de Chirurgie Orthopédique et de Traumatologie, NY, 1960. Rapports: Bruxelles, Imprimerie des Sciences, 315, 1961.
Judet, R., Judet, J. & Roy-Camille, R.: La vascularisation des pseudarthroses des os longs d'apres. une étude clínique et expérimentale Rev Chir Orthop 44: 382, 1958.
Rodriguez Fuentes, A.E.: Efeitos da estimulação elétrica em pseudartrose provocada experimentalmente em cães, tese de doutorado, Fac. de Med. de Ribeirão Preto, USP, 1978.
Santos Neto, F.L. & Volpon, J.B.: Experimental nonunion in dogs. Clin Orthop 187: 260, 1984.
Schenk, R.K., Muller, J. & Willenegger, H.: Experimentell-histolo-gischer beitrag zur Entstehung und Behandlung von Pseudartrosen. H Unffalleheilk 94: 15, 1968.